Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Televisão
O Discovery dos sem-cabo

Relíquia da TV, o Globo Repórter mudou
com os novos tempos do documentário.
Mas nem sempre acerta o tom

No ar há 32 anos, o programa Globo Repórter desbravou a seara dos documentários na televisão brasileira. É uma área que passou por uma revolução de forma e conteúdo nos últimos anos, com a chegada dos canais especializados da TV paga. O Globo Repórter não ficou imune à influência deles. Hoje, abre espaço para produções estrangeiras de primeira e se vale de um formato moderno ao abordar temas de saúde e tecnologia. O Globo Repórter tornou-se uma espécie de Discovery Channel dos espectadores "sem-cabo" – mas isso não quer dizer que se desfez de todas as tradições. Além do eterno âncora Sérgio Chapelin – quase um patrimônio tombado da televisão –, a atração da Rede Globo guia-se pelo mesmíssimo espírito do início dos anos 70 em suas edições dedicadas à natureza ou que enveredam por uma certa antropologia cultural. Nesses casos, ainda falta descobrir um novo tom.

Num canal como o Animal Planet, quase todos os apresentadores são cientistas ou zoólogos com pendor teatral. Assim, documentários sobre vida animal tendem a casar informação científica com certa ironia. Mistura semelhante se observa em programas sobre história ou viagens em outros canais da TV paga. Já o Globo Repórter assume uma atitude grandiloqüente para falar do valor da sanfona ou da descoberta de uma espécie de ave. Uma regra dos documentários do Discovery e do National Geographic é que texto e imagem têm de se complementar. O narrador não deve descrever as imagens, pois se considera que, além de ser redundância, isso desvaloriza as percepções do próprio espectador. O Globo Repórter vai num caminho oposto: investe no linguajar poético para ressaltar a beleza e o exotismo das imagens. "Na mata fechada, a vida às vezes é uma dança, um canto, uma estrada da incerteza", disse Chapelin, ao falar da dança do acasalamento de passarinhos numa reportagem recente sobre a Amazônia. Outra regra de ouro da TV paga é que os documentários devem ter um rígido fio temático. O Globo Repórter abdica dessa imposição – ou a leva em conta de maneira bem relaxada. Uma recente edição sobre festas juninas saltava de uma personagem surda-muda que dançava quadrilha para a indústria de fantasias do Nordeste – e daí para a colheita de milho.

Apesar do formato à moda antiga, o Globo Repórter conserva seu apelo. Toda sexta-feira, atrai cerca de 23 milhões de espectadores. Uma das razões é sua abordagem leve, que torna as reportagens acessíveis para qualquer público. Além disso, o Globo Repórter não tem concorrente. Há, no máximo, um clone como o Repórter Record, da rede homônima. Mas esse, apresentado pelo ex-Globo Celso Freitas, está mais para Casseta & Planeta. Numa reportagem sobre o Canadá, um repórter apontou para as Cataratas do Niágara encobertas pela névoa e disse: "Aqui, vocês não estão vendo as Cataratas do Niágara". Nada como o Globo Repórter.

 

Isto é Globo Repórter

TOM SOLENE
Sérgio Chapelin: o mesmíssimo apresentador do início, 32 anos atrás
ANTROPOLOGIA POP
Festas juninas no Nordeste: da quadrilha à colheita de milho
NO AR, A DANÇA DO ACASALAMENTO
Reportagem sobre a Amazônia: "Na mata, a vida às vezes é uma dança, um canto, uma estrada da incerteza"

 
 
 
 
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