Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Divagações de domingo

Com a estréia de um novo quadro
do Fantástico, a onda de popularização
da filosofia chega à TV

Desde a semana retrasada, o programa Fantástico, da Rede Globo, trata de um tema até então ausente do horário nobre: a filosofia. A proposta do quadro Ser ou Não Ser é apresentar aos espectadores as idéias de pensadores como o grego Aristóteles e o francês Georges Bataille. Em seqüências que duram de oito a dez minutos, a apresentadora Viviane Mosé procura traduzir conceitos complexos por meio de metáforas simples (veja quadro). A investida do Fantástico (serão no total dezesseis programetes) é mais uma evidência da moda que se criou em torno da filosofia. Ela começou há cerca de dez anos, com a popularização dos saraus e dos chamados "cafés filosóficos", nos quais leigos se reúnem para estudar e divagar coletivamente sobre os grandes pensadores. Na década de 90, o norueguês Jostein Gaarder fez sucesso com O Mundo de Sofia, obra de divulgação da disciplina para o público juvenil – só no Brasil, foram 800.000 exemplares vendidos. Hoje, a filosofia alimenta um lucrativo mercado de auto-ajuda. O ex-professor americano Tom Morris cobra 30.000 dólares por uma palestra em que mostra como aplicar os ensinamentos de Aristóteles nos negócios. O suíço Alain de Botton explora a vertente em livros de "filosofia popular" e também num programa exibido pela rede inglesa BBC – com o qual, aliás, o quadro do Fantástico tem lá suas semelhanças.

Misto de professora de filosofia, psicanalista e poeta, a capixaba Viviane é uma veterana do circuito de saraus badalados no Rio de Janeiro. Seus cursos atraem celebridades como a atriz Camila Pitanga, a modelo Fernanda Lima e Glória Maria, apresentadora do Fantástico. "São tantos nomes que nem lembro mais", diz. Foi por intermédio de Glória Maria que Viviane teve a chance de levar suas aulas para o programa. Na TV, ela recorre a comparações com a vida cotidiana para condensar e tornar palatáveis as idéias de que trata. Em alguns casos, o expediente dá certo. Foi o que ocorreu na segunda edição do programa, quando se falou sobre o papel do erotismo segundo o francês Georges Bataille (1897-1962). O exercício do erotismo seria uma forma de os homens escaparem – ainda que momentaneamente e sem grandes rupturas – das restrições impostas pela ordem social. O impulso humano de transgredir essa ordem foi ilustrado com uma cena em que Viviane experimenta a sensação de queda livre num brinquedo radical. Uma alegoria precisa, na visão de especialistas ouvidos por VEJA.

Mas o programa também derrapa. As conclusões da mesma "pensata" sobre Georges Bataille, por exemplo, caem em lugares-comuns que fariam o autor murchar. Viviane diz coisas tão profundas quanto "o elixir da juventude está em correr riscos" e "é preciso estar aberto a mudanças". A filosofia é reduzida a dilemas como a busca pelo equilíbrio entre trabalho e prazer. É como a anedota em que Einstein tem de simplificar seguidas vezes a teoria da relatividade para que uma velhinha possa entendê-la. No final, ela compreende – mas aí já não havia nada da teoria de Einstein ali. "Com a vulgarização, a mensagem do filósofo pode acabar perdendo o sentido original", diz Clóvis de Barros Filho, professor da Universidade de São Paulo (USP). "Quando tudo é muito simplificado, a filosofia vira lugar-comum", diz o professor Antonio Medina Rodrigues, também da USP.

A onda de popularização da filosofia apóia-se na idéia de que ela pode ser uma ferramenta para melhorar a vida das pessoas – algo que, em certa medida, era sua função de origem, na Grécia antiga. Mas quem quiser discutir as decisões do chefe na base da Crítica da Razão Prática de Kant provavelmente vai se dar mal na firma. As pessoas podem estudar filosofia para ampliar seu repertório cultural. Não encontrarão nela nenhuma utilidade para resolver os problemas do dia-a-dia.

A filosofia é uma disciplina que pressupõe reflexão demorada – soa como um contra-senso, portanto, resumi-la a dropes para aprendizado rápido. Logo na primeira edição de Ser ou Não Ser, contudo, advertiu-se que o objetivo não é dar um curso de filosofia, e sim incentivar as pessoas a pensar. Por esse prisma, o quadro tem sua razão de ser. "A televisão deve ser vista como um incentivo para buscar as obras clássicas", diz o filósofo José Arthur Gianotti. Até a iniciativa do Fantástico, o máximo que se encontrava no gênero eram as mesas-redondas e as aulas de filosofia de um canal educativo como a paulista TV Cultura, que as exibe em horários alternativos. O programa da Globo ajuda a preencher uma lacuna de formação do brasileiro, já que desde os governos militares o ensino de filosofia esteve longe dos currículos obrigatórios. A filosofia não é a panacéia da auto-ajuda que muitos apregoam. Mas conhecê-la também não faz mal.

 

Pensadores na TV

Os temas do quadro sobre filosofiado Fantástico

Autor
O GREGO ARISTÓTELES

Idéia – O pensamento nasce da perplexidade, que leva o homem a questionamentos
Como o programa explicou – Um migrante da Paraíba chega a São Paulo pela primeira vez e se espanta com a paisagem da metrópole

Autor
O GREGO SÓFOCLES

Idéia – O homem é impotente diante do destino e por isso sofre mesmo sem ter culpa
Como o programa explicou – Identifica características das tragédias gregas nos dias de hoje, como o caso de um homem que ficou preso por vinte anos sem saber o motivo

Autor
O FRANCÊS GEORGES BATAILLE

Idéia – O erotismo é o impulso que leva o homem a transgredir as leis e a colocarseu próprio ser em questão
Como o programa explicou – A apresentadora Viviane Mosé compara esse conceito à sensação de vertigem de uma queda controlada num brinquedo. "A chave para a eterna juventude é correr riscos", diz

 
 
 
 
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