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Livros Tédio
reciclado Mandrake, o personagem, não
envelheceu. Mas a literatura de Rubem Fonseca anda cansada
Divulgação  |
| Palmeira, como Mandrake: fã de charutos e mulheres
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Mandrake
não dá mostras de ter envelhecido. Faz já mais de vinte anos
que o advogado criminalista fez sua primeira aparição num conto
do escritor mineiro Rubem Fonseca, mas no novo livro do autor, Mandrake
A Bíblia e a Bengala (Companhia das Letras; 196 páginas;
32 reais), o tipão desencantado e duro não diminuiu seu ritmo. O
personagem que será vivido por Marcos Palmeira numa série
que deve estrear em outubro no canal por assinatura HBO segue apreciando
um bom charuto cubano, um fino vinho português e uma bela mulher de qualquer
nacionalidade (a história tem até condessa italiana; falsa condessa,
mas italiana legítima). O curioso é que, apesar da virilidade inabalável
de seu herói, esse novo Mandrake resultou num livro gasto, uma reciclagem
tediosa dos policiais típicos do autor. Até o estilo, que já
foi conciso e nervoso, hoje parece só apressado, pulando de um episódio
a outro como se o escritor cansado quisesse terminar logo o livro. O leitor
esse vai querer fechá-lo bem antes do fim.
Aliás, foi-se o tempo em que o leitor aguardava com ansiedade um novo livro
de Rubem Fonseca. O melhor que ele tem oferecido são antologias, como 64
Contos, do ano passado. Nos anos 70, porém, ele engatava um livro bom
atrás do outro, da competente novelinha policial O Caso Morel, em
1973, a duas grandes coletâneas de contos (até hoje suas melhores
obras), Feliz Ano Novo (1975) e O Cobrador (1979). E ainda
entrou dignamente na década seguinte com A Grande Arte (também
protagonizado por Mandrake), um romance irregular mas repleto da violência
visceral que é marca registrada do autor. Perto da vitalidade desses títulos,
o novo livro parece exangue. A obra reúne dois casos policiais narrados
pelo próprio Mandrake. A primeira história envolve um anão
apaixonado, uma bibliotecária estrangulada e o roubo de uma Bíblia
de Gutenberg. Talvez a intenção fosse uma paródia de livro
policial mas toda paródia fracassa quando resulta mais tola do que
o modelo que desejava ridicularizar. O final é aquela situação
esdrúxula que já se viu em incontáveis filmes B: o assassino
consegue encurralar o investigador que o descobriu mas, em vez de matá-lo
de uma vez, fica protelando o tiro para explicar as razões de seu crime.
É inacreditável que Rubem Fonseca tenha composto uma cena tão
primária. A segunda história é
melhorzinha, mas igualmente dispensável. Uma bengala de Mandrake é
utilizada para matar um homem, e ele se torna suspeito do crime. Trata-se de uma
bengala inglesa, com lâmina de aço embutido, da marca Swaine. É
um desses fetiches de colecionador que só se encontram nos livros de Rubem
Fonseca. Ele não faz mais que repetir seus truques. Sua literatura está
envelhecendo mal.
| Víscera exposta
Fernando Pimentel  |
| Rubem Fonseca: o grande autor dos anos 70 hoje só é bom
nas antologias | "O
legista perdera seu ar frágil, parecia dominado por uma força interna
ao serrar a calota craniana, depois ao quebrar com o formão a tábua
interna, ao cortar a dura-máter, nervos e artérias. Cuidadosamente,
retirou o cérebro, contemplou-o em sua mão. Quando eu era pequeno,
disse, quase encostando a massa encefálica no meu rosto, minha mãe
me obrigava a comer miolo de vaca, ela acreditava que fazia bem à saúde,
vocês eram obrigados a comer miolo de vaca?"
Trecho de Mandrake A Bíblia e a Bengala |
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