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Medicina Perda
e angústia A demora no processo
de doação desperdiça órgãos e prolonga
o sofrimento das famílias dos doadores  Giuliana
Bergamo
Valter
Monteiro
 |  | | Arnaldo
e Mirian, pais de Fabio (à dir.), e a irmã Isabella mobilizaram
a cidade de Colatina, no Espírito Santo, para poder doar os órgãos
do rapaz. Ele foi vítima de um acidente de automóvel no início
do ano. Carros iluminaram a pista de onde partiu o avião que transportou
seus órgãos |
Cerca de 60.000 brasileiros estão
hoje na fila dos transplantes. Muitos ainda conseguem levar uma vida relativamente
normal, apesar da rotina de sofrimento físico doses altíssimas
de medicamentos, a dependência de equipamentos como máquinas de diálise
e cilindros de oxigênio e a necessidade de cuidados médicos constantes.
Para outros, a vida está por um fio. Neste ano serão atendidos pouco
mais de 20% dos que estão na lista de espera. Ao contrário do que
diz o senso comum, não é a falta de doadores o maior complicador
dos transplantes no Brasil. "A estrutura deficiente é hoje o grande problema
nessa área", diz o médico Wangles Soler, coordenador da Organização
de Procura de Órgãos da Santa Casa, de São Paulo. Os pacientes
à espera de um transplante podem morrer, principalmente, porque o sistema
atual de captação e distribuição de órgãos
é falho. As dificuldades começam com a subnotificação
de mortes encefálicas às centrais de transplantes e, nos
casos em que a notificação ocorre, os empecilhos se sucedem numa
cadeia que combina falta de recursos e atrasos exasperantes. Esse estado de coisas
impõe aos parentes do morto o desgaste adicional de amargar horas ou mesmo
dias até que seja concluída a doação há
histórias de famílias que tiveram de esperar cinco dias para realizar
o enterro. A retirada de órgãos
só pode ser feita com o consentimento da família em pessoas com
diagnóstico de morte encefálica. Quando isso ocorre, as funções
vitais, como respiração e batimentos cardíacos, precisam
ser mantidas por aparelhos, para que não seja interrompida a irrigação
sanguínea dos tecidos que serão transplantados. Uma vez confirmada
a morte encefálica de um paciente, e tomada a providência de manter
o coração e os pulmões dele funcionando, o hospital em que
ocorreu o falecimento deve notificar a Central de Captação de Órgãos
(CNCDO). A partir daí, monta-se uma rede de troca de informações
que pode levar à extração dos órgãos e à
busca das pessoas que constam da lista única do estado do potencial doador.
No caso brasileiro, é justamente na falta de notificação
que tem início a série de falhas que culmina numa triste realidade:
o desperdício de órgãos. Das mais de 10.000 mortes encefálicas
registradas no ano passado no país, apenas a metade foi notificada. "Muitos
hospitais não dispõem de pessoal especializado para esse tipo de
trabalho, como um coordenador de transplantes na UTI, o que é lamentável",
afirma o médico Valter Duro Garcia, coordenador de transplantes da Santa
Casa de Porto Alegre. A partir do diagnóstico de morte encefálica,
o máximo que se pode esperar para a retirada dos órgãos são
72 horas. Quando passa disso, há um risco grande de o paciente sofrer parada
cardíaca, o que praticamente inviabiliza a doação
nesse caso, só podem ser aproveitados as córneas, a pele e os ossos.
Da decretação da morte
do doador à cirurgia que poderá dar vida nova ao receptor, médicos
e enfermeiros trabalham em ritmo de contagem regressiva. Um coração,
por exemplo, só pode ser utilizado até seis horas depois da morte
do doador. O ideal seria que, nesse caso, cada estado tivesse à disposição
aviões ou helicópteros com essa finalidade. Mas a realidade é
bem diferente. Dos dezoito estados que contam com um serviço de transplante
de coração e pulmão, órgãos que dependem de
uma ação mais rápida, apenas Rio Grande do Sul, Paraná,
São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco dispõem de aeronaves especialmente
destinadas a esse fim. Os outros dependem da benemerência de companhias
aéreas privadas. Para que o sistema funcionasse próximo da perfeição,
também seria preciso diminuir a burocracia. Para livrar os médicos
de problemas legais, por exemplo, são necessários três exames
para comprovar a morte encefálica: duas provas clínicas, realizadas
com, no mínimo, seis horas de diferença e por dois médicos
diferentes, e mais um exame gráfico que pode ser um doppler transcraniano,
uma cintilografia ou uma angiografia cerebral, entre outros. Na Espanha exigem-se
apenas dois exames simultâneos e na Inglaterra, um. Resultado: com todos
os entraves, formais ou não, da notificação até a
devolução do corpo do doador à família, o processo
leva em média trinta horas no Brasil. E essa é uma projeção
bastante otimista, visto que não há levantamento rigoroso sobre
o assunto. A reportagem de VEJA acompanhou
cada passo do processo de doação de órgãos da paulistana
Roseli Prioste da Silva, de 46 anos. Ela faleceu no último dia 17, vítima
de trombose, e só pôde ser sepultada quatro dias depois. A família
doou seu fígado, seus rins e uma das córneas, numa novela que durou
exatas 52 horas e cinqüenta minutos (veja
quadro). Outra história de desgaste foi protagonizada pela família
de Fabio Zago. Em janeiro deste ano, os parentes do rapaz, morto aos 18 anos,
vítima de um acidente de carro no Espírito Santo, lutaram para conseguir
doar seus órgãos. Lutar não é uma imagem. Dada a inabilidade
do hospital em que ele fora internado, os próprios parentes acionaram as
autoridades públicas. Como não havia luz no aeroporto da cidade
de Colatina, eles mobilizaram a população para iluminar com seus
carros a pista de onde decolaria o avião da Força Aérea Brasileira
levando os órgãos. Pela sua idade e condição clínica,
Fabio poderia ter a maioria de seus órgãos doados. Mas, depois de
todas as dificuldades, uma boa parte deles foi descartada.
Quase quatro décadas se passaram desde a realização do primeiro
transplante (de coração), na África do Sul. Com o avanço
das técnicas e o aprimoramento de drogas contra a rejeição,
hoje praticamente todos os órgãos do corpo são passíveis
de substituição. Essa é uma das maiores conquistas da medicina.
E o Brasil não faz feio. O país tem hoje o maior sistema público
de transplantes do mundo e o esquema de filas é justo e organizado. As
falhas, no entanto, precisam ser sanadas para que mais vidas sejam salvas e os
familiares dos doadores não se angustiem tanto. 
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