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Sexo
Retrato do brasileiro na cama
Pesquisa mostra que o
sexo começa cada
vez mais cedo e acaba cada vez mais tarde
na vida da maioria da população

Silvia Rogar, com reportagem
de Clarisse Meireles
Faça
as contas: quantas relações sexuais você teve
no último mês? Se a soma ficou entre cinco e doze,
saiba que você está na média brasileira. Pelo
menos é o que diz a mais recente e abrangente pesquisa sobre
sexo no Brasil, que VEJA publica com exclusividade. Os dados foram
colhidos pelo Ibope, por encomenda da Coordenação
Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde. Além
de freqüência, abordaram-se temas como uso de preservativos
e infidelidade, entre outros. Os resultados desse tipo de pesquisa,
é claro, têm de ser analisados com cuidado. A inclinação
das pessoas, quando o assunto é sexo, é moldar a realidade
às próprias conveniências seja aumentando
a quantidade de relações, seja diminuindo o número
de traições. Ainda assim, um levantamento do porte
do realizado pelo Ibope contribui para confirmar tendências.
A principal, aqui, é que o brasileiro consegue ter uma vida
sexual mais longa. A atividade começa cedo, em torno dos
14 anos, e continua até depois dos 60 anos faixa em
que 21% dos entrevistados disseram fazer sexo de cinco a doze vezes
por mês, o que os coloca dentro da média geral.
A
longevidade sexual explica-se pelos avanços na área
da saúde e, conseqüentemente, da expectativa de vida
registrados nas últimas décadas. "Desempenho sexual
é, sem dúvida, um marcador de saúde", diz a
psiquiatra Carmita Abdo, do Projeto Sexualidade, do Hospital das
Clínicas de São Paulo.
O
Ibope ouviu 1.882 pessoas, de todas as regiões do país,
com idade a partir de 14 anos. Cerca de 70% delas declararam-se
sexualmente ativas. Ou seja, tiveram ao menos uma relação
nos seis meses que antecederam a pesquisa, realizada em janeiro.
O levantamento colheu outra informação alentadora,
e importante para traçar as ações do governo
em relação à Aids. Na comparação
com a pesquisa anterior, de 1998, cresceu o uso de preservativos,
principalmente na faixa mais jovem, dos 14 aos 19 anos. A proteção
na iniciação sexual está nos mesmos níveis
de países como Alemanha e Inglaterra. A maioria dos adolescentes
entrevistados (65%) informou ter usado camisinha na primeira relação.
Nos Estados Unidos, o índice é de 51%. O sexo com
parceiros eventuais foi o que mais evoluiu em matéria de
segurança: o uso de camisinha saltou de 64%, em 1998, para
80%. "Foi a mudança de hábito mais importante em relação
à prevenção dos últimos anos", diz o
sociólogo Alexandre Grangeiro, que está à frente
da Coordenação Nacional de DST/Aids, do Ministério
da Saúde. O grande desafio, porém, é manter
a proteção entre os que têm parceiro fixo. É
grande o número de namorados que fazem um "pacto de fidelidade",
para abandonar a camisinha. Foi o caso dos estudantes cariocas Guilherme
Boury, de 19 anos, e Taíssa Xavier, 20, que fizeram um teste
de HIV antes de passar do preservativo para a pílula anticoncepcional.
Taíssa foi advertida por seu ginecologista de que estava
se protegendo apenas contra uma gravidez indesejada, e não
contra doenças sexualmente transmissíveis, mas manteve
a decisão. "Sei quem namoro e não tenho medo de que
ele faça algo errado", diz Taíssa.
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Fotos Oscar Cabral

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"Paramos
de usar camisinha porque não cogitamos que o outro venha
a ter um relacionamento fora. É um voto de confiança."
Guilherme
Boury, carioca,
19 anos, namora há dois anos Taíssa Xavier, de
20 |
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Nem
todas (e todos) podem dizer o mesmo. O designer gráfico paulistano
Roberto Lazzati, 31 anos, é do tipo que não se priva
de aventuras. Já foi apanhado em flagrante uma vez e, em
outra, foi cumprimentado tão efusivamente por uma "amiga"
diante da namorada que teve de admitir a infidelidade. Ele terminou
recentemente um relacionamento de um ano e meio, no qual também
deu suas escapadas. "Até hoje não namorei nenhuma
menina que não desconfiasse de mim", diz Roberto. Bem, não
dá para dizer que ele não é corajoso
no aspecto privado e no público. Entre os entrevistados,
apenas 6% admitiram enganar seus parceiros fixos. Cerca de 85% afirmaram
que não traem. Não é preciso ser especialista
no assunto para concluir que essa porcentagem de santinhos é
exagerada. As estatísticas internacionais mostram que os
puladores de cerca constituem de 15% a 70% da população,
dependendo da metodologia e do ambiente em que se responde à
pesquisa.
Tradicionalmente, pesquisas sobre sexo dão o que falar, desde
o Relatório Kinsey, que mapeou os hábitos sexuais
dos americanos numa monumental série de 18.000 entrevistas
feitas entre 1938 e 1953. O trabalho comandado pelo médico
Alfred Kinsey revelou dados chocantes para a época. O índice
de homens casados que admitiram ter traído a mulher pelo
menos uma vez ficou em 50%. O mesmo relatório trouxe revelações
bombásticas sobre as mulheres. Elas também traíam
e, pasmem, tinham relações pré-conjugais! Quase
vinte anos mais tarde, em 1970, o ginecologista William Masters
e a psicóloga Virginia Johnson publicaram o livro Inadequação
Sexual Humana, em que relatam sua experiência de consultório
com 790 homens e mulheres. "Precisamos convencer o casal com problemas
de que o sexo é uma função tão natural
quanto a respiração ou a digestão", dizia Masters.
Apesar de escrito em linguagem técnica, o livro virou best-seller
nos Estados Unidos, mostrando a sede de informação
sobre o tema nos anos que se seguiram à revolução
sexual da década de 60. Nada comparável, no entanto,
ao terremoto provocado pelo Relatório Hite, de 1976.
Nele, a americana Shere Hite quebrou um tabu secular ao falar sem
eufemismos de orgasmo feminino. Vendeu mais de 2 milhões
de exemplares, dizendo coisas como "a relação sexual
apenas reproduz a opressão da mulher pelo homem", ou "a maioria
das mulheres só chega ao orgasmo com masturbação".
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Claudio Rossi

