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Esporte
Guga
desaba
Com
derrotas infantis, o campeão
brasileiro vive a fase mais complicada
de toda a sua carreira

André
Fontenelle
AP
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| Guga
deixa a quadra após a eliminação do Aberto dos EUA: derrota
na estréia leva a nova queda no ranking e à perspectiva de adversários
mais duros nos próximos torneios |
O tenista Gustavo Kuerten sofreu mais uma derrota na semana passada.
Das piores: foi eliminado na primeira rodada do Aberto dos Estados
Unidos pelo desconhecido russo Dimitri Tursunov, 174º colocado
no ranking mundial. Neste ano Guga só conquistou um torneio
o primeiro da temporada, em Auckland, na Nova Zelândia.
Desde março não alcança nem uma semifinal.
Número 1 do mundo durante 43 semanas entre 2000 e 2001, marca
que o situa entre os dez maiores tenistas da era profissional, o
jogador tem mau desempenho há dois anos, desde que sofreu
uma lesão no quadril direito. Uma cirurgia realizada em fevereiro
do ano passado aparentemente resolveu esse problema, mas a autoconfiança
ele não recuperou mais.
"Não
consigo manter a mesma intensidade ao longo de uma partida de três
horas", disse depois do jogo em Nova York. Esse não é
o único problema. Às vésperas de completar
27 anos, Guga tornou-se um tenista previsível. Se antes surpreendia
adversários com a precisão milimétrica de bolas
paralelas e cruzadas, agora se vê surpreendido por quem estuda
seus pontos fracos. Em junho, o espanhol Tommy Robredo o derrotou
com uma série desconcertante de bolas curtas nas oitavas-de-final
de Roland Garros, torneio em que o brasileiro obteve seus três
títulos mais valiosos.
Herói do esporte em qualquer país e ainda mais num
Brasil sem nenhuma tradição no tênis, Guga enfrenta,
talvez até tarde demais, uma instabilidade na carreira que
é quase regra entre grandes jogadores. Raros são os
astros do tênis que conseguem voltar à tona depois
de um revés muito forte. Guga já pode ser considerado
uma exceção com os 14 milhões de dólares
acumulados em prêmios na carreira, que lhe dão o quinto
posto nesse ranking em toda a história do tênis. Se
vier a superar a fase adversa atual e retornar aos primeiros lugares
do tênis mundial, Guga terá feito algo que, recentemente,
apenas o americano Andre Agassi conseguiu. Em dois anos, Agassi
foi do primeiro ao 141º lugar, posto alcançado meses
depois de se casar com a atriz Brooke Shields. Começou, então,
a recuperação. Convidado para um torneio de pouca
importância em Las Vegas, sua cidade natal, chegou novamente
a uma final. Divorciou-se e em pouco tempo estava outra vez no primeiro
lugar. Pete Sampras, que acaba de encerrar a mais bem-sucedida carreira
da história do esporte das raquetes, também pareceu
acabado em certo momento, depois de dois anos sem conquistar títulos.
Ressurgiu para ganhar seu último grande troféu, no
Aberto dos EUA, em 2002. Mas parou logo em seguida.
É
bem mais fácil achar exemplos ladeira abaixo, como o do austríaco
Thomas Muster, imbatível no primeiro semestre de 1995, porém
arrasado pouco depois, ao operar o joelho esquerdo e não
reencontrar mais seu jogo. O chileno Marcelo Ríos foi um
efêmero melhor do mundo em 1998. Hoje é o modesto 66º
do ranking. Yevgeny Kafelnikov, promessa do tênis russo, não
esteve mais do que seis semanas no topo. A lenda alemã Boris
Becker não parou lá nem a metade do tempo de Guga.
Tudo isso ajuda a entender o caso do brasileiro, mas não
autoriza ninguém a fazer previsões. Com a derrota
nos EUA, sua posição piora e melhora a dos adversários
que pegará nas primeiras rodadas das próximas competições.
Desconfiados, os torcedores já se confortam com o desempenho
de outro brasileiro, Flávio Saretta, de 23 anos, recém-chegado
à 45ª posição. Tem méritos, mas
ganha destaque também porque o grande campeão passa
por dificuldades.
No fim da semana passada, o jornalista Juca Kfouri divulgou uma
teoria relacionando a má sorte de Guga nas quadras a alguns
problemas pessoais. O tenista tem um irmão, Guilherme, de
23 anos, que sofre de deficiências na formação
do cérebro e necessita de cuidados constantes. Alterna períodos
bons com crises difíceis. A isso se juntou, no ano passado,
o nascimento prematuro dos filhos gêmeos do outro irmão
de Guga, Rafael. As crianças, nascidas depois de cinco meses
e meio de gestação, apresentam complicações
de saúde. A família Kuerten, que fundou em 2001 um
instituto de apoio a portadores de necessidades especiais, mantém
o assunto na esfera particular. Ainda que essas complicações
não coincidam com o início da fase difícil,
não colaboram para a recuperação do jogador
na quadra. "Estou jogando tênis e estou feliz. É isso
que importa", limitou-se a dizer Guga sobre a questão, na
quinta-feira passada.
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