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Ambiente
A
rapina dos corais
A
pesca predatória, a poluição e o
aquecimento global podem acabar
com os recifes e atóis

Daniel Hessel Teich
Os
recifes de corais são os pontos de maior concentração
de vida nos oceanos. Só é possível compará-los,
em termos de biodiversidade, às florestas tropicais em terra
firme. Mais de 5.000 espécies
de peixes, 10.000 de moluscos e uma quantidade
incontável de algas e crustáceos vivem e se reproduzem
em torno das estruturas delicadas e coloridas, poucos metros abaixo
da superfície. Como as florestas tropicais, as concentrações
de corais correm o risco de deixar de existir em prazo relativamente
curto. Um megaestudo realizado por biólogos americanos, divulgado
há três semanas, estima que, se nada for feito para
reduzir a ação predatória do homem, os corais
podem desaparecer em menos de 100 anos. Um em cada três recifes
de corais está em mau estado. Há dez anos, isso ocorria
com um em cada dez. A causa principal da devastação
é a pesca predatória de peixes e moluscos. Ela rompe
a delicada cadeia alimentar do ecossistema, e o desequilíbrio
ecológico leva os corais à morte. A poluição
costeira e o turismo descontrolado também contribuem para
a destruição. Com a morte dos corais, as demais formas
de vida somem dos recifes. "É o mesmo que pegar uma floresta
e transformá-la num campo de golfe", diz o biólogo
Enric Sala, da Instituição Scripps de Oceanografia,
na Califórnia, um dos autores do estudo.
O
coral é um ser minúsculo os maiores não
passam de 3 centímetros que vive em colônias
nos mares quentes a pouca profundidade. A acumulação
dos esqueletos calcificados de várias gerações
é a base das estruturas complexas e delicadas dos recifes
e atóis. Num recife de corais, a parte viva corresponde apenas
à camada superficial e tem poucos centímetros de espessura.
Há mais de 2 000 espécies conhecidas. Os animais mais
vistosos são os chamados corais-moles, bastante coloridos,
que parecem arbustos floridos ou um grande leque com ramos entrelaçados.
O ecossistema criado pelos corais protege os peixes pequenos, as
algas e os moluscos da força das correntes marítimas,
fornece alimentos em abundância e também refúgios
contra predadores maiores. Grande parte dos corais só vive
em águas transparentes e quentes, com temperatura em torno
dos 22 graus. Um dos responsáveis pelos estragos nos recifes
é o aquecimento global, que provocou um fenômeno chamado
branqueamento. Trata-se, na verdade, da perda de algas minúsculas
que vivem em associação com os corais e não
resistem ao aumento da temperatura.
Além
de responsáveis pelo colorido exuberante de alguns corais,
as algas contribuem com uma dose extra de nutrientes. Sem elas,
os corais ficam brancos e, se o fenômeno for prolongado, morrem.
Em 1998, uma colossal onda de branqueamento matou 16% dos corais
do planeta. O fenômeno repetiu-se nos últimos dois
anos na Austrália, com resultados desastrosos. É possível
que esse seja um acontecimento cíclico, que se repete há
milênios. A complicação é que está
ocorrendo no momento em que a pressão humana sobre os corais
se tornou mais intensa. No Pacífico, pescadores de peixes
ornamentais jogam cianeto nos recifes para atordoar peixes ornamentais
e facilitar a captura a técnica também mata
os corais. "No Brasil, atiram água sanitária nos corais
para pegar polvos", diz a geóloga Zelinda Leão, pesquisadora
da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Os corais da costa brasileira
não são tão exuberantes e coloridos como os
do Pacífico ou do Caribe. Mas também são um
ponto de concentração de vida marinha. Apesar de ser
um parque nacional, o Arquipélago de Abrolhos, onde se localiza
a maior formação de corais do Brasil, não está
livre das ameaças. "O volume de turistas que o visita aumentou
400% nos últimos anos", calcula Zelinda. Barcos com mergulhadores
lançam âncoras sobre os recifes, quebrando-os.
Outro
problema é a poluição. Os resíduos provenientes
dos esgotos e do lixo urbano de cidades como Prado, Alcobaça,
Caravelas e Nova Viçosa, a mais de 60 quilômetros de
distância, provocam proliferação de algas nos
recifes, que competem com os corais. Situação parecida
ocorre na Austrália, na Grande Barreira de Corais, uma formação
com 350.000 quilômetros quadrados.
Cientistas estimam que, se não houver maior controle sobre
a poluição e o turismo predatório, 50% dos
corais da Barreira estarão mortos até 2030. A única
solução possível para preservar os corais parece
ser a mais radical: a criação de zonas de proteção
internacional em que o acesso humano seja controlado com rigor.
Definitivamente, o homem não combina com tanta beleza marinha.
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