Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Tédio reciclado

Mandrake, o personagem, não
envelheceu. Mas a literatura de
Rubem Fonseca anda cansada


Divulgação
Palmeira, como Mandrake: fã de charutos e mulheres


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Trecho do livro

Mandrake não dá mostras de ter envelhecido. Faz já mais de vinte anos que o advogado criminalista fez sua primeira aparição num conto do escritor mineiro Rubem Fonseca, mas no novo livro do autor, Mandrake – A Bíblia e a Bengala (Companhia das Letras; 196 páginas; 32 reais), o tipão desencantado e duro não diminuiu seu ritmo. O personagem – que será vivido por Marcos Palmeira numa série que deve estrear em outubro no canal por assinatura HBO – segue apreciando um bom charuto cubano, um fino vinho português e uma bela mulher de qualquer nacionalidade (a história tem até condessa italiana; falsa condessa, mas italiana legítima). O curioso é que, apesar da virilidade inabalável de seu herói, esse novo Mandrake resultou num livro gasto, uma reciclagem tediosa dos policiais típicos do autor. Até o estilo, que já foi conciso e nervoso, hoje parece só apressado, pulando de um episódio a outro como se o escritor cansado quisesse terminar logo o livro. O leitor – esse vai querer fechá-lo bem antes do fim.

Aliás, foi-se o tempo em que o leitor aguardava com ansiedade um novo livro de Rubem Fonseca. O melhor que ele tem oferecido são antologias, como 64 Contos, do ano passado. Nos anos 70, porém, ele engatava um livro bom atrás do outro, da competente novelinha policial O Caso Morel, em 1973, a duas grandes coletâneas de contos (até hoje suas melhores obras), Feliz Ano Novo (1975) e O Cobrador (1979). E ainda entrou dignamente na década seguinte com A Grande Arte (também protagonizado por Mandrake), um romance irregular mas repleto da violência visceral que é marca registrada do autor. Perto da vitalidade desses títulos, o novo livro parece exangue. A obra reúne dois casos policiais narrados pelo próprio Mandrake. A primeira história envolve um anão apaixonado, uma bibliotecária estrangulada e o roubo de uma Bíblia de Gutenberg. Talvez a intenção fosse uma paródia de livro policial – mas toda paródia fracassa quando resulta mais tola do que o modelo que desejava ridicularizar. O final é aquela situação esdrúxula que já se viu em incontáveis filmes B: o assassino consegue encurralar o investigador que o descobriu – mas, em vez de matá-lo de uma vez, fica protelando o tiro para explicar as razões de seu crime. É inacreditável que Rubem Fonseca tenha composto uma cena tão primária.

A segunda história é melhorzinha, mas igualmente dispensável. Uma bengala de Mandrake é utilizada para matar um homem, e ele se torna suspeito do crime. Trata-se de uma bengala inglesa, com lâmina de aço embutido, da marca Swaine. É um desses fetiches de colecionador que só se encontram nos livros de Rubem Fonseca. Ele não faz mais que repetir seus truques. Sua literatura está envelhecendo mal.

 

Víscera exposta


Fernando Pimentel
Rubem Fonseca: o grande autor dos anos 70 hoje só é bom nas antologias


"O legista perdera seu ar frágil, parecia dominado por uma força interna ao serrar a calota craniana, depois ao quebrar com o formão a tábua interna, ao cortar a dura-máter, nervos e artérias. Cuidadosamente, retirou o cérebro, contemplou-o em sua mão. Quando eu era pequeno, disse, quase encostando a massa encefálica no meu rosto, minha mãe me obrigava a comer miolo de vaca, ela acreditava que fazia bem à saúde, vocês eram obrigados a comer miolo de vaca?"

Trecho de Mandrake – A Bíblia e a Bengala

 

 
 
 
 
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