Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Sexo
Retrato do brasileiro na cama

Pesquisa mostra que o sexo começa cada
vez mais cedo e acaba cada vez mais tarde
na vida da maioria da população


Silvia Rogar, com reportagem
de
Clarisse Meireles

Faça as contas: quantas relações sexuais você teve no último mês? Se a soma ficou entre cinco e doze, saiba que você está na média brasileira. Pelo menos é o que diz a mais recente e abrangente pesquisa sobre sexo no Brasil, que VEJA publica com exclusividade. Os dados foram colhidos pelo Ibope, por encomenda da Coordenação Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde. Além de freqüência, abordaram-se temas como uso de preservativos e infidelidade, entre outros. Os resultados desse tipo de pesquisa, é claro, têm de ser analisados com cuidado. A inclinação das pessoas, quando o assunto é sexo, é moldar a realidade às próprias conveniências – seja aumentando a quantidade de relações, seja diminuindo o número de traições. Ainda assim, um levantamento do porte do realizado pelo Ibope contribui para confirmar tendências. A principal, aqui, é que o brasileiro consegue ter uma vida sexual mais longa. A atividade começa cedo, em torno dos 14 anos, e continua até depois dos 60 anos – faixa em que 21% dos entrevistados disseram fazer sexo de cinco a doze vezes por mês, o que os coloca dentro da média geral.

A longevidade sexual explica-se pelos avanços na área da saúde e, conseqüentemente, da expectativa de vida registrados nas últimas décadas. "Desempenho sexual é, sem dúvida, um marcador de saúde", diz a psiquiatra Carmita Abdo, do Projeto Sexualidade, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

O Ibope ouviu 1.882 pessoas, de todas as regiões do país, com idade a partir de 14 anos. Cerca de 70% delas declararam-se sexualmente ativas. Ou seja, tiveram ao menos uma relação nos seis meses que antecederam a pesquisa, realizada em janeiro. O levantamento colheu outra informação alentadora, e importante para traçar as ações do governo em relação à Aids. Na comparação com a pesquisa anterior, de 1998, cresceu o uso de preservativos, principalmente na faixa mais jovem, dos 14 aos 19 anos. A proteção na iniciação sexual está nos mesmos níveis de países como Alemanha e Inglaterra. A maioria dos adolescentes entrevistados (65%) informou ter usado camisinha na primeira relação. Nos Estados Unidos, o índice é de 51%. O sexo com parceiros eventuais foi o que mais evoluiu em matéria de segurança: o uso de camisinha saltou de 64%, em 1998, para 80%. "Foi a mudança de hábito mais importante em relação à prevenção dos últimos anos", diz o sociólogo Alexandre Grangeiro, que está à frente da Coordenação Nacional de DST/Aids, do Ministério da Saúde. O grande desafio, porém, é manter a proteção entre os que têm parceiro fixo. É grande o número de namorados que fazem um "pacto de fidelidade", para abandonar a camisinha. Foi o caso dos estudantes cariocas Guilherme Boury, de 19 anos, e Taíssa Xavier, 20, que fizeram um teste de HIV antes de passar do preservativo para a pílula anticoncepcional. Taíssa foi advertida por seu ginecologista de que estava se protegendo apenas contra uma gravidez indesejada, e não contra doenças sexualmente transmissíveis, mas manteve a decisão. "Sei quem namoro e não tenho medo de que ele faça algo errado", diz Taíssa.

 

Fotos Oscar Cabral

"Paramos de usar camisinha porque não cogitamos que o outro venha a ter um relacionamento fora. É um voto de confiança."
Guilherme Boury, carioca, 19 anos, namora há dois anos Taíssa Xavier, de 20

Nem todas (e todos) podem dizer o mesmo. O designer gráfico paulistano Roberto Lazzati, 31 anos, é do tipo que não se priva de aventuras. Já foi apanhado em flagrante uma vez e, em outra, foi cumprimentado tão efusivamente por uma "amiga" diante da namorada que teve de admitir a infidelidade. Ele terminou recentemente um relacionamento de um ano e meio, no qual também deu suas escapadas. "Até hoje não namorei nenhuma menina que não desconfiasse de mim", diz Roberto. Bem, não dá para dizer que ele não é corajoso – no aspecto privado e no público. Entre os entrevistados, apenas 6% admitiram enganar seus parceiros fixos. Cerca de 85% afirmaram que não traem. Não é preciso ser especialista no assunto para concluir que essa porcentagem de santinhos é exagerada. As estatísticas internacionais mostram que os puladores de cerca constituem de 15% a 70% da população, dependendo da metodologia e do ambiente em que se responde à pesquisa.

