Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Música
Agora chega

Neil Young entra para o Círculo
dos Chatos com o disco Greendale


Sérgio Martins

Neil Young, um dos grandes nomes da história do rock, está lançando um disco novo. Ele se chama Greendale, e é uma obra conceitual. Suas canções contam a história da família Green, habitante de uma cidadezinha fictícia nos confins da América. Neil Young gravou tudo em seu estúdio caseiro. Além disso, criou uma página na internet, um DVD e até mesmo um filme, que será lançado em breve. Tudo parte do mesmo projeto. Em suma, Greendale é mais uma obra-prima, daquelas que ensinam aos novatos o que é ser um bom roqueiro. Certo? Errado. O disco é tedioso, com suas músicas sem refrão que se arrastam por doze minutos. Ele é também irritante, com sua mensagem sobre como é necessário preservar a natureza para salvar o mundo. O mais triste de tudo é que ele não é pior do que os últimos dez discos lançados por Young. Não é agradável dizer isso. Afinal de contas, o cantor canadense tem uma longa lista de serviços prestados à música. Mas, desta vez, ele parece ter mesmo carimbado o seu passaporte de entrada naquele clube peculiar – o dos roqueiros importantes que se tornaram chatos.

Assim como acontece com os pecadores no inferno descrito por Dante Alighieri no poema A Divina Comédia, os roqueiros chatos podem ser separados em "círculos". O círculo mais numeroso é o dos artistas engajados. Misturar política e música é um caminho seguro para, mais cedo ou mais tarde, torrar a paciência do ouvinte. Nada pior do que descobrir que a canção que está tocando no rádio enquanto você viaja para a praia é uma tentativa de cooptá-lo para uma causa politicamente correta. Nada pior do que lembrar de Bono Vox, do U2, segurando uma bandeira branca e pedindo o fim das guerras enquanto canta Sunday Bloody Sunday, ou ouvir o Pearl Jam clamando contra o sistema pela enésima vez em seus shows.

Adiante no inferno dos chatos encontram-se os pretensiosos e os experimentadores. São artistas que fizeram belos trabalhos na área pop, mas, de repente, começaram a sentir que "faltava ambição" à sua obra. Um caso exemplar é o do cantor Sting (que, por sinal, também merecia o enxofre do círculo anterior). Criador de gemas pop à frente do trio The Police, ele desgastou sua imagem ao partir em carreira-solo e burilar o seu "lado jazzista". Um companheiro de infortúnio de Sting é o escocês David Byrne, que fez uma carreira brilhante à frente dos Talking Heads e depois resolveu abraçar todos os sons do mundo – gravando discos com rumba e música baiana. O mais jovem candidato a ingressar nessa região do inferno é Thom Yorke, líder do conjunto inglês Radiohead. Ele adora citar influências como o compositor polonês Krzysztof Penderecki para explicar a sonoridade dos discos de sua banda, cada vez mais estranha, difícil – e chata.

O último tipo de chato é aquele no qual Neil Young se enquadra. Trata-se do artista que burilou um estilo no correr de uma longa carreira. Ter estilo, claro, é uma coisa boa. É sinal de que o músico se destacou da manada e conquistou um espaço próprio. O problema é quando "estilo" passa a ser um eufemismo para "repetição". E a repetição é a mãe do tédio, como afirmou certa vez o poeta russo Joseph Brodsky. À medida que o rock envelhece, essa é uma casta que vai se tornando cada vez mais numerosa. Por exemplo, os últimos trabalhos de Lou Reed e David Bowie emulam o que eles já faziam nos anos 70, sem trazer, contudo, a centelha de seus álbuns clássicos. A crítica freqüentemente é cúmplice desses figurões, acobertando sua chatice. Até que algum desmancha-prazeres resolve dizer o que estava na cabeça de todos, mas ninguém tinha coragem de pôr para fora. Até agora, o único crítico importante que decretou a falência artística de Neil Young foi o inglês Andy Gill, do jornal The Independent. Ao contrário de seus colegas da Rolling Stone e do The New York Times, ele destroçou Young ao resenhar Greendale. Na sua opinião, Young não pára de lançar lixo, mas "é saudado por fãs e jornalistas que têm vergonha de admitir que seus discos estão uma porcaria". Andy Gill, infelizmente, está coberto de razão.

 

 
 
 
 
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