Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Livros
O mercador de idéias

As análises originais e inusitadas do
economista americano Steven Levitt


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

A economia tem a fama de ser uma ciência árida, cujos praticantes utilizam um jargão indevassável para encobrir os erros que cometem em suas previsões. É surpreendente, portanto, que um livro sobre o tema apareça há quatro semanas na lista dos mais vendidos de VEJA. Escrito pelo economista da Universidade de Chicago Steven Levitt em parceria com o jornalista Stephen Dubner, Freakonomics (tradução de Regina Lyra; Campus/Elsevier; 256 páginas; 45 reais) serve como um lembrete de que o verdadeiro objeto da economia não são números, mas pessoas – e os meios que elas encontram para satisfazer suas necessidades. Levitt encarna a tendência recente de utilizar as poderosas ferramentas de análise da ciência econômica para desvendar os mais variados aspectos do comportamento humano, da eficácia de leis à sexualidade. O radar analítico de Levitt é ainda mais peculiar e volta-se para assuntos como o sumô e os riscos de ter uma piscina em casa.

A idéia do livro surgiu quando Dubner foi entrevistar Levitt – que acabara de ganhar a prestigiosa medalha John Bates Clark, destinada aos melhores economistas com menos de 40 anos – para um perfil publicado em 2003 no The New York Times Magazine. Logo os dois estavam trabalhando juntos para converter os estudos acadêmicos de Levitt num livro acessível a leigos. A parceria funcionou: Freakonomics é uma leitura instigante, fluente – e muitas vezes divertida. O caráter de miscelânea do livro é certamente um de seus charmes. Levitt parece se orgulhar de não ter um "tema unificador" que limite sua obra e se dedica a assuntos inusitados. O título conjuga as palavras economics (economia) e freak (esquisito). No inglês original, a expressão tem lá seu apelo publicitário. Mas é também um tanto sensacionalista, pois sugere que Levitt está desbravando uma nova vertente pop de sua disciplina. Na verdade, ele utiliza os princípios ortodoxos da economia liberal: a idéia de que todo indivíduo é um agente econômico racional tomando decisões em face dos castigos e incentivos que o mundo lhe oferece.

Nessa luta para aumentar benefícios e cortar custos, a trapaça é um componente indesejável, mas sempre presente. Levitt procedeu a um curioso exame dos classificados imobiliários, revelando que adjetivos como "espaçoso" servem para disfarçar pulgueiros. Mas Freakonomics traz pelo menos uma história que desvela uma tendência humana à honestidade: a pequena aventura do homem que montou um negócio para vender bagels em escritórios de Washington. Ele deixava caixas do produto em diferentes firmas, acompanhadas de uma caixinha para recolher os pagamentos. Era um sistema baseado na honra: qualquer freguês poderia comer seu bagel sem pagar – mas a maioria sempre pagou. O curioso é que a decisão de pagar (ou de ser honesto) parece oscilar em decorrência dos mais diversos estímulos externos, que não apenas o medo da punição ou do desprezo dos colegas num escritório pequeno. Nos primeiros dias depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o pagamento foi mais assíduo, provavelmente porque as pessoas estavam infladas de um espírito solidário.

O estudo que granjeou fama a Levitt é dedicado à criminalidade. O economista investigou as razões do decréscimo de crimes violentos na década de 90, nos Estados Unidos. Com cálculos rigorosos, derrubou várias explicações convencionais, como o uso de novas táticas policiais e o crescimento econômico, e chegou a um fator que não se via nas análise anteriores: a legalização do aborto nos Estados Unidos, em 1973. Levitt argumenta que filhos indesejados de mães solteiras e pobres têm maior risco de enveredar pelo crime – e que milhões desses criminosos em potencial foram abortados de 1973 em diante. Segundo suas estimativas, o impacto do aborto responderia por 40% da queda da criminalidade nos anos 90 (outros fatores importantes incluiriam o aumento do efetivo policial e do número de prisões). A tese foi atacada de todos os lados: os conservadores acusavam Levitt de fazer a propaganda do aborto, e a esquerda o atacou por supostamente propor a esterilização dos pobres. Tudo bobagem. Levitt não é um defensor nem do aborto nem da eugenia. Ele é um cientista que confia no exame empírico, e não em esquemas ideológicos. Seu livro traz esta lição fundamental: o essencial é olhar sempre os fatos.

 

A economia das miudezas

No best-seller Freakonomics, o economista Steven Levitt se dedica a explorar a dimensão econômica das mais variadas atividades. Eis alguns exemplos

 
Ilustrações Negreiros

CASO – Nos anos 40, códigos secretos da Ku Klux Klan foram divulgados numa série radiofônica de aventuras do Super-Homem – e isso serviu para desmoralizar a irmandade racista

LIÇÃO ECONÔMICA – Quando dados exclusivos de uma organização ou mercado são tornados públicos, aqueles que os detinham perdem poder

 

CASO – Mesmo no sumô, esporte japonês regido por um estrito código de honra, existe "marmelada": lutadores perdem de propósito para favorecer companheiros que se arriscam a cair no ranking

LIÇÃO ECONÔMICA – Todo sistema baseado em incentivos está sujeito à corrupção

 

CASO – Os 40 milhões de americanos que todo ano utilizam serviços de encontros pela internet mentem sobre tudo para vender-se aos parceiros: altura, peso, beleza e salário

LIÇÃO ECONÔMICA – Nas transações afetivas, assim como nas comerciais, há um abismo entre as informações públicas e os fatos verdadeiros

 
 
 
 
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