Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Comportamento
As melhores cidades
para solteiros

Um ranking das metrópoles
brasileiras mais acolhedoras
para quem mora sozinho


Ruth Costas


Roberto Setton
Luciana Araújo Camargos, de 30 anos, funcionária do consulado do Uruguai em Belo Horizonte, está, como ela diz, se "redescobrindo" depois de seis anos de namoro firme e quatro de casada. Mora sozinha há quase um ano e, como muitos de seus amigos também são solteiros, não lhe falta companhia. "Tenho liberdade para fazer o que quero sem dar satisfação a ninguém", diz Luciana. Ela vê apenas um problema em sua cidade: quando sai à noite, encontra sempre as mesmas pessoas


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Um tipo de solteiro em cada cidade

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No passado, quem passava dos 30 anos sem tomar o rumo do altar precisava se desdobrar para explicar aos parentes por que vivia só. Já não é assim. Os solteiros formam uma das parcelas da população que mais crescem no Brasil. O fenômeno não é só demográfico, mas também cultural e social, com repercussão marcante no estilo de vida nos grandes centros urbanos. De acordo com o último censo do IBGE, há 52 milhões de brasileiros com mais de 18 anos solteiros ou descasados. Entre 1990 e 2000, o número de pessoas que moram sozinhas aumentou 70%. É uma população variada: profissionais jovens que esperam se firmar na carreira antes de abrir espaço no guarda-roupa para outra pessoa, estudantes demasiadamente envolvidos nos estudos, descasados ansiosos por aproveitar a liberdade reconquistada e outros tipos urbanos que simplesmente escolheram dedicar-se a si próprios em vez de encarar uma vida a dois. As pesquisas concordam que um solteiro vive melhor numa metrópole do que num lugarejo, por mais pitoresco que ele seja.

Para traçar o perfil dos solteiros brasileiros e revelar as capitais mais acolhedoras para eles, VEJA preparou duas pesquisas. A primeira utilizou dados referentes à oferta de certos recursos (veja os critérios) que, de acordo com o outro levantamento, são necessários para a felicidade de quem vive sozinho. O resultado é o ranking dos melhores centros urbanos para ser solteiro, publicado nesta reportagem. São Paulo, a maior cidade do país, alcançou a melhor pontuação. A metrópole é aquela que reúne o mais completo conjunto de vantagens para quem leva a vida só. Incluem-se nessa lista as oportunidades profissionais e até a facilidade de encontrar gente animada e disponível para... programas de solteiro. O segundo levantamento – feito pelo instituto Ipsos, de São Paulo, com solteiros e casados de nove capitais – mapeou as expectativas e peculiaridades de comportamento dos brasileiros com idade entre 18 e 40 anos.

O perfil dominante entre os solteiros, homens e mulheres, é o de pessoas ousadas e empreendedoras (35% deles se declaram estimulados pelo perigo, contra 23% dos casados). Os solteiros também dão maior importância ao sucesso financeiro e profissional – a dedicação ao trabalho é a principal justificativa para não assumirem uma vida em comum com outra pessoa. Ainda na comparação com os casados, aqueles que vivem sós lêem mais por interesse estritamente pessoal, viajam com mais freqüência e passam mais tempo conectados à internet. Também são mais assíduos em teatros, restaurantes, bares e cinemas. Em outras palavras, os solteiros e descasados são os maiores responsáveis pelo agito da vida noturna e cultural das grandes cidades. "Enquanto o casado procura na família o alívio para o stress, quem vive sozinho aumenta o nível de satisfação pessoal encontrando amigos e desenvolvendo outros interesses", diz a psicóloga Marlise Bassani, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, especialista no estudo da influência do ambiente no comportamento humano. "Por isso, o solteiro precisa mais do que o casado de um ambiente urbano que propicie um leque diversificado de amizades e de atividades de lazer e cultura."


