|
|
Cinema
Sou
o que visto
Na
prisão de A Experiência, basta um
uniforme para dividir os homens entre
fascistas e submissos

Isabela
Boscov
Divulgação
 |
| Os
presos de A Experiência, em seus camisolões: escalada
de brutalidade |
Em
1971, o americano Philip Zimbardo, da Universidade Stanford, conduziu
um dos experimentos mais célebres da história da psicologia:
recrutou 24 voluntários entre os estudantes, dividiu-os aleatoriamente
em dois grupos doze "guardas" e doze "prisioneiros"
e confinou-os em uma falsa prisão. Estava-se no auge da contracultura,
a universidade era liberal e os estudantes, mais ainda. No entanto,
Zimbardo teve de interromper o projeto já no sexto dia, tal
a brutalidade dos "carcereiros", e a conseqüente submissão
e depressão dos "presos". Não se chegou ao ponto da
violência física, mas faltou pouco: os guardas se uniram
para arquitetar todo tipo de humilhação e tortura
psicológica, e já estavam começando a achacar
os presos durante a noite, quando se acreditavam sem supervisão
dos cientistas. "Aqueles sujeitos eram todos militantes pacifistas.
De uma hora para outra, converteram-se em nazistas", escreveu Zimbardo.
É nesse episódio verídico que se inspira A
Experiência (Das Experiment, Alemanha, 2001),
que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio
de Janeiro.
O
filme do diretor Oliver Hirschbiegel se passa na Alemanha, nos dias
de hoje, mas em muitos aspectos é fiel aos acontecimentos
de Stanford: os voluntários são recrutados por meio
de um anúncio, em que se oferece remuneração
aos participantes. Ao chegar à falsa prisão, eles
são vestidos em um camisolão com um número,
sem roupas de baixo um truque criado por Zimbardo para apressar
a sensação de emasculação que advém
do aprisionamento. Como no experimento real, logo se manifesta uma
personalidade dominante em cada um dos grupos: um guarda com nítidas
tendências sádicas e um prisioneiro empenhado em instigar
a rebeldia dos demais, a fim de ter mais assunto para a reportagem-denúncia
que pretende vender para um jornal. E, como aconteceu com Zimbardo,
os pesquisadores entram no jogo de tal maneira que começam
a subestimar a truculência dos guardas e o stress dos prisioneiros.
No filme, porém, falta-lhes lucidez para perceber que estão
perdendo o controle da situação. O mesmo se pode dizer
do diretor: na sua ânsia de extrair dessa história
tudo o que ela tem de sensacional, Hirschbiegel troca a contextualização
pelos clichês. Sai-se com um thriller competente, mas ao qual
falta a conclusão sinistra a que se chegou em Stanford
a de que dentro de cada um de nós há um conformista
e um totalitário, e não é preciso muito mais
do que o uniforme certo para que ele venha à tona.
|