Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Medicina
Perda e angústia

A demora no processo de doação
desperdiça órgãos e prolonga o
sofrimento das famílias dos doadores


Giuliana Bergamo

 
Valter Monteiro
Arnaldo e Mirian, pais de Fabio (à dir.), e a irmã Isabella mobilizaram a cidade de Colatina, no Espírito Santo, para poder doar os órgãos do rapaz. Ele foi vítima de um acidente de automóvel no início do ano. Carros iluminaram a pista de onde partiu o avião que transportou seus órgãos


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Da morte à vida

EXCLUSIVO ON-LINE
Tabelas de doação de órgãos
Perda de órgãos

Cerca de 60.000 brasileiros estão hoje na fila dos transplantes. Muitos ainda conseguem levar uma vida relativamente normal, apesar da rotina de sofrimento físico – doses altíssimas de medicamentos, a dependência de equipamentos como máquinas de diálise e cilindros de oxigênio e a necessidade de cuidados médicos constantes. Para outros, a vida está por um fio. Neste ano serão atendidos pouco mais de 20% dos que estão na lista de espera. Ao contrário do que diz o senso comum, não é a falta de doadores o maior complicador dos transplantes no Brasil. "A estrutura deficiente é hoje o grande problema nessa área", diz o médico Wangles Soler, coordenador da Organização de Procura de Órgãos da Santa Casa, de São Paulo. Os pacientes à espera de um transplante podem morrer, principalmente, porque o sistema atual de captação e distribuição de órgãos é falho. As dificuldades começam com a subnotificação de mortes encefálicas às centrais de transplantes – e, nos casos em que a notificação ocorre, os empecilhos se sucedem numa cadeia que combina falta de recursos e atrasos exasperantes. Esse estado de coisas impõe aos parentes do morto o desgaste adicional de amargar horas ou mesmo dias até que seja concluída a doação – há histórias de famílias que tiveram de esperar cinco dias para realizar o enterro.

A retirada de órgãos só pode ser feita com o consentimento da família em pessoas com diagnóstico de morte encefálica. Quando isso ocorre, as funções vitais, como respiração e batimentos cardíacos, precisam ser mantidas por aparelhos, para que não seja interrompida a irrigação sanguínea dos tecidos que serão transplantados. Uma vez confirmada a morte encefálica de um paciente, e tomada a providência de manter o coração e os pulmões dele funcionando, o hospital em que ocorreu o falecimento deve notificar a Central de Captação de Órgãos (CNCDO). A partir daí, monta-se uma rede de troca de informações que pode levar à extração dos órgãos e à busca das pessoas que constam da lista única do estado do potencial doador. No caso brasileiro, é justamente na falta de notificação que tem início a série de falhas que culmina numa triste realidade: o desperdício de órgãos. Das mais de 10.000 mortes encefálicas registradas no ano passado no país, apenas a metade foi notificada. "Muitos hospitais não dispõem de pessoal especializado para esse tipo de trabalho, como um coordenador de transplantes na UTI, o que é lamentável", afirma o médico Valter Duro Garcia, coordenador de transplantes da Santa Casa de Porto Alegre. A partir do diagnóstico de morte encefálica, o máximo que se pode esperar para a retirada dos órgãos são 72 horas. Quando passa disso, há um risco grande de o paciente sofrer parada cardíaca, o que praticamente inviabiliza a doação – nesse caso, só podem ser aproveitados as córneas, a pele e os ossos.

Da decretação da morte do doador à cirurgia que poderá dar vida nova ao receptor, médicos e enfermeiros trabalham em ritmo de contagem regressiva. Um coração, por exemplo, só pode ser utilizado até seis horas depois da morte do doador. O ideal seria que, nesse caso, cada estado tivesse à disposição aviões ou helicópteros com essa finalidade. Mas a realidade é bem diferente. Dos dezoito estados que contam com um serviço de transplante de coração e pulmão, órgãos que dependem de uma ação mais rápida, apenas Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco dispõem de aeronaves especialmente destinadas a esse fim. Os outros dependem da benemerência de companhias aéreas privadas. Para que o sistema funcionasse próximo da perfeição, também seria preciso diminuir a burocracia. Para livrar os médicos de problemas legais, por exemplo, são necessários três exames para comprovar a morte encefálica: duas provas clínicas, realizadas com, no mínimo, seis horas de diferença e por dois médicos diferentes, e mais um exame gráfico – que pode ser um doppler transcraniano, uma cintilografia ou uma angiografia cerebral, entre outros. Na Espanha exigem-se apenas dois exames simultâneos e na Inglaterra, um. Resultado: com todos os entraves, formais ou não, da notificação até a devolução do corpo do doador à família, o processo leva em média trinta horas no Brasil. E essa é uma projeção bastante otimista, visto que não há levantamento rigoroso sobre o assunto.

A reportagem de VEJA acompanhou cada passo do processo de doação de órgãos da paulistana Roseli Prioste da Silva, de 46 anos. Ela faleceu no último dia 17, vítima de trombose, e só pôde ser sepultada quatro dias depois. A família doou seu fígado, seus rins e uma das córneas, numa novela que durou exatas 52 horas e cinqüenta minutos (veja quadro). Outra história de desgaste foi protagonizada pela família de Fabio Zago. Em janeiro deste ano, os parentes do rapaz, morto aos 18 anos, vítima de um acidente de carro no Espírito Santo, lutaram para conseguir doar seus órgãos. Lutar não é uma imagem. Dada a inabilidade do hospital em que ele fora internado, os próprios parentes acionaram as autoridades públicas. Como não havia luz no aeroporto da cidade de Colatina, eles mobilizaram a população para iluminar com seus carros a pista de onde decolaria o avião da Força Aérea Brasileira levando os órgãos. Pela sua idade e condição clínica, Fabio poderia ter a maioria de seus órgãos doados. Mas, depois de todas as dificuldades, uma boa parte deles foi descartada.

Quase quatro décadas se passaram desde a realização do primeiro transplante (de coração), na África do Sul. Com o avanço das técnicas e o aprimoramento de drogas contra a rejeição, hoje praticamente todos os órgãos do corpo são passíveis de substituição. Essa é uma das maiores conquistas da medicina. E o Brasil não faz feio. O país tem hoje o maior sistema público de transplantes do mundo e o esquema de filas é justo e organizado. As falhas, no entanto, precisam ser sanadas para que mais vidas sejam salvas e os familiares dos doadores não se angustiem tanto.

 

 
 
 
 
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