Roberto Setton
O empresário paulistano Caíto Maia, de 37 anos, dono de uma grife de óculos de sol, já foi casado e há mais de dez anos voltou a ser solteiro. Para ele, São Paulo é a cidade brasileira mais próxima do ideal para quem vive só, por causa da fartura de serviços 24 horas. Com uma rotina atribulada, muitas vezes ele precisa fazer compras no supermercado às 2 da madrugada. "Tenho planos de ter uma família, mas vivo tão bem sozinho que não tenho pressa para isso", diz ele

Depois de São Paulo, Brasília é a segunda melhor cidade para solteiros. A capital brasileira conta com a maior porcentagem de habitantes entre 20 e 40 anos que moram sozinhos – uma vantagem e tanto, convenhamos. Em Curitiba, a terceira colocada, é fácil encontrar gente bem informada e interessada em atividades culturais – características valorizadas pelos solteiros, de acordo com a pesquisa Ipsos. Há na capital paranaense boa oferta de empregos formais, e a relação entre o salário médio e o custo de vida de um não-compromissado é uma das melhores do país. Belo Horizonte, que ficou em quarto lugar, é uma cidade que não se destaca em nenhum dos critérios analisados, mas também não apresenta pontos fracos que possam rebaixar sua classificação. De qualquer forma, a capital mineira é bem servida de atividades culturais, bares, restaurantes e casas noturnas.

A promoter paulistana Angela Robledo, 24 anos, tem uma idéia bem clara de como deve ser uma cidade ideal para celibatários. "Ela precisa ser um lugar que nos permita ter auto-suficiência em questões domésticas e, ao mesmo tempo, nos dê os meios necessários para a realização de projetos e desejos individuais", diz. Há quatro anos, Angela criou na internet o site Solteiros por Opção, que diariamente recebe três dezenas de novos cadastros. No site, ela expõe o que apelidou de "filosofia do solteirismo". Trata-se, basicamente, de variações em torno de lemas como "eu mereço" e "faço o que quero na hora em que quero". Esse comportamento individualista combina bem com o anonimato proporcionado pelos grandes centros urbanos. A contrapartida é a solidão, a maior inimiga de quem é dono integral do próprio tempo (que é bem diferente da solidão conjugal, enfatize-se).

Roberto Setton
A paulistana Janaina Pereira, de 29 anos, passou quatro anos montando a casa onde moraria com o namorado, dez anos mais velho. Na última hora, preferiu continuar solteira porque ele tinha ciúme do seu trabalho. Supervisora de novos negócios de uma grande empresa, Janaina chega a viajar a trabalho três vezes por mês. Casar não está em seus planos. "Filhos só quando eu tiver uns 37 anos, e será na base da produção independente", diz ela


O melhor que uma cidade pode oferecer para combater a solidão e o tédio por ela proporcionados é a liberdade de escolha. Não se trata apenas da variedade de serviços e locais de lazer, mas também da existência de um contingente de pessoas animadas e disponíveis – ou seja, de outros solteiros. "Se você tem um bom círculo de amigos e se dispõe a aproveitar o que a cidade oferece, não há como sentir solidão", diz o mineiro Alexandre Mendes, 31 anos, administrador de empresas que vive há dois anos em Salvador. No aspecto sociabilidade, a capital da Bahia, a quinta colocada no ranking, é especialmente acolhedora para pessoas solteiras. Sua animação pode ser medida pelo elevado número de bares (Salvador tem o menor porcentual de jovens abstêmios entre as capitais brasileiras) e pela beleza de sua orla marítima, um espaço pelo qual não se paga nada. Esse clima descontraído é compartilhado pelo Rio de Janeiro, onde as pessoas são amistosas e a vida noturna tem ofertas para todos os gostos. A cidade não está mais bem colocada no ranking devido ao custo de vida, alto demais em relação aos salários. Por essa razão, os jovens cariocas estão entre os que mais demoram para sair da casa dos pais e começar uma vida autônoma.

As grandes cidades brasileiras estão se equipando para atender às necessidades específicas desse grupo crescente de pessoas. Em Brasília, de acordo com a Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Distrito Federal, edifícios comerciais inteiros, que viviam às moscas, estão sendo reformados para transformar as salas em apartamentos para um único morador. No Rio de Janeiro, estima-se que 10% dos novos empreendimentos sejam do tipo loft, os mais procurados por quem vive só. Nos supermercados das maiores cidades, é possível encontrar uma grande quantidade de alimentos vendidos em porções individuais. E uma infinidade de serviços – de empresas especializadas em arrumação de armários a lavanderias 24 horas – foi criada para quem mora sozinho. "Eu terceirizo todos os serviços domésticos: tomo café no escritório, janto em bares ou restaurantes e levo as roupas para lavar fora", diz o advogado Sérgio Matos, 24 anos, que vive em São Paulo.


