Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Cinema
Uma questão de classe

Gângsteres versus a ordem
social inglesa: eis o tema do
ótimo Nem Tudo É o que Parece


Isabela Boscov


Divulgação
Craig (à esq.), com Colm Meaney: a lógica empresarial se espraia para o mundo do tráfico



EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

Em nenhum momento de Nem Tudo É o que Parece (Layer Cake, Inglaterra, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, a platéia toma conhecimento de qual é, afinal, o nome de seu protagonista. XXXX (Daniel Craig), um traficante londrino que pretende se aposentar antes dos 40 anos e do fim do filme, se crê um especialista nas artes da dissimulação e da discrição. Sua operação é dirigida com técnicas eficientes de administração que não incluem armas nem violência, sua ligação com o mundo do crime é efetuada por meio de um único canal – que ele acredita ser de mão única – e seu dinheiro é lavado em vários negócios legítimos, pelos quais ele recolhe imposto como qualquer cidadão. XXXX é, enfim, um exemplo do espraiamento dos métodos corporativos para todos os setores da atividade econômica, legais ou não. Como todo gângster inglês, ele é também alguém que está tentando furar o sistema de classes sociais tido por reputação (e provavelmente também por direito) como o mais rígido do Ocidente. O que os novos tempos lhe permitem, entretanto, é não ter de fazê-lo por meio da força bruta, mas com suavidade. Com seu apartamento que é um modelo do chic masculino, suas roupas discretamente fashion e seu sotaque bem mais cultivado que o de seus parceiros, XXXX é um tigre que de fato conseguiu perder suas listras. E isso, em última análise, é o que fará o caldo entornar. Um parceiro de tráfico, mais poderoso que XXXX mas secretamente invejoso de sua bem-sucedida reinvenção social, montará para ele uma armação destinada a fazê-lo tropeçar nas próprias e ambiciosas pernas.

Estréia na direção de Matthew Vaughn, que foi produtor do cineasta Guy Ritchie em filmes pop de gângster como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, Nem Tudo É o que Parece prefere o viés dramático – quase desesperado, aliás – ao paródico, mas compartilha com seus antecessores o pendor para o visual inventivo e o humor negro. Tem também, no protagonista, um trunfo e tanto. Diz-se no meio artístico britânico, com muita maldade e alguma perspicácia, que basta arranhar um ator para encontrar, logo abaixo da superfície, uma atriz. Daniel Craig, que se especula ser o novo James Bond (não se ele for tão esperto quanto parece, porém), pertence ao grupo seletíssimo de atores como Russell Crowe e Clive Owen – os que, arranhados, não mudam de gênero. Tragado por uma confusão que envolve traficantes arrivistas e genocidas sérvios, entre outras categorias profissionais, XXXX passa mais medo do que jamais imaginou, mas sem nunca largar das suas tábuas de salvação e razões de ser – a autoconfiança, a habilidade de seduzir e a atitude blasé. É um papel que exige partes iguais de carisma e técnica, qualidades que poucas vezes andam juntas. Não é só por Craig, porém, que o filme se sustenta. O que dá brilho a Nem Tudo É o que Parece é também o olhar atualizado sobre os dois elementos que tornam o filme inglês de gângster tão diverso de seus similares americanos. Em primeiro lugar, a ausência quase completa de armas de fogo, que termina por acentuar a crueza e a crueldade da violência física – resolvida sempre na base do espancamento. Em segundo e mais relevante lugar, a dissecção de uma das instituições mais intrincadas e impenetráveis que se conhece: a sociedade de classes britânica – mais ainda do que o dinheiro fácil, é subir nesse "bolo em camadas" a que se refere o título original o que atrai o criminoso inglês. Ao menos o de celulóide.

 
 
 
 
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