Edição 1818 . 3 de setembro de 2003

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Oriente Médio
A riqueza dos aiatolás

Clero xiita se aproveitou do poder
total para enriquecer no Irã


José Eduardo Barella

Notícias diárias sobre a crise no Oriente Médio

Os aiatolás do Irã derrubaram o xá Reza Pahlevi em 1979 com a promessa de instaurar um regime de pureza islâmica e alto padrão de moralidade pública. Para atingir tais objetivos, o clero xiita assumiu total controle do aparelho de Estado, das instituições nacionais e também de boa parte da economia. Duas décadas depois, o resultado da islamização é impressionante: os iranianos estão mais pobres e os aiatolás, muito mais ricos. O surgimento de uma casta de milionários de turbante era previsível. Não há decisão política ou econômica importante no Irã sem a bênção dos mulás. E eles usam essa influência para controlar os melhores negócios, principalmente os que envolvem moeda forte. Não se tem notícia de que o falecido aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica, tenha tirado proveito financeiro do poder ilimitado de que dispunha. Já seu filho mais velho, Ahmed, clérigo sem fortuna que passou a controlar a agenda do pai, tinha se tornado o homem mais rico do Irã quando morreu, em 1995. Com base em cálculos do economista iraniano Saeed Laylaz, a revista americana Forbes diz que o clero xiita desviou de 3 bilhões a 5 bilhões de dólares por ano na última década só com subsídios concedidos aos religiosos na compra de moeda estrangeira. O Irã detém 9% das reservas mundiais de petróleo e também é rico em gás natural – só se pode supor quanto dessa riqueza tem sido rapinada pela turma de turbante.


O aiatolá Ali Akbar Hashemi Rafsanjani pode ser considerado o maior exemplo do enriquecimento fácil em nome de Alá. Filho de uma família humilde de agricultores, Rafsanjani foi um dos principais assessores de Khomeini. Presidiu o Parlamento nos anos 80 e, após a morte do imã, foi nomeado seu sucessor. Entre 1989 e 1997, Rafsanjani ocupou a Presidência – período no qual começou a erguer seu império recorrendo ao nepotismo. Nomeou um irmão para dirigir a maior mina de cobre do Irã e outro para cuidar da rede estatal de rádio e TV. Para assegurar o controle da produção de petróleo, Rafsanjani indicou um dos filhos e um sobrinho para postos estratégicos no ministério do setor e não sossegou até que um cunhado assumisse o governo de uma região coalhada de poços. Paralelamente, Rafsanjani colocou em marcha um processo de abertura econômica que recebeu elogios no Ocidente – mas que se caracterizou pela venda de estatais a preço de banana para aliados e parentes.


Rafsanjani foi derrotado nas eleições de 1997 pelo atual presidente, o reformista Mohammed Khatami. A maioria dos parentes que havia nomeado foi afastada e alguns aliados acabaram formalmente acusados de corrupção. Mesmo assim, um de seus filhos continuou à frente da construção do metrô de Teerã, obra de 700 milhões de dólares e repleta de denúncias de irregularidades. Sua família, porém, já amealhou o suficiente para tocar por conta própria um império econômico de interesses diversos, incluindo uma companhia aérea, uma montadora de carros e resorts no exterior (veja quadro ao lado). Hoje, Rafsanjani mantém sua influência política dirigindo um dos vários órgãos consultivos do Parlamento.

A fortuna acumulada pelos líderes religiosos é assunto tabu no Irã por várias razões. A primeira, óbvia, pelo fato de os iranianos viverem sob uma ditadura – não há partidos de oposição legalizados, Judiciário independente nem liberdade de imprensa para denunciar os desmandos dos mulás. "Quando o assunto é dinheiro, somem as divergências entre conservadores e reformistas, que costumam dividir esses líderes religiosos em correntes políticas bem definidas", disse a VEJA o cientista político iraniano Shaul Bakhash, do Instituto Brookings, nos Estados Unidos. A estrutura de poder no Irã também facilita a roubalheira. Cerca de 60% da economia está nas mãos do Estado. Outros 20% são controlados pelas bayads – as fundações de caridade religiosa que, na prática, funcionam como estatais gigantes. As bayads foram criadas após a Revolução Islâmica com o patrimônio confiscado da família do xá e das multinacionais nacionalizadas. Sua função era atender às camadas pobres da população, mas acabaram se convertendo rapidamente em instrumento de clientelismo político e fonte incontrolável de corrupção. Até recentemente, essas fundações eram isentas de impostos, podiam pegar emprestado dinheiro de bancos estatais a juros subsidiados e ainda tinham acesso a taxas de câmbio especiais. De quebra, não precisavam prestar contas ao governo – apenas a Alá.

