Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Cinema
Um terrível mundo novo

A Ilha tem muitos defeitos e uma
idéia sólida: a de que o homem já
virou uma mercadoria genética


Isabela Boscov

 

Divulgação
Scarlett e McGregor: humanos, mas sem natureza humana


EXCLUSIVO ON-LINE
Fotos do filme

DA INTERNET
Trailer

A Ilha (The Island, Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira no país, é um filme em duas marchas. Numa delas, a acelerada, o diretor Michael Bay destrói tudo o que encontra pela frente apenas pelo gosto de fazê-lo, como é seu hábito muito desagradável e estuporante. Na outra marcha, a mais lenta, é que transcorre o filme em si: uma história passada no futuro próximo de 2019, na qual se lida com uma idéia que vem migrando com urgência da ficção científica para a esfera do dia-a-dia – a idéia do "pós-humano". Lincoln 6 Echo (Ewan McGregor) vive junto com outros sobreviventes de uma contaminação global numa cidade meticulosamente asséptica, controlada e isolada do mundo exterior. A única emoção permitida é a loteria por meio da qual se sorteia quem será levado à ilha do título, um paraíso intocado pela hecatombe. Lincoln e sua amiga Jordan 2 Delta (Scarlett Johansson), porém, descobrirão que não existe contaminação ou ilha, mas apenas um centro médico no qual eles e os que são como eles – clones de pessoas que podem pagar por esse serviço – serão, um dia, retalhados para repor os órgãos desgastados de seus "patrocinadores". Estes crêem que seus duplos são não-humanos: seres biologicamente idênticos a eles, mas sem razão, consciência ou sentimento. E mesmo a descoberta da verdade talvez não os detivesse, é o que Lincoln constatará num encontro com seu modelo original, que se irrita com a rebeldia do produto que comprou no "supermercado genético" – expressão já corrente entre os que alertam para os riscos da biotecnologia.

Há mais de um século a humanidade se fascina com as avenidas cada vez mais largas que abre no caminho para "brincar de Deus", e a ficção sempre esteve atenta a esses estados de espírito. Das medonhas combinações entre humanos e animais de A Ilha do Dr. Moreau, escrito por H.G. Wells em 1896, à separação dos organismos humanos em categorias superiores e inferiores no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, de 1932, o saldo dessa presunção foi sempre apresentado como catastrófico. Com a entrada em cena da cibernética, outra questão começou a se justapor a essa: o que, afinal, define a natureza humana, e a distingue de seus arremedos. Em Blade Runner, de 1982, os replicantes – ciborgues tão perfeitos que nem eles sabem sê-lo – interpretados por Harrison Ford e Sean Young escolhem fugir e viver da única forma que conhecem: como se fossem humanos. Em A.I. – Inteligência Artificial, que mergulha mais fundo do que qualquer outro nesse dilema filosófico, o menino-robô David é indistinguível, na aparência e na alma, de uma criança verdadeira, mas nunca será amado como tal. Falta-lhe o essencial: o parentesco com a espécie. David é, em suma, um espelho no qual o narciso humano não se reconhece.

A ciência está muito longe de criar uma inteligência artificial tão verossímil quanto David, mas muito perto de fazer com que a questão levantada por A.I. se aplique aos próprios homens – razão pela qual cenários como o de A Ilha entraram na lista de prioridades de pensadores influentes como o alemão Jürgen Habermas e o americano Francis Fukuyama. O rigoroso Habermas e o espetaculoso Fukuyama são como a água e o óleo da filosofia, mas ambos frisam um mesmo ponto em ensaios recentes: os avanços em áreas como a clonagem e a manipulação genética estão prestes a desencadear uma revolução no conceito de natureza humana. Alguns dos sinais são sutis. Fukuyama cita, por exemplo, o senso de superioridade genética – não meramente intelectual – que um aluno brilhante tem, hoje, sobre seus colegas mais lentos. Outros sintomas já surgem polêmicos, como o impasse sobre utilizar ou não embriões humanos para a obtenção de células-tronco. Habermas concede que é difícil resistir ao apelo quase milagroso desse tipo de terapia ou dos diagnósticos genéticos que permitem não implantar no útero embriões com alterações – e salienta que será ainda mais difícil brecar esses progressos na mera cura ou prevenção de doenças. Da eugenia negativa, que elimina características indesejáveis, diz ele, está-se partindo rapidamente para um clima de aceitação à eugenia positiva, a que seleciona traços desejáveis.

As implicações desse novo estado de coisas são abissais. Pela primeira vez na história pode haver uma geração que nunca terá a opção de superar as escolhas de seus pais – uma vez que elas não se limitarão à educação, mas abraçarão também a configuração genética – e assumir total responsabilidade por sua biografia. A idéia de homens "superiores" e "inferiores" faria uma nefasta volta à ordem do dia. E se poderia culminar no mesmo mal retratado em A.I. e A Ilha: a criação de organismos, para fins utilitários, aos quais não se atribui uma natureza humana. Essas não são questões de um futuro incerto, argumenta Habermas, mas pertencem a um "presente vindouro". Com todos os seus defeitos, e eles não são poucos nem pequenos, é esse o ponto instigante levantado por A Ilha: o supermercado genético não é mais uma miragem. Ele está aberto, e as filas já estão se formando à sua porta.

 

Ser e não ser

PAREÇO HUMANO, PORTANTO O SOU
Em Blade Runner, Harrison Ford é um caçador de replicantes, a quem despreza como inferiores. Ao descobrir ser um deles, decide que ter uma natureza humana é o suficiente para sê-lo

PAREÇO HUMANO, MAS NUNCA O SEREI
Em A.I., os robôs David e Joe são idênticos a homens, mas separados deles por um abismo: a falta de parentesco com a espécie

 
 
 
 
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