|
|
Televisão O
Discovery dos sem-cabo Relíquia da TV, o Globo
Repórter mudou com os novos tempos do documentário.
Mas nem sempre acerta o tom No ar há 32 anos, o
programa Globo Repórter desbravou a seara dos documentários
na televisão brasileira. É uma área que passou por uma revolução
de forma e conteúdo nos últimos anos, com a chegada dos canais especializados
da TV paga. O Globo Repórter não ficou imune à influência
deles. Hoje, abre espaço para produções estrangeiras de primeira
e se vale de um formato moderno ao abordar temas de saúde e tecnologia.
O Globo Repórter tornou-se uma espécie de Discovery Channel
dos espectadores "sem-cabo" mas isso não quer dizer que se desfez
de todas as tradições. Além do eterno âncora Sérgio
Chapelin quase um patrimônio tombado da televisão ,
a atração da Rede Globo guia-se pelo mesmíssimo espírito
do início dos anos 70 em suas edições dedicadas à
natureza ou que enveredam por uma certa antropologia cultural. Nesses casos, ainda
falta descobrir um novo tom. Num canal como o Animal
Planet, quase todos os apresentadores são cientistas ou zoólogos
com pendor teatral. Assim, documentários sobre vida animal tendem a casar
informação científica com certa ironia. Mistura semelhante
se observa em programas sobre história ou viagens em outros canais da TV
paga. Já o Globo Repórter assume uma atitude grandiloqüente
para falar do valor da sanfona ou da descoberta de uma espécie de ave.
Uma regra dos documentários do Discovery e do National Geographic é
que texto e imagem têm de se complementar. O narrador não deve descrever
as imagens, pois se considera que, além de ser redundância, isso
desvaloriza as percepções do próprio espectador. O Globo
Repórter vai num caminho oposto: investe no linguajar poético
para ressaltar a beleza e o exotismo das imagens. "Na mata fechada, a vida às
vezes é uma dança, um canto, uma estrada da incerteza", disse Chapelin,
ao falar da dança do acasalamento de passarinhos numa reportagem recente
sobre a Amazônia. Outra regra de ouro da TV paga é que os documentários
devem ter um rígido fio temático. O Globo Repórter abdica
dessa imposição ou a leva em conta de maneira bem relaxada.
Uma recente edição sobre festas juninas saltava de uma personagem
surda-muda que dançava quadrilha para a indústria de fantasias do
Nordeste e daí para a colheita de milho.
Apesar do formato à moda antiga, o Globo Repórter conserva
seu apelo. Toda sexta-feira, atrai cerca de 23 milhões de espectadores.
Uma das razões é sua abordagem leve, que torna as reportagens acessíveis
para qualquer público. Além disso, o Globo Repórter não
tem concorrente. Há, no máximo, um clone como o Repórter
Record, da rede homônima. Mas esse, apresentado pelo ex-Globo Celso
Freitas, está mais para Casseta & Planeta. Numa reportagem sobre o
Canadá, um repórter apontou para as Cataratas do Niágara
encobertas pela névoa e disse: "Aqui, vocês não estão
vendo as Cataratas do Niágara". Nada como o Globo Repórter. |