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"Não
é que eu ache bonito trair, mas às vezes sou pego de surpresa,
e a vontade é mais forte que eu. Se você está com vontade
é porque vale a pena."
Roberto Lazzati, paulistano, 31 anos, está solteiro
desde o mês passado |
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No
caso da pesquisa do Ibope, o que pode causar alguma surpresa é
o dado de que os casamentos no Brasil andam animados sob os lençóis.
Entre os casados, 33% dizem fazer sexo de cinco a doze vezes por
mês e 22% afirmam ter mais de uma dúzia de relações
no mesmo período com a cara-metade, enfatize-se. Enquanto
isso, a maior parcela dos solteiros (44%) tem só até
quatro relações sexuais por mês. Bem, mesmo
descontados os exageros, casamento é isso: por mais que seja
ruim, é garantia de sexo mais fácil. "É uma
ilusão dos casados achar que os solteiros fazem sexo com
quem querem e na hora em que querem", diz o sexólogo Oswaldo
Rodrigues, diretor da Associação Mundial de Sexologia.
A
pesquisa também indica que a freqüência sexual
dos mais jovens é menor do que supõem os pais aflitos.
Entre os 14 e os 19 anos, a média é de até
quatro relações por mês. Quanto ao início
precoce, não há surpresas. Todas as pesquisas apontam
na mesma direção. Dados da Unesco, por exemplo, mostram
que a idade média de iniciação sexual no Brasil
é de 14 anos para os meninos e 15 anos para as meninas. Para
elas, nos anos 60, as primeiras experiências costumavam ocorrer
aos 20 anos, em média. "Atualmente, muitas moças se
sentem mal por continuar virgens próximas dessa idade", diz
a psicanalista Maria Alves Bruns, autora do livro Sexualidade
de Jovens em Tempos de Aids, recém-publicado. Nesse estudo,
realizado com 100 rapazes do Estado de São Paulo, ela constatou
que o tipo de parceria no início da vida sexual também
mudou. Pagar por uma relação saiu definitivamente
de moda. "O jovem se relaciona com pessoas com quem tem vínculo
afetivo, como amigas e namoradas", constata Maria Alves.
A partir dos 60 anos, a atividade sexual, obviamente, tende a diminuir.
Mas é salutar que cerca de 40% dos brasileiros nessa faixa
se mantenham ativos, segundo a pesquisa. Esses sessentões
não só conservam o apetite na cama, como se sentem
mais jovens, mais felizes com a forma física e, no caso dos
homens, satisfeitíssimos por poder contar com aditivos como
o Viagra e remédios semelhantes. Mas é preciso cultivar
a felicidade desde cedo para chegar a essa idade com tanto ânimo.
"Tudo depende do padrão anterior. Se um homem fazia pouco
sexo na juventude, fará menos ainda depois dos 60 anos. Se
fazia muito, tenderá a manter um bom nível de atividade",
diz a orientadora sexual Maria Helena Vilela, diretora do Instituto
Kaplan, de São Paulo, especializado em sexualidade.
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"No
princípio, a gente só pensa nisso, qualquer hora é hora.
Hoje é mais tranqüilo, até mais gostoso. Não tem filho
batendo na porta, medo de engravidar."
Maria
Celina Meirelles, carioca, 65 anos, está casada há
45 com Mário, de 70 |
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Exemplo
de vigor na terceira idade é o casal de empresários
Maria Celina, de 65 anos, e Mário Meirelles, de 70. Unidos
há 45 anos, eles trabalham juntos e continuam a ter prazer
no casamento. "Planejamos viagens de lua-de-mel sempre que podemos
e gostamos de criar momentos de romantismo", diz Maria Celina. O
marido jura que nunca precisou recorrer a nenhuma pílula
do amor. "Ela mantém o espírito jovem e continua muito
sedutora", observa Meirelles sobre a mulher, que não perdeu
o gosto por belas lingeries e camisolas. Outra tática do
casal para manter-se jovem é mudar constantemente a decoração
do apartamento onde mora, no Rio de Janeiro. "Senão, o casal
envelhece junto com a casa", diz Maria Celina.
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