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Oriente
Médio
A riqueza dos aiatolás
Clero xiita se aproveitou do poder
total para enriquecer no Irã

José Eduardo Barella
Os
aiatolás do Irã derrubaram o xá Reza Pahlevi
em 1979 com a promessa de instaurar um regime de pureza islâmica
e alto padrão de moralidade pública. Para atingir
tais objetivos, o clero xiita assumiu total controle do aparelho
de Estado, das instituições nacionais e também
de boa parte da economia. Duas décadas depois, o resultado
da islamização é impressionante: os iranianos
estão mais pobres e os aiatolás, muito mais ricos.
O surgimento de uma casta de milionários de turbante era
previsível. Não há decisão política
ou econômica importante no Irã sem a bênção
dos mulás. E eles usam essa influência para controlar
os melhores negócios, principalmente os que envolvem moeda
forte. Não se tem notícia de que o falecido aiatolá
Khomeini, fundador da República Islâmica, tenha tirado
proveito financeiro do poder ilimitado de que dispunha. Já
seu filho mais velho, Ahmed, clérigo sem fortuna que passou
a controlar a agenda do pai, tinha se tornado o homem mais rico
do Irã quando morreu, em 1995. Com base em cálculos
do economista iraniano Saeed Laylaz, a revista americana Forbes
diz que o clero xiita desviou de 3 bilhões a 5 bilhões
de dólares por ano na última década só
com subsídios concedidos aos religiosos na compra de moeda
estrangeira. O Irã detém 9% das reservas mundiais
de petróleo e também é rico em gás natural
só se pode supor quanto dessa riqueza tem sido rapinada
pela turma de turbante.
O
aiatolá Ali Akbar Hashemi Rafsanjani pode ser considerado
o maior exemplo do enriquecimento fácil em nome de Alá.
Filho de uma família humilde de agricultores, Rafsanjani
foi um dos principais assessores de Khomeini. Presidiu o Parlamento
nos anos 80 e, após a morte do imã, foi nomeado seu
sucessor. Entre 1989 e 1997, Rafsanjani ocupou a Presidência
período no qual começou a erguer seu império
recorrendo ao nepotismo. Nomeou um irmão para dirigir a maior
mina de cobre do Irã e outro para cuidar da rede estatal
de rádio e TV. Para assegurar o controle da produção
de petróleo, Rafsanjani indicou um dos filhos e um sobrinho
para postos estratégicos no ministério do setor e
não sossegou até que um cunhado assumisse o governo
de uma região coalhada de poços. Paralelamente, Rafsanjani
colocou em marcha um processo de abertura econômica que recebeu
elogios no Ocidente mas que se caracterizou pela venda de
estatais a preço de banana para aliados e parentes.
Rafsanjani
foi derrotado nas eleições de 1997 pelo atual presidente,
o reformista Mohammed Khatami. A maioria dos parentes que havia
nomeado foi afastada e alguns aliados acabaram formalmente acusados
de corrupção. Mesmo assim, um de seus filhos continuou
à frente da construção do metrô de Teerã,
obra de 700 milhões de dólares e repleta de denúncias
de irregularidades. Sua família, porém, já
amealhou o suficiente para tocar por conta própria um império
econômico de interesses diversos, incluindo uma companhia
aérea, uma montadora de carros e resorts no exterior (veja
quadro ao lado). Hoje, Rafsanjani mantém sua influência
política dirigindo um dos vários órgãos
consultivos do Parlamento.
A fortuna acumulada pelos líderes religiosos é assunto
tabu no Irã por várias razões. A primeira,
óbvia, pelo fato de os iranianos viverem sob uma ditadura
não há partidos de oposição legalizados,
Judiciário independente nem liberdade de imprensa para denunciar
os desmandos dos mulás. "Quando o assunto é dinheiro,
somem as divergências entre conservadores e reformistas, que
costumam dividir esses líderes religiosos em correntes políticas
bem definidas", disse a VEJA o cientista político iraniano
Shaul Bakhash, do Instituto Brookings, nos Estados Unidos. A estrutura
de poder no Irã também facilita a roubalheira. Cerca
de 60% da economia está nas mãos do Estado. Outros
20% são controlados pelas bayads as fundações
de caridade religiosa que, na prática, funcionam como estatais
gigantes. As bayads foram criadas após a Revolução
Islâmica com o patrimônio confiscado da família
do xá e das multinacionais nacionalizadas. Sua função
era atender às camadas pobres da população,
mas acabaram se convertendo rapidamente em instrumento de clientelismo
político e fonte incontrolável de corrupção.