Marcio Lima
O gerente de banco Alexandre Mendes, de 31 anos, mineiro que mora há dois anos em Salvador, acha que, mais do que qualquer outra pessoa, o solteiro não pode descuidar da aparência. "Afinal de contas, a concorrência no mercado da paquera é brava e Salvador não tem a mesma fartura de mulheres de Belo Horizonte", diz Alexandre. Para manter a forma, ele freqüenta academia, joga tênis, squash e corre na praia

Outro sinal dos tempos é a facilidade com que as pessoas que vivem sós atualmente fazem e mantêm amizades. "Os solteiros estão construindo redes de relacionamento cada vez maiores, que refletem seus diferentes interesses e atividades", diz Suzy Cortoni, diretora da Comsenso, agência de estudos do comportamento de São Paulo. É comum ter vários grupos de amigos – a turma do trabalho, do futebol, do curso de fotografia, da academia, os companheiros de bar e os remanescentes dos tempos de colégio. A internet é uma ferramenta poderosa para fazer amigos e reunir pessoas. Um convite para uma festa ou programa enviado por e-mail pode ter resposta de uma multidão. Um em cada três brasileiros que moram sozinhos acessa a internet pelo menos uma vez por semana, contra apenas 14% entre os casados.

O fato de as pessoas estarem se casando mais tarde tem várias explicações. Uma delas está relacionada ao aumento do tempo necessário para que elas completem sua educação e entrem no mercado de trabalho. Hoje ir à universidade é um pré-requisito para conseguir um bom emprego e, mesmo depois de formado, o profissional precisa de um tempo para se firmar na carreira e alcançar estabilidade financeira. "É natural que numa sociedade na qual as pessoas estão sendo mais bem educadas elas comecem a se casar mais tarde", diz a socióloga Elisabete Dória Bilac, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Essa é uma tendência mundial." Outra razão importante diz respeito ao espaço ocupado pelas mulheres no mercado de trabalho. "O casamento deixou de ser para elas a única proteção econômica", constata a historiadora americana Stephanie Coontz, autora de um livro sobre a história do casamento. "Isso permitiu que muitas delas se tornassem independentes financeiramente e optassem por morar sozinhas." De acordo com uma pesquisa divulgada pela Fundação Getulio Vargas, de São Paulo, as brasileiras que vivem sós têm uma renda 10% mais alta do que a média nacional. Os homens, por sua vez, estão mais preparados para fazer as tarefas domésticas, como passar uma camisa, preparar o jantar e decorar a casa. E, na hora do aperto, nada como o disque-pizza, o amigo de todas as horas de solteiras e solteiros que acham que é melhor ter uma marguerita com refrigerante à sua frente do que um chato – ou uma chata – na poltrona ao lado, até que a morte os separe.

 

AOS OLHOS DE SEUS MORADORES


Ana Araujo
Brasília: a população da capital é a mais satisfeita com sua cidade

Foi divulgado na semana passada o estudo "Condições de vida nas regiões metropolitanas e suas implicações econômicas", realizado por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas. O trabalho mede o grau de satisfação dos habitantes de onze capitais em relação a doze variáveis que refletem a qualidade de vida. A pesquisa aponta Brasília como o melhor local do país para viver, levando-se em conta a opinião dos moradores em relação a itens como renda familiar, qualidade dos serviços públicos de água, coleta de lixo e iluminação, problemas ambientais e violência. Avaliados os mesmos quesitos, o Rio de Janeiro figura como a quarta pior cidade brasileira em condições de vida. Belém, Recife e Fortaleza são as capitais com o menor grau de satisfação de suas populações.

