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Cinema Um
terrível mundo novo A
Ilha tem muitos defeitos e uma idéia
sólida: a de que o homem já virou uma mercadoria genética
 Isabela
Boscov Divulgação
 | | Scarlett
e McGregor: humanos, mas sem natureza humana |
A
Ilha (The Island, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira
no país, é um filme em duas marchas. Numa delas, a acelerada, o
diretor Michael Bay destrói tudo o que encontra pela frente apenas pelo
gosto de fazê-lo, como é seu hábito muito desagradável
e estuporante. Na outra marcha, a mais lenta, é que transcorre o filme
em si: uma história passada no futuro próximo de 2019, na qual se
lida com uma idéia que vem migrando com urgência da ficção
científica para a esfera do dia-a-dia a idéia do "pós-humano".
Lincoln 6 Echo (Ewan McGregor) vive junto com outros sobreviventes de uma contaminação
global numa cidade meticulosamente asséptica, controlada e isolada do mundo
exterior. A única emoção permitida é a loteria por
meio da qual se sorteia quem será levado à ilha do título,
um paraíso intocado pela hecatombe. Lincoln e sua amiga Jordan 2 Delta
(Scarlett Johansson), porém, descobrirão que não existe contaminação
ou ilha, mas apenas um centro médico no qual eles e os que são como
eles clones de pessoas que podem pagar por esse serviço serão,
um dia, retalhados para repor os órgãos desgastados de seus "patrocinadores".
Estes crêem que seus duplos são não-humanos: seres biologicamente
idênticos a eles, mas sem razão, consciência ou sentimento.
E mesmo a descoberta da verdade talvez não os detivesse, é o que
Lincoln constatará num encontro com seu modelo original, que se irrita
com a rebeldia do produto que comprou no "supermercado genético"
expressão já corrente entre os que alertam para os riscos da biotecnologia.
Há mais de um século
a humanidade se fascina com as avenidas cada vez mais largas que abre no caminho
para "brincar de Deus", e a ficção sempre esteve atenta a esses
estados de espírito. Das medonhas combinações entre humanos
e animais de A Ilha do Dr. Moreau, escrito por H.G. Wells em 1896, à
separação dos organismos humanos em categorias superiores e inferiores
no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, de 1932, o saldo dessa
presunção foi sempre apresentado como catastrófico. Com a
entrada em cena da cibernética, outra questão começou a se
justapor a essa: o que, afinal, define a natureza humana, e a distingue de seus
arremedos. Em Blade Runner, de 1982, os replicantes ciborgues tão
perfeitos que nem eles sabem sê-lo interpretados por Harrison Ford
e Sean Young escolhem fugir e viver da única forma que conhecem: como se
fossem humanos. Em A.I. Inteligência Artificial, que mergulha
mais fundo do que qualquer outro nesse dilema filosófico, o menino-robô
David é indistinguível, na aparência e na alma, de uma criança
verdadeira, mas nunca será amado como tal. Falta-lhe o essencial: o parentesco
com a espécie. David é, em suma, um espelho no qual o narciso humano
não se reconhece. A ciência
está muito longe de criar uma inteligência artificial tão
verossímil quanto David, mas muito perto de fazer com que a questão
levantada por A.I. se aplique aos próprios homens razão
pela qual cenários como o de A Ilha entraram na lista de prioridades
de pensadores influentes como o alemão Jürgen Habermas e o americano
Francis Fukuyama. O rigoroso Habermas e o espetaculoso Fukuyama são como
a água e o óleo da filosofia, mas ambos frisam um mesmo ponto em
ensaios recentes: os avanços em áreas como a clonagem e a manipulação
genética estão prestes a desencadear uma revolução
no conceito de natureza humana. Alguns dos sinais são sutis. Fukuyama cita,
por exemplo, o senso de superioridade genética não
meramente intelectual que um aluno brilhante tem, hoje, sobre seus colegas
mais lentos. Outros sintomas já surgem polêmicos, como o impasse
sobre utilizar ou não embriões humanos para a obtenção
de células-tronco. Habermas concede que é difícil resistir
ao apelo quase milagroso desse tipo de terapia ou dos diagnósticos genéticos
que permitem não implantar no útero embriões com alterações
e salienta que será ainda mais difícil brecar esses progressos
na mera cura ou prevenção de doenças. Da eugenia negativa,
que elimina características indesejáveis, diz ele, está-se
partindo rapidamente para um clima de aceitação à eugenia
positiva, a que seleciona traços desejáveis.
As implicações desse novo estado de coisas são abissais.
Pela primeira vez na história pode haver uma geração que
nunca terá a opção de superar as escolhas de seus pais
uma vez que elas não se limitarão à educação,
mas abraçarão também a configuração genética
e assumir total responsabilidade por sua biografia. A idéia de homens
"superiores" e "inferiores" faria uma nefasta volta à ordem do dia. E se
poderia culminar no mesmo mal retratado em A.I. e A Ilha: a criação
de organismos, para fins utilitários, aos quais não se atribui uma
natureza humana. Essas não são questões de um futuro incerto,
argumenta Habermas, mas pertencem a um "presente vindouro". Com todos os seus
defeitos, e eles não são poucos nem pequenos, é esse o ponto
instigante levantado por A Ilha: o supermercado genético não
é mais uma miragem. Ele está aberto, e as filas já estão
se formando à sua porta.
Ser e não ser PAREÇO
HUMANO, PORTANTO O SOU Em Blade Runner, Harrison Ford é
um caçador de replicantes, a quem despreza como inferiores. Ao descobrir
ser um deles, decide que ter uma natureza humana é o suficiente para sê-lo
PAREÇO HUMANO, MAS NUNCA
O SEREI Em A.I., os robôs David e Joe são idênticos
a homens, mas separados deles por um abismo: a falta de parentesco com a espécie
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