Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Sou o que visto

Na prisão de A Experiência, basta um
uniforme para dividir os homens entre
fascistas e submissos


Isabela Boscov


Divulgação
Os presos de A Experiência, em seus camisolões: escalada de brutalidade

Em 1971, o americano Philip Zimbardo, da Universidade Stanford, conduziu um dos experimentos mais célebres da história da psicologia: recrutou 24 voluntários entre os estudantes, dividiu-os aleatoriamente em dois grupos – doze "guardas" e doze "prisioneiros" – e confinou-os em uma falsa prisão. Estava-se no auge da contracultura, a universidade era liberal e os estudantes, mais ainda. No entanto, Zimbardo teve de interromper o projeto já no sexto dia, tal a brutalidade dos "carcereiros", e a conseqüente submissão e depressão dos "presos". Não se chegou ao ponto da violência física, mas faltou pouco: os guardas se uniram para arquitetar todo tipo de humilhação e tortura psicológica, e já estavam começando a achacar os presos durante a noite, quando se acreditavam sem supervisão dos cientistas. "Aqueles sujeitos eram todos militantes pacifistas. De uma hora para outra, converteram-se em nazistas", escreveu Zimbardo. É nesse episódio verídico que se inspira A Experiência (Das Experiment, Alemanha, 2001), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O filme do diretor Oliver Hirschbiegel se passa na Alemanha, nos dias de hoje, mas em muitos aspectos é fiel aos acontecimentos de Stanford: os voluntários são recrutados por meio de um anúncio, em que se oferece remuneração aos participantes. Ao chegar à falsa prisão, eles são vestidos em um camisolão com um número, sem roupas de baixo – um truque criado por Zimbardo para apressar a sensação de emasculação que advém do aprisionamento. Como no experimento real, logo se manifesta uma personalidade dominante em cada um dos grupos: um guarda com nítidas tendências sádicas e um prisioneiro empenhado em instigar a rebeldia dos demais, a fim de ter mais assunto para a reportagem-denúncia que pretende vender para um jornal. E, como aconteceu com Zimbardo, os pesquisadores entram no jogo de tal maneira que começam a subestimar a truculência dos guardas e o stress dos prisioneiros. No filme, porém, falta-lhes lucidez para perceber que estão perdendo o controle da situação. O mesmo se pode dizer do diretor: na sua ânsia de extrair dessa história tudo o que ela tem de sensacional, Hirschbiegel troca a contextualização pelos clichês. Sai-se com um thriller competente, mas ao qual falta a conclusão sinistra a que se chegou em Stanford – a de que dentro de cada um de nós há um conformista e um totalitário, e não é preciso muito mais do que o uniforme certo para que ele venha à tona.

 
 
 
 
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