BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
REVISTAS
VEJA
Edição 2076

3 de setembro de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Lya Luft
Millôr
Leitor
Blogosfera
PANORAMA
Imagem da semana
Holofote
SobeDesce
Conversa
Números
Datas
Radar
Veja Essa
 

Saúde
A noite é feita para dormir

A privação do sono tem levado os adolescentes a problemas
sérios de saúde. A nova doença a entrar na lista é a hipertensão


Anna Paula Buchalla

SW Productions/Getty Images/Royalty-Free
DE OLHOS BEM ABERTOS
O risco de pressão alta é 2,5 vezes maior entre os jovens que dormem pouco
VEJA TAMBÉM
Dos arquivos de VEJA
Distúrbios do sono


Está faltando sono de qualidade na noite dos adolescentes. A privação do descanso noturno predispõe os jovens a problemas sérios de saúde e comportamento. Males que até agora se acreditavam típicos de adultos insones, como a obesidade e a depressão, começam a se manifestar entre os mais novos. A última pesquisa sobre o assunto revelou que as noites maldormidas podem levar os adolescentes à hipertensão, um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares. Pesquisadores da Universidade Cleveland, nos Estados Unidos, acompanharam 238 meninos e meninas entre 13 e 16 anos que dormiam, em média, sete horas por dia – duas a menos que a quantidade tida como ideal. Divulgado pela revista científica Circulation, o trabalho revelou que 26% dos jovens tinham dificuldade para pegar no sono ou acordavam freqüentemente durante a noite, o que elevou em 3,5 vezes o risco de hipertensão. Outros 11% dormiam menos de seis horas por noite – e tiveram 2,5 vezes mais probabilidade de apresentar pressão alta. "O sono é um item fundamental para a vida saudável, mas raramente incluído na famosa e já tão batida combinação de dieta e exercícios físicos para a boa saúde", diz o neurofisiologista Flávio Alóe, do Centro de Estudos do Sono do Hospital das Clínicas, de São Paulo.

Os grandes ladrões do sono juvenil são os hábitos da vida moderna e a correria do dia-a-dia. Além da escola, há uma extensa lista de atividades extracurriculares a ser cumprida. Deve-se levar em conta ainda a agitada vida social (geralmente noturna) a que muitos desses jovens se submetem. O grande culpado pelas noites maldormidas dos adolescentes, porém, está dentro de seus próprios quartos. Nos últimos anos, esse aposento destinado inicialmente ao descanso foi palco de uma invasão tecnológica – televisão, DVD, aparelho de som, computador, videogame, telefone… O quarto foi descaracterizado como local de dormir e os pais perderam o controle sobre o horário de seus filhos. A noite chega e o adolescente se encastela nele. É difícil desligar, querer ir para a cama, quando se pode estar plugado ao mundo todo, o tempo todo. Quem tem mais de 40 anos certamente se lembra quando, em determinado momento da madrugada, as emissoras de televisão saíam do ar – para voltar só no dia seguinte. Hoje, no entanto, não faltam opções para manter a rapaziada acesa. Segundo Susan Redline, coordenadora do trabalho de Cleveland, o sono dos jovens, em geral, ficou bem mais curto nos últimos vinte anos. Nos Estados Unidos, 80% dos garotos e garotas de 13 a 18 anos não dormem o número mínimo de horas considerado ideal. "Quando é possível escolher entre o sono e outra atividade, a maioria opta pela segunda", escreveu o neuropediatra americano Richard Ferber, da Universidade Harvard, no livro Bom Sono.

Os efeitos da falta de sono são especialmente perversos numa etapa da vida em que o organismo está em pleno desenvolvimento. O sono de má qualidade deixa as funções cerebrais mais lentas, o que, no caso de um adolescente, pode afetar o aprendizado e comprometer o desenvolvimento físico. Uma boa noite de repouso é importante, por exemplo, para síntese de GH, o hormônio do crescimento. Nos meninos, 80% de todo o GH é secretado nas fases mais profundas do sono, quando o descanso se torna de fato reparador. Entre as meninas, 60% do hormônio é liberado nesses estágios. A falta de GH não só atrapalha o processo natural de crescimento como acaba por prejudicar a qualidade do sono. Inicia-se, assim, um círculo vicioso extremamente arriscado.

Os estudos sobre a fisiologia do sono dos adolescentes são bastante recentes. Apenas na década de 90, por exemplo, descobriu-se que o hábito dos jovens de dormir tarde e acordar tarde não é simplesmente preguiça – e, sim, resultado da revolução hormonal a que esses meninos e meninas são submetidos nesse período da vida. Entre os adolescentes, a produção diária de melatonina, o hormônio que estimula o sono, sofre um atraso de até quatro horas em relação à da população em geral. Mesmo os jovens que dormem o necessário tendem a ficar sonolentos até o meio da manhã e alertas a partir do meio da tarde. Com base nessas descobertas científicas, algumas escolas já alteraram o horário das aulas dos adolescentes. Em muitos colégios americanos, o sinal de entrada foi atrasado em uma hora, para alívio de alunos, pais e professores. No Brasil, alguns optaram por iniciar o dia com aulas voltadas às artes ou à educação física. As alterações no padrão do sono típicas dos jovens, somadas ao estilo de vida atual, transformam a adolescência numa das fases da vida mais propensas aos distúrbios do sono. A maioria desses transtornos pode ser tratada com um simples ajuste de horários. Isso pode ser feito de forma gradativa, mas depende do pulso firme e das regras impostas pelos pais. Os remédios para dormir são uma exceção e só valem para os casos mais sérios.

Fotos Royalty-Free/Getty Images

 



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |