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Livros O
mercador de idéias As análises
originais e inusitadas do economista americano Steven Levitt  Jerônimo
Teixeira
A
economia tem a fama de ser uma ciência árida, cujos praticantes utilizam
um jargão indevassável para encobrir os erros que cometem em suas
previsões. É surpreendente, portanto, que um livro sobre o tema
apareça há quatro semanas na lista dos mais vendidos de VEJA. Escrito
pelo economista da Universidade de Chicago Steven Levitt em parceria com o jornalista
Stephen Dubner, Freakonomics (tradução de Regina Lyra;
Campus/Elsevier; 256 páginas; 45 reais) serve como um lembrete de que o
verdadeiro objeto da economia não são números, mas pessoas
e os meios que elas encontram para satisfazer suas necessidades. Levitt
encarna a tendência recente de utilizar as poderosas ferramentas de análise
da ciência econômica para desvendar os mais variados aspectos do comportamento
humano, da eficácia de leis à sexualidade. O radar analítico
de Levitt é ainda mais peculiar e volta-se para assuntos como o sumô
e os riscos de ter uma piscina em casa.
A idéia do livro surgiu quando Dubner foi entrevistar Levitt que
acabara de ganhar a prestigiosa medalha John Bates Clark, destinada aos melhores
economistas com menos de 40 anos para um perfil publicado em 2003 no The
New York Times Magazine. Logo os dois estavam trabalhando juntos para converter
os estudos acadêmicos de Levitt num livro acessível a leigos. A parceria
funcionou: Freakonomics é uma leitura instigante, fluente
e muitas vezes divertida. O caráter de miscelânea do livro é
certamente um de seus charmes. Levitt parece se orgulhar de não ter um
"tema unificador" que limite sua obra e se dedica a assuntos inusitados. O
título conjuga as palavras economics (economia) e freak (esquisito).
No inglês original, a expressão tem lá seu apelo publicitário.
Mas é também um tanto sensacionalista, pois sugere que Levitt está
desbravando uma nova vertente pop de sua disciplina. Na verdade, ele utiliza os
princípios ortodoxos da economia liberal: a idéia de que todo indivíduo
é um agente econômico racional tomando decisões em face dos
castigos e incentivos que o mundo lhe oferece.
Nessa luta para aumentar benefícios e cortar custos, a trapaça é
um componente indesejável, mas sempre presente. Levitt procedeu a um curioso
exame dos classificados imobiliários, revelando que adjetivos como "espaçoso"
servem para disfarçar pulgueiros. Mas Freakonomics traz pelo menos
uma história que desvela uma tendência humana à honestidade:
a pequena aventura do homem que montou um negócio para vender bagels em
escritórios de Washington. Ele deixava caixas do produto em diferentes
firmas, acompanhadas de uma caixinha para recolher os pagamentos. Era um sistema
baseado na honra: qualquer freguês poderia comer seu bagel sem pagar
mas a maioria sempre pagou. O curioso é que a decisão de pagar (ou
de ser honesto) parece oscilar em decorrência dos mais diversos estímulos
externos, que não apenas o medo da punição ou do desprezo
dos colegas num escritório pequeno. Nos primeiros dias depois dos atentados
de 11 de setembro de 2001, o pagamento foi mais assíduo, provavelmente
porque as pessoas estavam infladas de um espírito solidário.
O estudo que granjeou fama a Levitt é dedicado à criminalidade.
O economista investigou as razões do decréscimo de crimes violentos
na década de 90, nos Estados Unidos. Com cálculos rigorosos, derrubou
várias explicações convencionais, como o uso de novas táticas
policiais e o crescimento econômico, e chegou a um fator que não
se via nas análise anteriores: a legalização do aborto nos
Estados Unidos, em 1973. Levitt argumenta que filhos indesejados de mães
solteiras e pobres têm maior risco de enveredar pelo crime e que
milhões desses criminosos em potencial foram abortados de 1973 em diante.
Segundo suas estimativas, o impacto do aborto responderia por 40% da queda da
criminalidade nos anos 90 (outros fatores importantes incluiriam o aumento do
efetivo policial e do número de prisões). A tese foi atacada de
todos os lados: os conservadores acusavam Levitt de fazer a propaganda do aborto,
e a esquerda o atacou por supostamente propor a esterilização dos
pobres. Tudo bobagem. Levitt não é um defensor nem do aborto nem
da eugenia. Ele é um cientista que confia no exame empírico, e não
em esquemas ideológicos. Seu livro traz esta lição fundamental:
o essencial é olhar sempre os fatos.
A economia das miudezas
No best-seller Freakonomics, o economista Steven Levitt se dedica a explorar
a dimensão econômica das mais variadas atividades. Eis alguns exemplos
Ilustrações
Negreiros
 | CASO
Nos anos 40, códigos secretos da Ku Klux Klan foram divulgados
numa série radiofônica de aventuras do Super-Homem e isso
serviu para desmoralizar a irmandade racista LIÇÃO
ECONÔMICA Quando dados exclusivos de uma organização
ou mercado são tornados públicos, aqueles que os detinham perdem
poder |
CASO Mesmo no sumô,
esporte japonês regido por um estrito código de honra, existe "marmelada":
lutadores perdem de propósito para favorecer companheiros que se arriscam
a cair no ranking LIÇÃO
ECONÔMICA Todo sistema baseado em incentivos está sujeito
à corrupção
CASO Os 40 milhões de
americanos que todo ano utilizam serviços de encontros pela internet mentem
sobre tudo para vender-se aos parceiros: altura, peso, beleza e salário
LIÇÃO ECONÔMICA
Nas transações afetivas, assim como nas comerciais, há
um abismo entre as informações públicas e os fatos verdadeiros
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