Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Esporte
Guga desaba

Com derrotas infantis, o campeão
brasileiro vive a fase mais complicada
de toda a sua carreira


André Fontenelle

AP
Guga deixa a quadra após a eliminação do Aberto dos EUA: derrota na estréia leva a nova queda no ranking e à perspectiva de adversários mais duros nos próximos torneios


O tenista Gustavo Kuerten sofreu mais uma derrota na semana passada. Das piores: foi eliminado na primeira rodada do Aberto dos Estados Unidos pelo desconhecido russo Dimitri Tursunov, 174º colocado no ranking mundial. Neste ano Guga só conquistou um torneio – o primeiro da temporada, em Auckland, na Nova Zelândia. Desde março não alcança nem uma semifinal. Número 1 do mundo durante 43 semanas entre 2000 e 2001, marca que o situa entre os dez maiores tenistas da era profissional, o jogador tem mau desempenho há dois anos, desde que sofreu uma lesão no quadril direito. Uma cirurgia realizada em fevereiro do ano passado aparentemente resolveu esse problema, mas a autoconfiança ele não recuperou mais.

"Não consigo manter a mesma intensidade ao longo de uma partida de três horas", disse depois do jogo em Nova York. Esse não é o único problema. Às vésperas de completar 27 anos, Guga tornou-se um tenista previsível. Se antes surpreendia adversários com a precisão milimétrica de bolas paralelas e cruzadas, agora se vê surpreendido por quem estuda seus pontos fracos. Em junho, o espanhol Tommy Robredo o derrotou com uma série desconcertante de bolas curtas nas oitavas-de-final de Roland Garros, torneio em que o brasileiro obteve seus três títulos mais valiosos.

Herói do esporte em qualquer país e ainda mais num Brasil sem nenhuma tradição no tênis, Guga enfrenta, talvez até tarde demais, uma instabilidade na carreira que é quase regra entre grandes jogadores. Raros são os astros do tênis que conseguem voltar à tona depois de um revés muito forte. Guga já pode ser considerado uma exceção com os 14 milhões de dólares acumulados em prêmios na carreira, que lhe dão o quinto posto nesse ranking em toda a história do tênis. Se vier a superar a fase adversa atual e retornar aos primeiros lugares do tênis mundial, Guga terá feito algo que, recentemente, apenas o americano Andre Agassi conseguiu. Em dois anos, Agassi foi do primeiro ao 141º lugar, posto alcançado meses depois de se casar com a atriz Brooke Shields. Começou, então, a recuperação. Convidado para um torneio de pouca importância em Las Vegas, sua cidade natal, chegou novamente a uma final. Divorciou-se e em pouco tempo estava outra vez no primeiro lugar. Pete Sampras, que acaba de encerrar a mais bem-sucedida carreira da história do esporte das raquetes, também pareceu acabado em certo momento, depois de dois anos sem conquistar títulos. Ressurgiu para ganhar seu último grande troféu, no Aberto dos EUA, em 2002. Mas parou logo em seguida.

É bem mais fácil achar exemplos ladeira abaixo, como o do austríaco Thomas Muster, imbatível no primeiro semestre de 1995, porém arrasado pouco depois, ao operar o joelho esquerdo e não reencontrar mais seu jogo. O chileno Marcelo Ríos foi um efêmero melhor do mundo em 1998. Hoje é o modesto 66º do ranking. Yevgeny Kafelnikov, promessa do tênis russo, não esteve mais do que seis semanas no topo. A lenda alemã Boris Becker não parou lá nem a metade do tempo de Guga. Tudo isso ajuda a entender o caso do brasileiro, mas não autoriza ninguém a fazer previsões. Com a derrota nos EUA, sua posição piora e melhora a dos adversários que pegará nas primeiras rodadas das próximas competições. Desconfiados, os torcedores já se confortam com o desempenho de outro brasileiro, Flávio Saretta, de 23 anos, recém-chegado à 45ª posição. Tem méritos, mas ganha destaque também porque o grande campeão passa por dificuldades.

No fim da semana passada, o jornalista Juca Kfouri divulgou uma teoria relacionando a má sorte de Guga nas quadras a alguns problemas pessoais. O tenista tem um irmão, Guilherme, de 23 anos, que sofre de deficiências na formação do cérebro e necessita de cuidados constantes. Alterna períodos bons com crises difíceis. A isso se juntou, no ano passado, o nascimento prematuro dos filhos gêmeos do outro irmão de Guga, Rafael. As crianças, nascidas depois de cinco meses e meio de gestação, apresentam complicações de saúde. A família Kuerten, que fundou em 2001 um instituto de apoio a portadores de necessidades especiais, mantém o assunto na esfera particular. Ainda que essas complicações não coincidam com o início da fase difícil, não colaboram para a recuperação do jogador na quadra. "Estou jogando tênis e estou feliz. É isso que importa", limitou-se a dizer Guga sobre a questão, na quinta-feira passada.

 
 
 
 
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