Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Acidente
Vale a pena insistir?

Depois do terceiro fracasso do VLS,
o Brasil precisa decidir se ainda quer
um foguete espacial


Ariel Kostman


Jorge Araujo/Folha Imagem
O presidente Lula consola familiares das vítimas: o país perdeu os seus especialistas


Em Profundidade: Jornadas Espaciais

A explosão do Veículo Lançador de Satélites (VLS) em Alcântara pôs em xeque todo o programa espacial brasileiro, criado com o objetivo de colocar o Brasil entre as nações capazes de lançar foguetes e satélites ao espaço. Foi a terceira tentativa de fazer o VLS entrar em órbita – e o terceiro fracasso. Diferentemente das vezes anteriores, quando os foguetes tiveram de ser destruídos logo após o lançamento por causa de problemas técnicos, agora houve 21 mortes. Além da tragédia humana, o país perdeu seus melhores especialistas em tecnologia de foguetes espaciais. Serão necessários pelo menos dez anos até que se consiga reunir novamente uma equipe do mesmo nível. Por tudo isso, o momento é apropriado para o governo rever o programa espacial brasileiro, a começar por sua razão de ser. "É preciso verificar se devemos mesmo insistir nessa direção", diz o físico Ennio Candotti, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. "Afinal, o projeto do VLS foi concebido na década de 70, em situação política e econômica completamente diferente. Será que ele ainda é atual?"

O governo militar acreditava que o domínio do ciclo do átomo, incluindo a construção da bomba atômica e de um míssil intercontinental capaz de lançar as ogivas nucleares, era vital para o futuro e a segurança do país. Hoje, o Brasil sabe que não precisa desse tipo de arma para se defender. Criado em 1980, o projeto foi batizado de Missão Espacial Completa Brasileira e ganhou uma finalidade civil. O objetivo era construir o foguete, três satélites de coleta de dados, dois satélites de sensoreamento remoto e um de comunicações. Depois de 23 anos e gasto total de mais de 1 bilhão de dólares, apenas três satélites ficaram prontos. Dois foram lançados por foguetes americanos Pegasus, em 1993 e 1998, a um custo de 16 milhões de dólares cada um. O terceiro foi destruído no primeiro lançamento do VLS, em 1997. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que projeta e monta os satélites, desistiu dos outros três que ia construir. Pretende retomar as pesquisas com projetos inteiramente novos, mais modernos. Sobrou o VLS, de concepção ultrapassada.

Ainda sem domínio do bê-á-bá do lançamento, o Brasil não tem como acompanhar o notável avanço científico ocorrido na tecnologia espacial nas últimas duas décadas. O orçamento do programa é de 35,7 milhões de reais, quantia insignificante perante a grandeza do desafio. A Índia, que coloca os próprios satélites no espaço, gasta 1,3 bilhão de reais anuais. Para ser considerado viável, um foguete precisa fazer quatro testes bem-sucedidos. Com três fracassos em três tentativas, o VLS dificilmente será considerado confiável. O mercado de lançamento de satélites é dominado por Estados Unidos, Rússia, China e um consórcio de países europeus. Todos eles têm lançadores capazes de colocar satélites mais pesados que aqueles previstos para serem levados pelo VLS e em órbitas mais altas. "O acidente enfraquece as possibilidades de demanda por futuros serviços de lançamento brasileiros", diz Patrick Collins, analista da área aeroespacial da consultoria Frost & Sullivan. Para complicar, o mercado de lançamento de satélites encolheu de 5,3 bilhões de dólares, em 2000, para 3,7 bilhões, em 2002. A Arianespace, responsável pelo lançamento de foguetes da Agência Espacial Européia, estima que em 2008 o mercado estará saturado.

