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Televisão Divagações
de domingo Com a estréia de um
novo quadro do Fantástico, a onda de popularização
da filosofia chega à TV Desde a semana
retrasada, o programa Fantástico, da Rede Globo, trata de um tema
até então ausente do horário nobre: a filosofia. A proposta
do quadro Ser ou Não Ser é apresentar aos espectadores as idéias
de pensadores como o grego Aristóteles e o francês Georges Bataille.
Em seqüências que duram de oito a dez minutos, a apresentadora Viviane
Mosé procura traduzir conceitos complexos por meio de metáforas
simples (veja quadro). A investida do Fantástico
(serão no total dezesseis programetes) é mais uma evidência
da moda que se criou em torno da filosofia. Ela começou há cerca
de dez anos, com a popularização dos saraus e dos chamados "cafés
filosóficos", nos quais leigos se reúnem para estudar e divagar
coletivamente sobre os grandes pensadores. Na década de 90, o norueguês
Jostein Gaarder fez sucesso com O Mundo de Sofia, obra de divulgação
da disciplina para o público juvenil só no Brasil, foram
800.000 exemplares vendidos. Hoje, a filosofia alimenta um lucrativo mercado de
auto-ajuda. O ex-professor americano Tom Morris cobra 30.000 dólares por
uma palestra em que mostra como aplicar os ensinamentos de Aristóteles
nos negócios. O suíço Alain de Botton explora a vertente
em livros de "filosofia popular" e também num programa exibido pela rede
inglesa BBC com o qual, aliás, o quadro do Fantástico
tem lá suas semelhanças.
Misto de professora de filosofia, psicanalista e poeta, a capixaba Viviane é
uma veterana do circuito de saraus badalados no Rio de Janeiro. Seus cursos atraem
celebridades como a atriz Camila Pitanga, a modelo Fernanda Lima e Glória
Maria, apresentadora do Fantástico. "São tantos nomes que
nem lembro mais", diz. Foi por intermédio de Glória Maria que Viviane
teve a chance de levar suas aulas para o programa. Na TV, ela recorre a comparações
com a vida cotidiana para condensar e tornar palatáveis as idéias
de que trata. Em alguns casos, o expediente dá certo. Foi o que ocorreu
na segunda edição do programa, quando se falou sobre o papel do
erotismo segundo o francês Georges Bataille (1897-1962). O exercício
do erotismo seria uma forma de os homens escaparem ainda que momentaneamente
e sem grandes rupturas das restrições impostas pela ordem
social. O impulso humano de transgredir essa ordem foi ilustrado com uma cena
em que Viviane experimenta a sensação de queda livre num brinquedo
radical. Uma alegoria precisa, na visão de especialistas ouvidos por VEJA.
Mas o programa também derrapa.
As conclusões da mesma "pensata" sobre Georges Bataille, por exemplo, caem
em lugares-comuns que fariam o autor murchar. Viviane diz coisas tão profundas
quanto "o elixir da juventude está em correr riscos" e "é preciso
estar aberto a mudanças". A filosofia é reduzida a dilemas como
a busca pelo equilíbrio entre trabalho e prazer. É como a anedota
em que Einstein tem de simplificar seguidas vezes a teoria da relatividade para
que uma velhinha possa entendê-la. No final, ela compreende mas aí
já não havia nada da teoria de Einstein ali. "Com a vulgarização,
a mensagem do filósofo pode acabar perdendo o sentido original", diz Clóvis
de Barros Filho, professor da Universidade de São Paulo (USP). "Quando
tudo é muito simplificado, a filosofia vira lugar-comum", diz o professor
Antonio Medina Rodrigues, também da USP.
A onda de popularização da filosofia apóia-se na idéia
de que ela pode ser uma ferramenta para melhorar a vida das pessoas algo
que, em certa medida, era sua função de origem, na Grécia
antiga. Mas quem quiser discutir as decisões do chefe na base da Crítica
da Razão Prática de Kant provavelmente vai se dar mal na firma.
As pessoas podem estudar filosofia para ampliar seu repertório cultural.
Não encontrarão nela nenhuma utilidade para resolver os problemas
do dia-a-dia. A filosofia é
uma disciplina que pressupõe reflexão demorada soa como um
contra-senso, portanto, resumi-la a dropes para aprendizado rápido. Logo
na primeira edição de Ser ou Não Ser, contudo, advertiu-se
que o objetivo não é dar um curso de filosofia, e sim incentivar
as pessoas a pensar. Por esse prisma, o quadro tem sua razão de ser. "A
televisão deve ser vista como um incentivo para buscar as obras clássicas",
diz o filósofo José Arthur Gianotti. Até a iniciativa do
Fantástico, o máximo que se encontrava no gênero eram
as mesas-redondas e as aulas de filosofia de um canal educativo como a paulista
TV Cultura, que as exibe em horários alternativos. O programa da Globo
ajuda a preencher uma lacuna de formação do brasileiro, já
que desde os governos militares o ensino de filosofia esteve longe dos currículos
obrigatórios. A filosofia não é a panacéia da auto-ajuda
que muitos apregoam. Mas conhecê-la também não faz mal.
Pensadores na TV Os
temas do quadro sobre filosofiado Fantástico Autor O
GREGO ARISTÓTELES Idéia
– O pensamento nasce da perplexidade, que leva o homem a questionamentos Como
o programa explicou – Um migrante da Paraíba chega a São Paulo
pela primeira vez e se espanta com a paisagem da metrópole Autor O
GREGO SÓFOCLES Idéia –
O homem é impotente diante do destino e por isso sofre mesmo sem ter culpa Como
o programa explicou – Identifica características das tragédias
gregas nos dias de hoje, como o caso de um homem que ficou preso por vinte anos
sem saber o motivo Autor O
FRANCÊS GEORGES BATAILLE Idéia
– O erotismo é o impulso que leva o homem a transgredir as leis e a
colocarseu próprio ser em questão Como o programa explicou
– A apresentadora Viviane Mosé compara esse conceito à sensação
de vertigem de uma queda controlada num brinquedo. "A chave para a eterna
juventude é correr riscos", diz | |
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