Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Cinema
Ar rarefeito

No amargo Igby, um adolescente
tenta achar algum oxigênio no
mundo dos ricos demais


Isabela Boscov

Fotos do filme

Trailer

"Você chama sua mãe de Mimi?", pergunta, incrédula, uma moça ao adolescente Igby. "Pois é. Não posso chamá-la de Medéia, porque esse nome já tem dona", retruca o rapaz, em referência à personagem clássica que matou seus próprios filhos para vingar-se do marido. Esse tom sarcástico é uma constante em A Estranha Família de Igby (Igby Goes Down, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo. O que não significa que a amargura que ele expressa não seja verdadeira, ou pungente. Igby (Kieran Culkin) tem 17 anos, uma família que nada em dinheiro antigo, um pai internado por causa de um surto esquizofrênico, oito anos antes, e um longo histórico de expulsões de escolas variadas. "Ele já esgotou o circuito protestante. Agora estamos apelando para as escolas católicas", esnoba o irmão mais velho de Igby, a quem este chama alternadamente de "O Fascista" e "O Jovem Republicano". Igby vive em fuga, na prática e metaforicamente, do ambiente vazio e estéril em que foi criado – o dos ricos demais, há tempo demais. O seu, evidentemente, não é um problema de apelo universal. Tanto maior o mérito do diretor e roteirista estreante Burr Steers, então, em conseguir que a raiva e a desorientação de seu protagonista repercutam como o que são na verdade: sintomas de um desajuste civilizatório, o do sacrifício às aparências. Veja-se por exemplo a mãe de Igby (Susan Sarandon). Mimi está morrendo de câncer. Mas, enquanto vomita sangue, ela ajeita a peruca, alisa a saia e enfileira ironias numa conversa com o filho.

Tiradas como essa escapam à caricatura porque o diretor Burr Steers sabe bem do que está falando. Bisneto de senador, filho de congressista, sobrinho do escritor Gore Vidal e de Jacqueline Kennedy, aos 16 anos ele começou a empreender, como Igby, uma longa fuga desse mundo rarefeito, que culminou com a fundação de uma companhia de teatro em Los Angeles. Steers só enfrentou seus agravos familiares quando seu irmão, um pintor de talento, estava à morte em decorrência da Aids – e A Estranha Família de Igby é o saldo desse confronto. O cineasta tem, além disso, um trunfo importante na escalação de seu protagonista. Um dos sete rebentos do clã Culkin, Kieran não só é um ator dos mais promissores, como tem grande intimidade com rancores familiares. Em 1995, ele assistiu de camarote à sangrenta batalha judicial que seu pai e sua mãe travaram pela fortuna de seu irmão Macaulay, então com 15 anos. A pendenga pública terminou apenas dois anos depois, quando um juiz emancipou o ex-sucesso mirim e entregou o controle de seus bens a um contador. Macaulay até hoje não se recuperou: apesar de uma aparição nos palcos londrinos, de um filminho ou outro e de uma participação especial no seriado Will & Grace, sua carreira está, até prova em contrário, encerrada. "Tive mais sorte do que Macaulay. Nunca ganhei tanto dinheiro quanto ele para atrair a atenção de meu pai", diz Kieran.

 
 
 
 
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