O grande trunfo do programa espacial brasileiro é a base de lançamentos de Alcântara, no Maranhão. Por ela estar bem perto da linha do Equador, onde a velocidade de rotação da Terra é maior, os foguetes ganham um impulso extra na largada, economizando combustível. O empurrão adicional pode reduzir o custo do combustível em até 30%. Outra vantagem é o clima, que permite lançamentos em qualquer época do ano. Em 2001, o Brasil perdeu uma boa chance para transformar esse trunfo em algo lucrativo. O governo assinou um acordo com os Estados Unidos para uso da base. Os americanos iriam pagar 70 milhões de dólares para catorze lançamentos em um ano (5 milhões de dólares para cada um). O valor é seis vezes maior que o total previsto no orçamento deste ano para a Agência Espacial Brasileira. Bombardeado com acusações de que feria a soberania nacional, o acordo não foi aprovado pelo Congresso. A base continuou ociosa. "O país perdeu uma excelente oportunidade", afirma o brigadeiro Hugo de Oliveira Piva, um dos pais do programa espacial brasileiro. "Além de ser ótimo financeiramente, teríamos contato com os líderes em tecnologia de lançamento de foguetes." Vale a pena insistir?

 
Pacote quero ser grande

O Veículo Lançador de Satélites não foi o único megaprojeto do pacote "Brasil Potência", idealizado pelo governo militar na década de 70. Veja alguns outros

Embraer

AVIÕES DE COMBATE
O Brasil gastou 2,5 bilhões de dólares no projeto do caça AMX: o plano era vender 800 unidades, mas só oito foram comercializadas


PROGRAMA NUCLEAR PARALELO
Entre 1975 e 1990, o Brasil tentou dominar o ciclo do átomo em um programa secreto: o objetivo era fabricar a bomba atômica



SUBMARINO NUCLEAR

No Centro Experimental Aramar, no interior de São Paulo, a Marinha já gastou 1 bilhão de dólares, mas até hoje só existe uma miniatura
Claudio Rossi


Orlando Brito

ARMAS DE GUERRA
Nos anos 80, a Engesa investiu 100 milhões de dólares para projetar um tanque pesado, o Osório: nunca passou da fase de protótipo

 
A velharia da Nasa

A Nasa, a agência espacial americana, cometeu erros grosseiros no acidente com o ônibus espacial Columbia, em fevereiro. A afirmação é do relatório de 248 páginas divulgado na semana passada pela comissão que investigou o desastre. A nave desintegrou-se ao reentrar na atmosfera, matando os sete ocupantes. Havia poucas dúvidas sobre a causa do acidente, agora confirmada pela investigação: um rombo de 25 centímetros de comprimento na asa esquerda provocado pelo choque de um pedaço de espuma sintética que se soltou do tanque de combustível na hora do lançamento. A questão sem resposta é por que, durante os dezesseis dias em que o Columbia permaneceu em órbita, a Nasa não tomou providências para evitar o desastre ou para resgatar a tripulação. Teria sido perfeitamente possível enviar outro ônibus espacial, o Atlantis, se o pessoal de terra houvesse avaliado corretamente os dados que tinha à mão. O relatório diz que ninguém tomou providências porque a iniciativa não faz parte da cultura interna da Nasa.

O relatório coloca novamente o foco no futuro da própria Nasa. Desde o fim da Guerra Fria, que encerrou a competição espacial com a União Soviética, a agência luta para convencer o governo americano de que vale a pena continuar com os vôos tripulados. Nos últimos dez anos, houve um corte de 40% no orçamento do programa dos ônibus espaciais. O relatório afirma que eles são uma aposta de altíssimo risco. O ônibus espacial é um projeto dos anos 70, muito caro e excessivamente complexo, o que faz aumentar os riscos de alguma coisa dar errado. Com máquinas mais baratas e menor quantidade de mortes, os russos levam e trazem cosmonautas da Estação Espacial Internacional. "Comparados às Soyuz russas, os ônibus espaciais são vasos de porcelana Ming voadores", disse o astrônomo Jeffrey Bell, da Universidade do Havaí, à revista inglesa The Economist. A comissão que investigou o acidente fez 29 recomendações de segurança à Nasa, das quais quinze devem ser cumpridas antes de os ônibus espaciais retomarem os vôos. Fica claro, porém, que para evitar novos acidentes o melhor a fazer é aposentar de vez a frota.

 

 
 
 
 
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