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Cinema Uma
questão de classe Gângsteres versus
a ordem social inglesa: eis o tema do ótimo Nem Tudo É
o que Parece 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| Craig (à esq.), com Colm Meaney: a lógica empresarial
se espraia para o mundo do tráfico |
Em
nenhum momento de Nem Tudo É o que Parece (Layer Cake, Inglaterra,
2004), que estréia nesta sexta-feira no país, a platéia toma
conhecimento de qual é, afinal, o nome de seu protagonista. XXXX (Daniel
Craig), um traficante londrino que pretende se aposentar antes dos 40 anos e do
fim do filme, se crê um especialista nas artes da dissimulação
e da discrição. Sua operação é dirigida com
técnicas eficientes de administração que não incluem
armas nem violência, sua ligação com o mundo do crime é
efetuada por meio de um único canal que ele acredita ser de mão
única e seu dinheiro é lavado em vários negócios
legítimos, pelos quais ele recolhe imposto como qualquer cidadão.
XXXX é, enfim, um exemplo do espraiamento dos métodos corporativos
para todos os setores da atividade econômica, legais ou não. Como
todo gângster inglês, ele é também alguém que
está tentando furar o sistema de classes sociais tido por reputação
(e provavelmente também por direito) como o mais rígido do Ocidente.
O que os novos tempos lhe permitem, entretanto, é não ter de fazê-lo
por meio da força bruta, mas com suavidade. Com seu apartamento que é
um modelo do chic masculino, suas roupas discretamente fashion e seu sotaque
bem mais cultivado que o de seus parceiros, XXXX é um tigre que de fato
conseguiu perder suas listras. E isso, em última análise, é
o que fará o caldo entornar. Um parceiro de tráfico, mais poderoso
que XXXX mas secretamente invejoso de sua bem-sucedida reinvenção
social, montará para ele uma armação destinada a fazê-lo
tropeçar nas próprias e ambiciosas pernas.
Estréia na direção de Matthew Vaughn, que foi produtor do
cineasta Guy Ritchie em filmes pop de gângster como Jogos, Trapaças
e Dois Canos Fumegantes, Nem Tudo É o que Parece prefere o viés
dramático quase desesperado, aliás ao paródico,
mas compartilha com seus antecessores o pendor para o visual inventivo e o humor
negro. Tem também, no protagonista, um trunfo e tanto. Diz-se no meio artístico
britânico, com muita maldade e alguma perspicácia, que basta arranhar
um ator para encontrar, logo abaixo da superfície, uma atriz. Daniel Craig,
que se especula ser o novo James Bond (não se ele for tão esperto
quanto parece, porém), pertence ao grupo seletíssimo de atores como
Russell Crowe e Clive Owen os que, arranhados, não mudam de gênero.
Tragado por uma confusão que envolve traficantes arrivistas e genocidas
sérvios, entre outras categorias profissionais, XXXX passa mais medo do
que jamais imaginou, mas sem nunca largar das suas tábuas de salvação
e razões de ser a autoconfiança, a habilidade de seduzir
e a atitude blasé. É um papel que exige partes iguais de carisma
e técnica, qualidades que poucas vezes andam juntas. Não é
só por Craig, porém, que o filme se sustenta. O que dá brilho
a Nem Tudo É o que Parece é também o olhar atualizado
sobre os dois elementos que tornam o filme inglês de gângster tão
diverso de seus similares americanos. Em primeiro lugar, a ausência quase
completa de armas de fogo, que termina por acentuar a crueza e a crueldade da
violência física resolvida sempre na base do espancamento.
Em segundo e mais relevante lugar, a dissecção de uma das instituições
mais intrincadas e impenetráveis que se conhece: a sociedade de classes
britânica mais ainda do que o dinheiro fácil, é subir
nesse "bolo em camadas" a que se refere o título original o que atrai o
criminoso inglês. Ao menos o de celulóide. |