Tradicionalmente, pesquisas sobre sexo dão o que falar, desde o Relatório Kinsey, que mapeou os hábitos sexuais dos americanos numa monumental série de 18.000 entrevistas feitas entre 1938 e 1953. O trabalho comandado pelo médico Alfred Kinsey revelou dados chocantes para a época. O índice de homens casados que admitiram ter traído a mulher pelo menos uma vez ficou em 50%. O mesmo relatório trouxe revelações bombásticas sobre as mulheres. Elas também traíam e, pasmem, tinham relações pré-conjugais! Quase vinte anos mais tarde, em 1970, o ginecologista William Masters e a psicóloga Virginia Johnson publicaram o livro Inadequação Sexual Humana, em que relatam sua experiência de consultório com 790 homens e mulheres. "Precisamos convencer o casal com problemas de que o sexo é uma função tão natural quanto a respiração ou a digestão", dizia Masters. Apesar de escrito em linguagem técnica, o livro virou best-seller nos Estados Unidos, mostrando a sede de informação sobre o tema nos anos que se seguiram à revolução sexual da década de 60. Nada comparável, no entanto, ao terremoto provocado pelo Relatório Hite, de 1976. Nele, a americana Shere Hite quebrou um tabu secular ao falar sem eufemismos de orgasmo feminino. Vendeu mais de 2 milhões de exemplares, dizendo coisas como "a relação sexual apenas reproduz a opressão da mulher pelo homem", ou "a maioria das mulheres só chega ao orgasmo com masturbação".

 

Claudio Rossi

"Não é que eu ache bonito trair, mas às vezes sou pego de surpresa, e a vontade é mais forte que eu. Se você está com vontade é porque vale a pena."
Roberto Lazzati, paulistano, 31 anos, está solteiro desde o mês passado

No caso da pesquisa do Ibope, o que pode causar alguma surpresa é o dado de que os casamentos no Brasil andam animados sob os lençóis. Entre os casados, 33% dizem fazer sexo de cinco a doze vezes por mês e 22% afirmam ter mais de uma dúzia de relações no mesmo período – com a cara-metade, enfatize-se. Enquanto isso, a maior parcela dos solteiros (44%) tem só até quatro relações sexuais por mês. Bem, mesmo descontados os exageros, casamento é isso: por mais que seja ruim, é garantia de sexo mais fácil. "É uma ilusão dos casados achar que os solteiros fazem sexo com quem querem e na hora em que querem", diz o sexólogo Oswaldo Rodrigues, diretor da Associação Mundial de Sexologia.

A pesquisa também indica que a freqüência sexual dos mais jovens é menor do que supõem os pais aflitos. Entre os 14 e os 19 anos, a média é de até quatro relações por mês. Quanto ao início precoce, não há surpresas. Todas as pesquisas apontam na mesma direção. Dados da Unesco, por exemplo, mostram que a idade média de iniciação sexual no Brasil é de 14 anos para os meninos e 15 anos para as meninas. Para elas, nos anos 60, as primeiras experiências costumavam ocorrer aos 20 anos, em média. "Atualmente, muitas moças se sentem mal por continuar virgens próximas dessa idade", diz a psicanalista Maria Alves Bruns, autora do livro Sexualidade de Jovens em Tempos de Aids, recém-publicado. Nesse estudo, realizado com 100 rapazes do Estado de São Paulo, ela constatou que o tipo de parceria no início da vida sexual também mudou. Pagar por uma relação saiu definitivamente de moda. "O jovem se relaciona com pessoas com quem tem vínculo afetivo, como amigas e namoradas", constata Maria Alves.

A partir dos 60 anos, a atividade sexual, obviamente, tende a diminuir. Mas é salutar que cerca de 40% dos brasileiros nessa faixa se mantenham ativos, segundo a pesquisa. Esses sessentões não só conservam o apetite na cama, como se sentem mais jovens, mais felizes com a forma física e, no caso dos homens, satisfeitíssimos por poder contar com aditivos como o Viagra e remédios semelhantes. Mas é preciso cultivar a felicidade desde cedo para chegar a essa idade com tanto ânimo. "Tudo depende do padrão anterior. Se um homem fazia pouco sexo na juventude, fará menos ainda depois dos 60 anos. Se fazia muito, tenderá a manter um bom nível de atividade", diz a orientadora sexual Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, de São Paulo, especializado em sexualidade.

 

"No princípio, a gente só pensa nisso, qualquer hora é hora. Hoje é mais tranqüilo, até mais gostoso. Não tem filho batendo na porta, medo de engravidar."
Maria Celina Meirelles, carioca, 65 anos, está casada há 45 com Mário, de 70

Exemplo de vigor na terceira idade é o casal de empresários Maria Celina, de 65 anos, e Mário Meirelles, de 70. Unidos há 45 anos, eles trabalham juntos e continuam a ter prazer no casamento. "Planejamos viagens de lua-de-mel sempre que podemos e gostamos de criar momentos de romantismo", diz Maria Celina. O marido jura que nunca precisou recorrer a nenhuma pílula do amor. "Ela mantém o espírito jovem e continua muito sedutora", observa Meirelles sobre a mulher, que não perdeu o gosto por belas lingeries e camisolas. Outra tática do casal para manter-se jovem é mudar constantemente a decoração do apartamento onde mora, no Rio de Janeiro. "Senão, o casal envelhece junto com a casa", diz Maria Celina.

 
 
 
 
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