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Comércio
Já
que está, deixa ficar
O
erro foi criar uma área de incentivos fiscais
na Amazônia. Agora, a questão parece ser
como mantê-la sem novas gastanças

Leonardo
Coutinho, de Manaus
Fotos divulgação/Suframa
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frama
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| Fábricas
sem chaminés não agridem o meio ambiente. Nas linhas de produção,
empresas preferem mulheres para os trabalhos mais delicados
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A Zona
Franca de Manaus ganhou mais dez anos de vida na proposta de reforma
tributária aprovada na semana passada pela comissão
especial da Câmara dos Deputados. Com essa decisão,
as empresas instaladas no Pólo Industrial de Manaus ficarão
até 2023 sem recolher tributos relativos ao imposto sobre
produtos industrializados e à exportação, além
de contar com abatimentos de ICMS que variam de 45% a 100%, conforme
o artigo. Na prática, isso significa que até o fim
desse prazo os bens fabricados na Zona Franca terão, por
lei, um custo de produção mais baixo que no restante
do país. Num Brasil que pretende ter uma indústria
competitiva, busca modernizar a estrutura tributária e anuncia
o desejo de equilibrar as condições de desenvolvimento
entre os Estados, trata-se de um privilégio com a marca da
contradição. Se uma área para instalação
de indústrias com subsídios especiais fosse um negócio
tão bom para o país, aparentemente seria bem melhor
multiplicar esse tipo de experiência Brasil afora, em vez
de manter só uma, praticamente no meio da selva.
Mas
não é esse o caso. No conjunto da economia brasileira,
a Zona Franca representa apenas 2,66% do produto interno bruto,
oferece 0,08% dos empregos e, mesmo sendo uma plataforma especial
para exportações, contribui com somente 5% dos dólares
que o país recebe vendendo seus produtos no exterior. O pólo
industrial na selva só sobrevive porque deixa de recolher
4,6 bilhões de reais em impostos anualmente. Quando se vêem
os números de seu desempenho na balança comercial,
salta à vista um déficit de 1,7 bilhão de dólares.
Ou seja, as indústrias da Zona Franca importam mais do que
exportam. Mas, se foi um erro criá-la, seria uma decisão
ainda mais equivocada desmantelá-la agora. As 430 empresas
instaladas na Zona Franca de Manaus garantem um perfil social, financeiro
e econômico para aquela região e para o Brasil que
justifica seu custo. Se a Zona Franca deixasse de existir da noite
para o dia, como em um passe de mágica, as importações
brasileiras de equipamentos eletrônicos cresceriam três
vezes mais do que o atual déficit externo produzido pelas
operações das empresas de Manaus. Além disso,
o baque do sumiço eventual de 250.000
empregos diretos e indiretos criaria na Amazônia uma crise
social profunda, com conseqüências migratórias
de proporções equivalentes à do Nordeste atualmente.
Divulgação/Hochheimer Imperatori
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| Casa
noturna em Manaus: símbolo de uma classe média bem nutrida |
Talvez
por essa razão o lobby em favor dos incentivos fiscais para
a Zona Franca foi assumido por praticamente todo o Congresso. O
acordo da semana passada foi assinado por todos os líderes
da Câmara, incluindo os da oposição. As razões
dessa comunhão decorrem dos erros acumulados desde a criação
da Zona Franca, em 1967, e do efeito que eles produziram. O maior
erro aconteceu quando ela foi inventada. A ditadura militar sonhava
grande, e aquela região, desde o período colonial
e do ciclo da borracha, inspira delírios. Não havia
lugar menos indicado do que Manaus para criar um distrito industrial.
Não se podia imaginar ponto mais distante de qualquer centro
consumidor, sem ligação terrestre com o mundo, sem
estrutura portuária, sem mão-de-obra qualificada,
sem energia elétrica, sem recursos para investimentos.