Com tantos benefícios, essas fundações religiosas criaram impérios econômicos. Um exemplo é a Fundação dos Oprimidos, dirigida por Moshen Rafiqdoost, ex-chefe da segurança pessoal de Khomeini. Apesar do nome, a fundação tem 400 000 funcionários e bens avaliados em 12 bilhões de dólares – entre eles, redes de hotéis cinco-estrelas e uma fábrica da Pepsi nacionalizada, sem contar setores da indústria petrolífera, têxtil e de construção civil. Além de encherem os bolsos dos mulás e servirem de cabides de emprego, as bayads financiam grupos terroristas no exterior, como o Hezbollah, no Líbano, e são apontadas como fonte de recursos para o programa nuclear secreto do governo. Foi uma dessas fundações que, em 1989, ofereceu 2 milhões de dólares pela cabeça do escritor anglo-indiano Salman Rushdie, acusado de blasfemar contra o Islã no romance Os Versos Satânicos.

Khatami, o presidente reformista, conseguiu aprovar algumas leis que cortaram vários dos benefícios fiscais das bayads e tomou medidas para coibir a corrupção. Mas parece improvável uma caça aos mulás milionários. Um filho do aiatolá Vaez Tabasi, Naser, que dirigia uma zona de livre comércio na região do Golfo, chegou a ser acusado de fraude e evasão de divisas. Mas acabou absolvido por um tribunal há quatro meses sob a justificativa de que não sabia que estava cometendo um crime. Resta saber se será perdoado por Alá.

Carnificina na mesquita de Ali

 
AFP
Resgate dos feridos em Najaf: um ataque num local santo para os xiitas

O atentado foi devastador: o carro-bomba que explodiu ao lado da mesquita de Ali, o local mais sagrado dos muçulmanos xiitas, na sexta-feira passada, matou pelo menos oitenta pessoas e feriu 100. Entre os mortos está o aiatolá Mohammed Bakir Al-Hakim, líder do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, a maior organização política dos xiitas, que representam 60% da população daquele país. Centenas de pessoas estavam no complexo, que abriga a tumba de Ali, sobrinho do profeta Maomé e fundador do ramo xiita do Islã, na cidade de Najaf. A bomba foi acionada por controle remoto e danificou a entrada principal da mesquita. A pergunta óbvia nessas ocasiões é: a quem interessa a morte de Al-Hakim? Exilado no vizinho Irã, durante duas décadas, ele liderou uma guerra de guerrilhas contra o regime de Saddam Hussein. Voltou ao Iraque depois da queda do ditador e se mostrava moderado e disposto a negociar com os americanos. Os mulás xiitas estão em guerra aberta uns com os outros e vários já foram mortos. Mas é difícil imaginar que algum deles tivesse a ousadia de dinamitar a mesquita de Ali.

AP
O aiatolá Al-Hakim, morto no ataque: diálogo com americanos


É por isso que os principais suspeitos são os remanescentes do regime de Saddam, que representava a vertente sunita do islamismo. O ataque aos aiatolás combina com a estratégia de estabelecer o caos no Iraque para tornar insuportável a vida das tropas de ocupação. Dias antes, outro aiatolá, tio de Hakim, escapou de um atentado em que morreram alguns de seus guarda-costas. É a complicação que faltava para os americanos: agora também precisam garantir a vida dos aiatolás. Como fazer isso se as tropas de ocupação costumam ser recebidas por multidões furiosas quando se aproximam dos locais santos dos xiitas? Na semana passada, soube-se que aumenta a infiltração através da Arábia Saudita e da Síria de estrangeiros ansiosos para combater os americanos. A situação está tão complicada que Washington começou a pensar o impensável: pedir a ajuda da ONU para patrulhar o Iraque. Até agora, o governo Bush relutava, visto que o Conselho de Segurança da organização não endossou a invasão do Iraque. Na última semana, o Departamento de Estado mudou de tom. As tropas de paz da ONU são bem-vindas, desde que sob comando americano.

 

 
 
 
 
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