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Cinema
Ar rarefeito
No amargo Igby, um adolescente
tenta achar algum oxigênio no
mundo dos ricos demais

Isabela
Boscov
"Você
chama sua mãe de Mimi?", pergunta, incrédula, uma
moça ao adolescente Igby. "Pois é. Não posso
chamá-la de Medéia, porque esse nome já tem
dona", retruca o rapaz, em referência à personagem
clássica que matou seus próprios filhos para vingar-se
do marido. Esse tom sarcástico é uma constante em
A Estranha Família de Igby (Igby Goes Down,
Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira em São
Paulo. O que não significa que a amargura que ele expressa
não seja verdadeira, ou pungente. Igby (Kieran Culkin) tem
17 anos, uma família que nada em dinheiro antigo, um pai
internado por causa de um surto esquizofrênico, oito anos
antes, e um longo histórico de expulsões de escolas
variadas. "Ele já esgotou o circuito protestante. Agora estamos
apelando para as escolas católicas", esnoba o irmão
mais velho de Igby, a quem este chama alternadamente de "O Fascista"
e "O Jovem Republicano". Igby vive em fuga, na prática e
metaforicamente, do ambiente vazio e estéril em que foi criado
o dos ricos demais, há tempo demais. O seu, evidentemente,
não é um problema de apelo universal. Tanto maior
o mérito do diretor e roteirista estreante Burr Steers, então,
em conseguir que a raiva e a desorientação de seu
protagonista repercutam como o que são na verdade: sintomas
de um desajuste civilizatório, o do sacrifício às
aparências. Veja-se por exemplo a mãe de Igby (Susan
Sarandon). Mimi está morrendo de câncer. Mas, enquanto
vomita sangue, ela ajeita a peruca, alisa a saia e enfileira ironias
numa conversa com o filho.
Tiradas como essa escapam à caricatura porque o diretor Burr
Steers sabe bem do que está falando. Bisneto de senador,
filho de congressista, sobrinho do escritor Gore Vidal e de Jacqueline
Kennedy, aos 16 anos ele começou a empreender, como Igby,
uma longa fuga desse mundo rarefeito, que culminou com a fundação
de uma companhia de teatro em Los Angeles. Steers só enfrentou
seus agravos familiares quando seu irmão, um pintor de talento,
estava à morte em decorrência da Aids e A
Estranha Família de Igby é o saldo desse confronto.
O cineasta tem, além disso, um trunfo importante na escalação
de seu protagonista. Um dos sete rebentos do clã Culkin,
Kieran não só é um ator dos mais promissores,
como tem grande intimidade com rancores familiares. Em 1995, ele
assistiu de camarote à sangrenta batalha judicial que seu
pai e sua mãe travaram pela fortuna de seu irmão Macaulay,
então com 15 anos. A pendenga pública terminou apenas
dois anos depois, quando um juiz emancipou o ex-sucesso mirim e
entregou o controle de seus bens a um contador. Macaulay até
hoje não se recuperou: apesar de uma aparição
nos palcos londrinos, de um filminho ou outro e de uma participação
especial no seriado Will & Grace, sua carreira está,
até prova em contrário, encerrada. "Tive mais sorte
do que Macaulay. Nunca ganhei tanto dinheiro quanto ele para atrair
a atenção de meu pai", diz Kieran.
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