"A
capital do Amazonas é um caso único no mundo de área
para desenvolvimento incentivado localizada numa região remota",
reconhece o economista Elilde de Menezes, coordenador-geral de estudos
econômicos e empresariais da Superintendência da Zona
Franca de Manaus. Mas foi bem nesse lugar que os militares, preocupados
em ocupar as áreas de fronteira, resolveram plantar um pólo
de fábricas. Sem os incentivos fiscais não haveria
empresa que se dispusesse a embarcar nessa aventura. "Quando chegamos
aqui, os primeiros empregados se recusavam a usar uniforme e nem
queriam conversar sobre a necessidade de calçar sapatos",
recorda o diretor adjunto da fábrica de motocicletas Honda,
Paulo Shuiti Takeuchi. Seringueiros e pescadores eram recrutados
por carros com alto-falantes. Do lado de fora dos galpões,
só se viam mato, de dia, e escuridão, à noite.
Com usinas movidas a óleo, a energia elétrica era
instável na época e hoje ainda consome 1,3 bilhão
de reais em subsídios por ano para que o preço aos
consumidores seja apenas 30% mais caro que o praticado para fábricas
do Japão.
Divulgação/Suframa
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| Só
falta a corrente: motos com 99% de nacionalização
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O que
aconteceu depois, porém, diante do fato consumado, acabou
demonstrando que a Zona Franca pode ter sido um vazadouro de dinheiro
para o Brasil, mas foi uma revolução para a cidade
e para a região, na época um escombro do ciclo da
borracha. Um argumento para a prorrogação dos subsídios
se baseia no medo do desastre econômico que se produziria
com o eventual sucateamento da Zona Franca. Eis algumas conseqüências
da atividade industrial em Manaus:
No ano passado, o PIB do Amazonas cresceu duas vezes mais do que
a média nacional. Nos últimos quinze anos, a produção
industrial do país aumentou 31%. A local, 416%.
A capital representa 60% da arrecadação de tributos
na Região Norte.
Seis de cada dez empregos gerados na Amazônia em 2002 foram
criados na cidade.
Em três anos, o município ganhou 52 posições
no ranking das melhores cidades para fazer negócios, organizado
pela revista Exame, da Editora Abril, que publica VEJA.
Divulgação/Suframa
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| Exportação
em alta: mas a balança comercial se mantém negativa |
Calcula-se que, para cada real renunciado, a cidade, o Estado e
a União ganham 1,33 real. Graças aos impostos
90% deles derivados da atividade empresarial , ruas e avenidas
largas e bem pavimentadas foram rasgadas por todo lado. Os sinais
de uma classe média bem nutrida são evidentes. Edifícios
novos e bem decorados adornam a orla do Rio Negro, o endereço
mais caro da Amazônia 880 reais o metro quadrado. Em
três anos, ficaram prontas 5.000
casas e apartamentos. Cinco shoppings foram erguidos nos últimos
cinco anos. Mais dois estão em construção.
Houve recuperação do porto e do patrimônio histórico.
O porcentual da população matriculada no ensino fundamental
é o melhor do país. A Zona Franca levou para a cidade
executivos e técnicos do Brasil e do exterior, que demandaram
novos serviços e criaram novos comportamentos. Só
a marina do empresário sergipano Luiz Ferreira, uma entre
dezenas, abriga 180 barcos e 100 jet-skis. Em 1970, eram doze barquinhos.
Há 22.000 barcos de passeio e
4.000 jet-skis em Manaus.
