Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Consumo
Fumaça revelada

Em iniciativa inédita, indústria
divulga ingredientes do cigarro


Ronaldo França

Especial VEJA Saúde

A indústria do tabaco passou as últimas décadas sendo atacada com ferocidade crescente pelos militantes da campanha antitabagista. O cerco tem se fechado com milhares de ações judiciais indenizatórias e medidas restritivas ao fumo adotadas em vários países. Nesta semana, a luta terá novo round. A Souza Cruz, a maior fabricante de cigarros brasileira, prepara suas baterias para um contra-ataque ousado: divulgará todos os ingredientes adicionados ao fumo, a quantidade máxima de cada um deles e as substâncias que, em conseqüência da queima, estão presentes na fumaça. As informações, sobre todas as suas marcas, estarão disponíveis no endereço da empresa na internet. Simultaneamente, lançará uma campanha publicitária, assinada pela marca Free, para conscientizar os clientes da necessidade de fumar com moderação. É a primeira vez no mundo que um fabricante de cigarros divulga informações com essa profundidade e sugere aos que compram seus produtos que, em última análise, comprem menos.

A campanha, que estará em 200.000 pontos-de-venda do país – e somente neles, uma vez que a propaganda de cigarros é proibida em outros meios – , procura estabelecer um contraponto com atividades ligadas ao prazer. São frases do tipo: "Leia em excesso...", "Relaxe em excesso...", sempre complementadas pela advertência "Fume com moderação". Na segunda fase, a empresa lançará o slogan "Livre para fumar ou parar". Cada ponto-de-venda terá um telefone com linha direta para uma instituição independente, que informará sobre o que fazer para deixar o fumo. O Free foi escolhido por ter sido o primeiro cigarro de baixos teores lançado no país. Segundo pesquisas, é também a marca de maior identidade com o espírito da campanha.

A discussão em torno das substâncias presentes no fumo e na fumaça é uma das mais concorridas no debate sobre tabaco. Em 1998, o diretor do Instituto para a Prevenção do Câncer, dos Estados Unidos, Dietrich Hoffman, publicou um trabalho no qual identificou pela primeira vez 4.720 dessas substâncias. O estudo motivou o governo canadense a obrigar as empresas daquele país a apresentar a lista de componentes dos produtos. O governo brasileiro seguiu o mesmo caminho. Até agora, essa lista era entregue anualmente pelas empresas à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, onde se mantinha como segredo industrial. Nenhuma empresa havia revelado seus ingredientes ao público. Muito menos a relação dos componentes da fumaça. "Essa decisão é mais um passo na direção de reafirmarmos nossa responsabilidade e transparência", declara o diretor de marketing da Souza Cruz, Gilmar Madureira. É também uma estratégia de sobrevivência da indústria, que está sendo obrigada, quem diria, até mesmo a sugerir que o consumidor pare de comprar seus produtos.

Iniciativas como essa ainda despertam a desconfiança das autoridades encarregadas do combate ao tabagismo ao redor do mundo. Em fevereiro deste ano, a Organização Mundial de Saúde publicou o documento intitulado "Indústria do tabaco e responsabilidade corporativa: uma contradição". Nele, a OMS chama a atenção para o que considera uma tendência mundial da indústria de tentar ganhar credibilidade para encobrir o que diz serem práticas antiéticas. Ela acusa a indústria de usar as marcas de baixos teores para promover maior consumo de cigarros. O argumento é que, para manterem o mesmo nível de nicotina solicitado pelo organismo viciado, as pessoas acabam fumando mais cigarros, o que aumenta o consumo. "Os estudos mostram que a introdução de baixos teores no mercado não diminuiu a incidência do câncer", afirma a coordenadora do programa nacional de combate ao tabaco, Tânia Cavalcanti. Portanto, como se vê, a guerra está longe do fim.


 

 




 
 
 
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