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Música
Agora
chega
Neil
Young entra para o Círculo
dos Chatos com o disco Greendale

Sérgio Martins
Neil
Young, um dos grandes nomes da história do rock, está
lançando um disco novo. Ele se chama Greendale, e
é uma obra conceitual. Suas canções contam
a história da família Green, habitante de uma cidadezinha
fictícia nos confins da América. Neil Young gravou
tudo em seu estúdio caseiro. Além disso, criou uma
página na internet, um DVD e até mesmo um filme, que
será lançado em breve. Tudo parte do mesmo projeto.
Em suma, Greendale é mais uma obra-prima, daquelas
que ensinam aos novatos o que é ser um bom roqueiro. Certo?
Errado. O disco é tedioso, com suas músicas sem refrão
que se arrastam por doze minutos. Ele é também irritante,
com sua mensagem sobre como é necessário preservar
a natureza para salvar o mundo. O mais triste de tudo é que
ele não é pior do que os últimos dez discos
lançados por Young. Não é agradável
dizer isso. Afinal de contas, o cantor canadense tem uma longa lista
de serviços prestados à música. Mas, desta
vez, ele parece ter mesmo carimbado o seu passaporte de entrada
naquele clube peculiar o dos roqueiros importantes que se
tornaram chatos.
Assim
como acontece com os pecadores no inferno descrito por Dante Alighieri
no poema A Divina Comédia, os roqueiros chatos podem
ser separados em "círculos". O círculo mais numeroso
é o dos artistas engajados. Misturar política e música
é um caminho seguro para, mais cedo ou mais tarde, torrar
a paciência do ouvinte. Nada pior do que descobrir que a canção
que está tocando no rádio enquanto você viaja
para a praia é uma tentativa de cooptá-lo para uma
causa politicamente correta. Nada pior do que lembrar de Bono Vox,
do U2, segurando uma bandeira branca e pedindo o fim das guerras
enquanto canta Sunday Bloody Sunday, ou ouvir o Pearl Jam
clamando contra o sistema pela enésima vez em seus shows.
Adiante
no inferno dos chatos encontram-se os pretensiosos e os experimentadores.
São artistas que fizeram belos trabalhos na área pop,
mas, de repente, começaram a sentir que "faltava ambição"
à sua obra. Um caso exemplar é o do cantor Sting (que,
por sinal, também merecia o enxofre do círculo anterior).
Criador de gemas pop à frente do trio The Police, ele desgastou
sua imagem ao partir em carreira-solo e burilar o seu "lado jazzista".
Um companheiro de infortúnio de Sting é o escocês
David Byrne, que fez uma carreira brilhante à frente dos
Talking Heads e depois resolveu abraçar todos os sons do
mundo gravando discos com rumba e música baiana. O
mais jovem candidato a ingressar nessa região do inferno
é Thom Yorke, líder do conjunto inglês Radiohead.
Ele adora citar influências como o compositor polonês
Krzysztof Penderecki para explicar a sonoridade dos discos de sua
banda, cada vez mais estranha, difícil e chata.
O
último tipo de chato é aquele no qual Neil Young se
enquadra. Trata-se do artista que burilou um estilo no correr de
uma longa carreira. Ter estilo, claro, é uma coisa boa. É
sinal de que o músico se destacou da manada e conquistou
um espaço próprio. O problema é quando "estilo"
passa a ser um eufemismo para "repetição". E a repetição
é a mãe do tédio, como afirmou certa vez o
poeta russo Joseph Brodsky. À medida que o rock envelhece,
essa é uma casta que vai se tornando cada vez mais numerosa.
Por exemplo, os últimos trabalhos de Lou Reed e David Bowie
emulam o que eles já faziam nos anos 70, sem trazer, contudo,
a centelha de seus álbuns clássicos. A crítica
freqüentemente é cúmplice desses figurões,
acobertando sua chatice. Até que algum desmancha-prazeres
resolve dizer o que estava na cabeça de todos, mas ninguém
tinha coragem de pôr para fora. Até agora, o único
crítico importante que decretou a falência artística
de Neil Young foi o inglês Andy Gill, do jornal The Independent.
Ao contrário de seus colegas da Rolling Stone e do
The New York Times, ele destroçou Young ao resenhar
Greendale. Na sua opinião, Young não pára
de lançar lixo, mas "é saudado por fãs e jornalistas
que têm vergonha de admitir que seus discos estão uma
porcaria". Andy Gill, infelizmente, está coberto de razão.
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