Até recentemente, essas fundações eram isentas
de impostos, podiam pegar emprestado dinheiro de bancos estatais
a juros subsidiados e ainda tinham acesso a taxas de câmbio
especiais. De quebra, não precisavam prestar contas ao governo
apenas a Alá.
Com tantos benefícios, essas fundações religiosas
criaram impérios econômicos. Um exemplo é a
Fundação dos Oprimidos, dirigida por Moshen Rafiqdoost,
ex-chefe da segurança pessoal de Khomeini. Apesar do nome,
a fundação tem 400 000 funcionários e bens
avaliados em 12 bilhões de dólares entre eles,
redes de hotéis cinco-estrelas e uma fábrica da Pepsi
nacionalizada, sem contar setores da indústria petrolífera,
têxtil e de construção civil. Além de
encherem os bolsos dos mulás e servirem de cabides de emprego,
as bayads financiam grupos terroristas no exterior, como
o Hezbollah, no Líbano, e são apontadas como fonte
de recursos para o programa nuclear secreto do governo. Foi uma
dessas fundações que, em 1989, ofereceu 2 milhões
de dólares pela cabeça do escritor anglo-indiano Salman
Rushdie, acusado de blasfemar contra o Islã no romance Os
Versos Satânicos.
Khatami, o presidente reformista, conseguiu aprovar algumas leis
que cortaram vários dos benefícios fiscais das bayads
e tomou medidas para coibir a corrupção. Mas parece
improvável uma caça aos mulás milionários.
Um filho do aiatolá Vaez Tabasi, Naser, que dirigia uma zona
de livre comércio na região do Golfo, chegou a ser
acusado de fraude e evasão de divisas. Mas acabou absolvido
por um tribunal há quatro meses sob a justificativa de que
não sabia que estava cometendo um crime. Resta saber se será
perdoado por Alá.
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Carnificina
na mesquita de Ali
AFP
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| Resgate
dos feridos em Najaf: um ataque num local santo
para os xiitas |
O
atentado foi devastador: o carro-bomba que explodiu
ao lado da mesquita de Ali, o local mais sagrado dos
muçulmanos xiitas, na sexta-feira passada, matou
pelo menos oitenta pessoas e feriu 100. Entre os mortos
está o aiatolá Mohammed Bakir Al-Hakim,
líder do Conselho Supremo para a Revolução
Islâmica no Iraque, a maior organização
política dos xiitas, que representam 60% da população
daquele país. Centenas de pessoas estavam no
complexo, que abriga a tumba de Ali, sobrinho do profeta
Maomé e fundador do ramo xiita do Islã,
na cidade de Najaf. A bomba foi acionada por controle
remoto e danificou a entrada principal da mesquita.
A pergunta óbvia nessas ocasiões é:
a quem interessa a morte de Al-Hakim? Exilado no vizinho
Irã, durante duas décadas, ele liderou
uma guerra de guerrilhas contra o regime de Saddam Hussein.
Voltou ao Iraque depois da queda do ditador e se mostrava
moderado e disposto a negociar com os americanos. Os
mulás xiitas estão em guerra aberta uns
com os outros e vários já foram mortos.
Mas é difícil imaginar que algum deles
tivesse a ousadia de dinamitar a mesquita de Ali.
AP
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| O
aiatolá Al-Hakim, morto no ataque: diálogo com americanos
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É por isso que os principais suspeitos são
os remanescentes do regime de Saddam, que representava
a vertente sunita do islamismo. O ataque aos aiatolás
combina com a estratégia de estabelecer o caos
no Iraque para tornar insuportável a vida das
tropas de ocupação. Dias antes, outro
aiatolá, tio de Hakim, escapou de um atentado
em que morreram alguns de seus guarda-costas. É
a complicação que faltava para os americanos:
agora também precisam garantir a vida dos aiatolás.
Como fazer isso se as tropas de ocupação
costumam ser recebidas por multidões furiosas
quando se aproximam dos locais santos dos xiitas? Na
semana passada, soube-se que aumenta a infiltração
através da Arábia Saudita e da Síria
de estrangeiros ansiosos para combater os americanos.
A situação está tão complicada
que Washington começou a pensar o impensável:
pedir a ajuda da ONU para patrulhar o Iraque. Até
agora, o governo Bush relutava, visto que o Conselho
de Segurança da organização não
endossou a invasão do Iraque. Na última
semana, o Departamento de Estado mudou de tom. As tropas
de paz da ONU são bem-vindas, desde que sob comando
americano.
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