Nas
indústrias, os tempos também são outros. Embora
ainda existam casos de empresas que só montam produtos com
todos os componentes importados e até de algumas flagradas
importando tudo pronto e colando apenas a etiqueta , sobram
exemplos de empreendimentos de sucesso. O melhor deles é
o da Honda, que emprega 5.650 pessoas
e produz 99% dos componentes de uma de suas motocicletas. "Só
falta nacionalizar a corrente de transmissão, que não
tem fornecedor instalado no Brasil", explica o assessor institucional
da empresa Felipe Naveca. Com produtividade maior que a de fábricas
instaladas na Ásia ou nos Estados Unidos, a Honda faz uma
moto a cada 27 segundos, em três linhas de montagem. A Nokia,
que produz celulares, e a Samsung, celulares e cinescópios,
incentivam fornecedores a instalar-se por perto. "Nos últimos
dois anos, trouxemos 25 fornecedores de componentes", diz o presidente
da Nokia no Brasil, Fernando Terni.
Um
estudo dirigido pela pesquisadora Norlela Ariffin, especialista
no caso de industrialização da Malásia, e pelo
professor Paulo Figueiredo, da Fundação Getúlio
Vargas do Rio de Janeiro, concluiu que o estágio tecnológico
das indústrias eletrônicas instaladas na Amazônia
equivale ao que há de mais moderno no mundo e que uma boa
solução para torná-las ainda melhores seria
incentivar os fabricantes de componentes a também se mudar
para a região. Outros estudos demonstram que o operário
amazônico é duas vezes mais produtivo que a média
mundial na produção de lentes ópticas e tem
marcas melhores também na fabricação de televisores,
videocassetes e telefones celulares. A Nokia exportou sozinha, no
ano passado, 525 milhões de dólares em telefones celulares,
mais de metade de tudo o que foi vendido ao exterior pela Zona Franca.
Além de investir em tecnologia e treinamento, a empresa deu
um drible na burocracia utilizando um sistema de exportação
em blocos que permite reduzir o tempo de tramitação
da papelada na aduana. Para empreendimentos menores, esse é
um nó difícil de desatar. Enquanto o México
e a Coréia permitem liberar mercadorias importadas ou para
exportação em até seis horas, em Manaus esse
desembaraço pode demorar até doze dias.
Há
outros entraves a ser removidos do caminho das empresas e também
conseqüências para Manaus decorrentes do rápido
inchaço urbano, como o aparecimento de 49 bairros na periferia
em apenas seis anos. Mas existem também avaliações
considerando que até a preservação da floresta
foi beneficiada pela instalação da Zona Franca, já
que a oportunidade de emprego industrial tirou muita gente do extrativismo.
O certo é que, depois de tanto dinheiro gasto para construí-la
uma conta que ninguém se arrisca a fazer , não
tem mais sentido a idéia de deixá-la morrer. Além
da devastação local, haveria a necessidade de comprar
em algum outro lugar os 8 bilhões de dólares em produtos
da Zona Franca consumidos pelos brasileiros, em reais.
O
modelo de incentivo adotado na região não prevê
desembolso de dinheiro público. Primeiro a empresa investe
o seu para construir uma fábrica, depois ganha desconto nos
impostos. Ainda existem muitas contas a fazer para descobrir por
quanto tempo esse subsídio é necessário para
equilibrar os custos do investimento. No padrão atual, cuja
proposta de prorrogação acaba de ser aprovada, um
televisor produzido na Zona Franca chega às lojas de São
Paulo custando para o fabricante 18% menos do que outro, idêntico,
feito fora de Manaus. Sem limite de tempo para esses benefícios,
a distorção pode inchar o pólo subsidiado tanto
quanto prejudicar áreas industriais de outras regiões.
"Essa prorrogação vai contra tudo o que o governo
diz que pretende fazer para evitar a guerra fiscal entre os Estados",
diz o vice-presidente executivo da Associação Brasileira
da Indústria Elétrica e Eletrônica, Sérgio
Galdieri. "Além disso, há várias áreas
em que isso permite uma concorrência desigual entre empresas
que estão na Zona Franca e algumas que se instalaram em outras
regiões." Em razão da chiadeira, o pacote da reforma
também prorroga os incentivos da lei de informática
até 2019 para todas as empresas instaladas fora de Manaus.
Esses subsídios deveriam acabar em 2009.
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