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Livros
Comer
bem e falar mal
Os
bastidores da alta gastronomia,
segundo
uma crítica desabusada

Marcelo
Marthe
Tão
logo assumiu o posto de crítica gastronômica do jornal
The New York Times, em 1993, a americana Ruth Reichl provocou
estrago na reputação de um dos restaurantes franceses
mais chiques de Manhattan. Como é praxe entre os profissionais
de sua área, ela visitou o local sob anonimato caracterizada
como uma velhinha, um de seus vários disfarces. Foi tratada
como pária: colocaram-na na pior mesa, escondida perto do
banheiro, e os garçons a ignoravam. Ruth voltou ao estabelecimento
dias depois, dessa vez revelando sua identidade e aí,
claro, foi paparicada. Com uma reportagem na qual comparava o tratamento
nas duas ocasiões, ela escandalizou os leitores. Ruth, que
trabalhou no Times por seis anos e hoje é editora-chefe
da revista especializada Gourmet, ganhou a partir de então
fama de crítica implacável e de primeira-inimiga do
esnobismo. No recém-lançado livro Conforte-me
com Maçãs (tradução de Ana Deiró;
Objetiva; 351 páginas; 44,90 reais), ela narra algumas de
suas aventuras nesse mundinho.
Os gourmets que emergem de suas memórias são criaturas
vaidosas que circulam por ambientes glamorosos em que não
apenas se come bem: faz-se da culinária uma arma de conquista
amorosa. Ruth relata como, logo numa de suas primeiras reportagens,
foi seduzida por seu editor. Graças a seus conhecimentos
sobre caviar e outras iguarias, ele arrebatou o coração
dela, que era casada na época, e a carregou para um tour
pela França. A relação azedou, conta Ruth,
quando ela ousou rivalizar com o amante em suas observações
sobre vinhos. Conforte-me com Maçãs contém
outras passagens interessantes, como aquelas em que Ruth narra suas
prospecções de sabores pela Espanha, Tailândia
e China. Mas o livro seria mais divertido se a autora se detivesse
menos em sua vida afetiva e na tentativa de "poetizar" suas experiências
gastronômicas e se concentrasse nas fofocas sobre os bastidores
dos restaurantes. Conhecimento desses bastidores não lhe
falta, como ela mostrou em entrevista a VEJA.
Michel Donnelly
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| Ruth:
"Cuidado com essa mulher" |
Ruth não tem pejo em externar suas críticas ao mundo
da alta gastronomia. "Até as panelas sabem que os restaurantes
chiques discriminam os clientes que consideram indesejáveis",
diz. Segundo ela, os restaurantes sofisticados sempre tiveram estratégias
para selecionar os freqüentadores. "Eles preferem gente bonita
e poderosa. Em Nova York, quem não se encaixa nesse figurino
pode penar por mais de um ano sem conseguir uma reserva", afirma.
Hoje em dia, os restaurantes se utilizam do computador para filtrar
a clientela. "Desenvolveram um programa graças ao qual é
possível saber quanto a pessoa gastou da última vez
que foi ao lugar, como se comportou e até a gorjeta que deu
ao garçom", informa.
Ruth também ficou conhecida por seu feminismo extremado.
Para ela, está longe o dia em que as mulheres terão
igualdade de oportunidades nos restaurantes. "Aquelas que tentam
se firmar como chefs enfrentam concorrentes capazes de jogar uma
panela fervente numa mulher sem a menor cerimônia", ataca.
O machismo na cozinha, opina Ruth, tem origem na mais badalada das
culinárias, a francesa: "Enquanto na Itália, por exemplo,
as mulheres sempre tiveram espaço, a França continua
atrasada nesse aspecto". Com observações como essas,
a autora de Conforte-me com Maçãs tornou-se
uma figura odiada por muitos em Nova York. O proprietário
de um restaurante chegou a espalhar um folheto com sua foto, em
que se lia: "Cuidado com essa mulher. Ela sorri o tempo todo, mas
não é confiável".
| Francês
esnobe |
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"Em
1978, em minha estréia como crítica gastronômica,
fui ao restaurante francês de um chef que cozinhava
para os Kennedys. O manobrista olhou com espanto para
meu Volvo maltratado e sacudiu a cabeça. O maître
me mediu de alto a baixo, examinou minhas roupas de
segunda mão compradas em brechós e me
conduziu direto para a pior mesa, aquela que tremia
cada vez que o garçom passava. E quando o chefe
do salão anunciou que o prato especial da noite
era uma terrine de foie gras, fez questão de
me dizer o preço."
Trecho
de Conforte-me com Maçãs
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