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Consumo
Fumaça
revelada
Em
iniciativa inédita, indústria
divulga ingredientes do cigarro

Ronaldo
França
A
indústria do tabaco passou as últimas décadas
sendo atacada com ferocidade crescente pelos militantes da campanha
antitabagista. O cerco tem se fechado com milhares de ações
judiciais indenizatórias e medidas restritivas ao fumo adotadas
em vários países. Nesta semana, a luta terá
novo round. A Souza Cruz, a maior fabricante de cigarros brasileira,
prepara suas baterias para um contra-ataque ousado: divulgará
todos os ingredientes adicionados ao fumo, a quantidade máxima
de cada um deles e as substâncias que, em conseqüência
da queima, estão presentes na fumaça. As informações,
sobre todas as suas marcas, estarão disponíveis no
endereço da empresa na internet. Simultaneamente, lançará
uma campanha publicitária, assinada pela marca Free, para
conscientizar os clientes da necessidade de fumar com moderação.
É a primeira vez no mundo que um fabricante de cigarros divulga
informações com essa profundidade e sugere aos que
compram seus produtos que, em última análise, comprem
menos.
A
campanha, que estará em 200.000
pontos-de-venda do país e somente neles, uma vez que
a propaganda de cigarros é proibida em outros meios
, procura estabelecer um contraponto com atividades ligadas ao prazer.
São frases do tipo: "Leia em excesso...", "Relaxe em excesso...",
sempre complementadas pela advertência "Fume com moderação".
Na segunda fase, a empresa lançará o slogan "Livre
para fumar ou parar". Cada ponto-de-venda terá um telefone
com linha direta para uma instituição independente,
que informará sobre o que fazer para deixar o fumo. O Free
foi escolhido por ter sido o primeiro cigarro de baixos teores lançado
no país. Segundo pesquisas, é também a marca
de maior identidade com o espírito da campanha.
A
discussão em torno das substâncias presentes no fumo
e na fumaça é uma das mais concorridas no debate sobre
tabaco. Em 1998, o diretor do Instituto para a Prevenção
do Câncer, dos Estados Unidos, Dietrich Hoffman, publicou
um trabalho no qual identificou pela primeira vez 4.720
dessas substâncias. O estudo motivou o governo canadense a
obrigar as empresas daquele país a apresentar a lista de
componentes dos produtos. O governo brasileiro seguiu o mesmo caminho.
Até agora, essa lista era entregue anualmente pelas empresas
à Agência Nacional de Vigilância Sanitária,
onde se mantinha como segredo industrial. Nenhuma empresa havia
revelado seus ingredientes ao público. Muito menos a relação
dos componentes da fumaça. "Essa decisão é
mais um passo na direção de reafirmarmos nossa responsabilidade
e transparência", declara o diretor de marketing da Souza
Cruz, Gilmar Madureira. É também uma estratégia
de sobrevivência da indústria, que está sendo
obrigada, quem diria, até mesmo a sugerir que o consumidor
pare de comprar seus produtos.
Iniciativas
como essa ainda despertam a desconfiança das autoridades
encarregadas do combate ao tabagismo ao redor do mundo. Em fevereiro
deste ano, a Organização Mundial de Saúde publicou
o documento intitulado "Indústria do tabaco e responsabilidade
corporativa: uma contradição". Nele, a OMS chama a
atenção para o que considera uma tendência mundial
da indústria de tentar ganhar credibilidade para encobrir
o que diz serem práticas antiéticas. Ela acusa a indústria
de usar as marcas de baixos teores para promover maior consumo de
cigarros. O argumento é que, para manterem o mesmo nível
de nicotina solicitado pelo organismo viciado, as pessoas acabam
fumando mais cigarros, o que aumenta o consumo. "Os estudos mostram
que a introdução de baixos teores no mercado não
diminuiu a incidência do câncer", afirma a coordenadora
do programa nacional de combate ao tabaco, Tânia Cavalcanti.
Portanto, como se vê, a guerra está longe do fim.
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