O resultado mais surpreendente diz respeito à percepção dos moradores em relação à criminalidade. A população de São Paulo e a do Rio de Janeiro, capitais onde os índices de homicídios, assaltos e seqüestros são altíssimos, consideram satisfatório o nível de violência das duas cidades. Paulistanos e cariocas são muito mais otimistas do que os moradores de Belém, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Curitiba, que mostram os maiores graus de insatisfação em relação à criminalidade. "Esse resultado não é contraditório", diz o sociólogo Ignacio Cano, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). "A percepção da violência pelos moradores é maior nessas cidades, onde a criminalidade é menor do que no Rio e em São Paulo, porque nos últimos anos ela aumentou muito. A população ficou mais alerta e assustada. Já no caso de paulistanos e cariocas, é como se eles tivessem se acostumado com a violência e não se surpreendessem mais com ela", afirma Cano.

 

MULTIDÃO RUMO AO ALTAR

Foto Photodisc

Numa manhã de sábado, mais de 200 casais se aglomeram no salão de festas. As mulheres, de vestido branco, véu e grinalda. Os homens, de paletó e gravata. Após as bênçãos do padre e do pastor ao microfone, todos estão casados e começa a festança. Um conjunto toca música de churrascaria. Noivas choram de felicidade, o prefeito da cidade e a primeira-dama discursam, crianças correm em ziguezague e todos comem bolo e tomam guaraná. Os casamentos coletivos, como esse, realizado em Osasco, na Grande São Paulo, na semana passada, são patrocinados em geral pelas prefeituras – que fornecem registro e certidão de casamento –, em conjunto com as paróquias e os templos evangélicos. Tornaram-se tão freqüentes que já começam a alterar os dados demográficos do país.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde o início da década de 90 um número crescente de casais trocou a união convencional pela informal. Entre 1991 e 2000, o número de pessoas casadas no Brasil caiu 14,5%, enquanto o de uniões informais cresceu espantosos 56%. Entre 2000 e 2003, no entanto, a quantidade de casamentos de papel passado cresceu 3%, cifra que se mantém até hoje. O que houve? "Na verdade, o que aumentou não foi o número de casamentos de uma forma geral, mas a quantidade de casamentos coletivos", informa Claudio Dutra Crespo, gerente de estatísticas vitais do IBGE.


Lailson Santos
Cena de um casamento coletivo: tudo de graça, da certidão ao buquê

Apenas no estado de São Paulo, 3 600 casais participaram de casamentos comunitários nos últimos três anos. No Maranhão, foram 4 000 casais. Em Mato Grosso, 3 000. No Rio Grande do Sul, outros 1 000. Segundo o IBGE, em geral, quem opta pelos casamentos coletivos são pessoas que já vivem juntas, muitas vezes com filhos, e decidem oficializar a relação. As vantagens de um casamento desse tipo são óbvias – sai tudo de graça, desde o registro no cartório e a bênção religiosa até a festa e o buquê da noiva. Para os prefeitos, a cerimônia se transforma em palanque político privilegiado. Para as igrejas, em chamariz para os fiéis. "É uma forma de resgatar os valores familiares, que vêm perdendo força nos últimos anos", diz o pastor Luiz Resende da Cruz, diretor da Sociedade Beneficente Evangélica Assembléia de Deus, que já celebrou a união de centenas de casais em Mato Grosso.

Segundo análise do IBGE, as cerimônias coletivas devem continuar puxando para cima o número de casamentos realizados no Brasil. Na cerimônia comunitária de Osasco, na semana passada, era evidente que muitos casais, embora buscassem apenas uma certidão do cartório e uma bênção religiosa, aproveitavam para realizar o velho sonho romântico de subir ao altar e trocar alianças. "Moramos juntos há quase seis anos e já temos dois filhos", disse o comerciante paulista Anderson Ramos Silva, de 22 anos, que se casou com Andreza, de 21. "Mas era um sonho ver minha mulher vestida de noiva e por isso estamos aqui."

 


Fontes: IBGE, Universidade de São Paulo, Filme B, Centro Técnico de Artes Cênicas, Associação Brasileira de Restaurantes e Empresas de Entretenimento e sindicatos dos músicos estaduais
 
 
 
 
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