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Internacional Obama quebra um tabu
histórico e vira candidato
Todo mundo sabia o resultado, mas não deixa de ser histórico: Barack Hussein Obama, um havaiano de 47 anos, filho de mãe branca do Kansas e pai negro do Quênia, tornou-se oficialmente, às 20h14 de quinta-feira, 28 de agosto de 2008, hora de Denver, no estado do Colorado, o primeiro negro a candidatar-se à Presidência dos Estados Unidos por um partido majoritário. "Eu aceito a sua indicação", anunciou Obama. A platéia de quase 80.000 pessoas, instaladas num moderno estádio de futebol, como convém a um pop star, veio abaixo. Obama falou durante 42 minutos, fez seu discurso mais duro contra o adversário, o republicano John McCain, e também o mais substancioso de sua campanha até agora. Falou de saúde, educação, emprego, energia, aposentadoria, Iraque, terrorismo. Foi aplaudido 67 vezes. Estava assim encerrada a convenção do Partido Democrata, um espetáculo que durou quatro dias, mobilizou 26 000 voluntários e injetou cerca de 160 milhões de dólares na economia de Denver. O prefeito, John Hicken-looper, ria com 300 dentes. Para quem está habituado às pancadarias do PMDB, o evento deixou duas lições elementares: ensinou como se faz show e como se faz até um pouco de política. O ponto alto do espetáculo foi o discurso de Obama no estádio de futebol, pronunciado à frente de uma fachada de templo grego com colunas dóricas, cenário cuja intenção era evocar a monumentalidade arquitetônica de Washington. Era desalentadoramente brega, mas funcionou. O público ali presente adorou. O público em casa, confiando-se na audiência da televisão, também. Não podia ser diferente. Para fazer um show, tudo é pensado em função da TV. Antes de Obama subir ao palco, testaram-se os ângulos de câmera, de modo que o candidato aparecesse sempre com a multidão, e não acima da multidão. A chuva estragaria as imagens, mas dava para arriscar. A meteorologia informava que, nos últimos vinte anos, choveu só uma vez em Denver no dia 28 de agosto. Também deu certo. De dia, o sol estava radiante. De noite, Obama discursou sob um céu estrelado. Para ofuscar seu sucesso, McCain anunciou sua companheira de chapa no dia seguinte: é a governadora do Alasca, Sarah Palin. Ela não tem experiência nenhuma, mas possui um belo rosto para a televisão e, sendo mulher, pode rivalizar com a estrela em ascensão da temporada, Michelle Obama (veja quadro). Imagem é tudo.
Como as câmeras amam um rosto em lágrimas, discurso que se preze tem de apelar para a família e as tragédias familiares. Chelsea, a filha dos Clinton, chamou Hillary ao palco. Com vocês, "minha heroína e minha mãe". Caroline Kennedy, sobrinha do senador Edward Kennedy, que interrompeu sua luta contra um câncer no cérebro para aparecer uns minutos na convenção, anunciou o senador. Com vocês, "meu tio Teddy". Craig Robinson foi escalado para convidar ao palco sua irmã Michelle Obama. Com vocês, "minha irmãzinha". Biden foi introduzido ao público por um de seus filhos. Com vocês, "meu amigo, meu pai, meu herói". Biden começou seu discurso falando do seu orgulho do filho e do desejo de que seu pai estivesse vivo para vê-lo ali, e saudando a mãe, velhinha, na platéia. A tragédia familiar de Biden, que perdeu a mulher e uma filha de 13 meses num acidente de carro em 1972, foi mencionada três vezes: no telão que resumiu sua vida, na fala do seu filho e na sua própria. Só não pegou lágrima o cinegrafista que não quis.
Com patrocínio da AT&T, da Coca-Cola e de uma enormidade de empresas menos conhecidas, de shopping center a escritório de advocacia, houve, além do espetáculo, uma convenção partidária e altamente profissional. As divisões internas numa legenda não existem só na miríade de facções de um PT ou no retalho confederativo de um PMDB. Mas só aparecem ao público quando o pessoal perde o juízo. Temia-se que Hillary desse apoio apenas protocolar a Obama, em razão dos ressentimentos das primárias, ou que seus delegados fizessem confusão no plenário; Obama tinha uma tropa de choque de prontidão. Ninguém perdeu o juízo. Hillary fez um endosso inequívoco do ex-rival e chamou seus partidários à unidade. Bill Clinton, outro magoado, ainda queria falar de economia, para jogar confete em sua gestão, e o escalaram para abordar a política externa. Foi outro profissional. Deu apoio cristalino a Obama, fez um atalho para mencionar a economia, mas centrou seu discurso no fracasso da política externa de George W. Bush. Do próprio Obama, o partido vinha pedindo menos retórica e mais conteúdo. Ele cumpriu o roteiro à risca, com promessas de cortar impostos de "95% dos americanos" e chegar à independência do petróleo do Oriente Médio "em dez anos". Todos, de ex-presidente a candidato a presidente, devidamente enquadrados. Há vida no Partido Democrata. Os 4 400 delegados e milhares de militantes sem voto fizeram muita festa em Denver, lotaram bares e boates, fecharam restaurantes, mas até trabalharam. Os encontros setoriais cáucus estavam por toda parte no centro de convenções. A reunião dos latinos tinha dois telões, com orientações sobre como capturar o voto hispânico. Na dos ruralistas havia programa impresso com propostas de Obama para o setor, mas não tinha gente. A dos índios tinha café de graça. A dos gays e lésbicas não tinha café, nem programa, mas havia distribuição de balinhas com o desenho da bandeira americana. E tudo objetivo. O que querem os ruralistas? "Saúde", diz Richard Machacek, 57 anos, que planta milho e soja no sul de Iowa e paga 1 200 dólares de plano de saúde. "Uma exorbitância." E o que querem os gays e lésbicas? "Casar", diz Vanessa Foster, 51 anos, de Houston, Texas. E os índios? "Voz", diz Michael Matanane Bell, 24 anos, da tribo cheyenne e arapaho. "Somos 630 tribos reconhecidas e não temos voz." Como sempre acontece na euforia antes das urnas, todos acham que, com Obama na Casa Branca, terão o que querem. É óbvio que não terão, mas não deixa de ser histórico.
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