Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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A última do superciclista

Lance Armstrong se aposenta depois
de vencer o câncer e ser heptacampeão
da Volta da França


Roberta Salomone

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Estudo do fisiologista Edward Coyle

O ciclista americano Lance Armstrong é um colecionador de feitos quase impossíveis. Aos 25 anos, venceu um câncer que atingiu seus testículos, pulmão e cérebro. Três anos depois do diagnóstico e um após o fim do tratamento, foi pela primeira vez campeão da Volta da França, prova ciclística mais tradicional e importante do planeta. Na semana passada, aos 33 anos, venceu pela sétima vez consecutiva a competição, tornando-se absoluto num esporte amplamente dominado pelos europeus. E anunciou sua aposentadoria como um dos grandes ídolos esportivos do mundo. Na lista das maiores celebridades da revista Forbes, aparece à frente do piloto Michael Schumacher e do jogador de futebol David Beckham, ambos praticantes de esportes muito mais populares internacionalmente. Lance Armstrong's War ("A Guerra de Lance Armstrong"), livro lançado em junho, está entre os mais vendidos dos Estados Unidos. O ciclista ainda é lançador de moda. É de sua lavra a pulseirinha de borracha amarela usada para arrecadar recursos para a sua fundação de ajuda a pacientes com câncer, que inspirou inúmeras outras campanhas politicamente corretas.

A façanha de Armstrong é recorrentemente atribuída ao uso de doping. Já se insinuou, inclusive, que seu câncer foi conseqüência da utilização excessiva dessas substâncias. No ano passado, o livro L.A. Confidential mostrou depoimentos de uma enfermeira que trabalhou na equipe do ciclista. Ela afirma que, durante a preparação para a Volta da França de 1999, ele teria usado EPO, uma droga conhecida por aumentar o desempenho dos atletas. As suspeitas recrudesceram quando o italiano Michele Ferrari, então médico de Armstrong, foi condenado por prescrever substâncias proibidas a competidores. Como nunca se comprovou nada, fica reforçada a hipótese de que o ciclista é, também, um fenômeno da natureza. É essa a tese do fisiologista Edward Coyle, da Universidade do Texas, que por sete anos acompanhou o ciclista em seu Laboratório de Performance Humana. Ele chegou à conclusão de que Armstrong – a quem chama de "monstro genético" – tem características diferentes da maior parte dos seres humanos (ver quadro). O fôlego, a força e a resistência de Armstrong estão acima dos exibidos pela maioria dos atletas. Munido de estudos e estatísticas, o fisiologista estima que não mais do que vinte pessoas no mundo têm força muscular semelhante à sua. "Além da técnica perfeita e do preparo físico, ele tem vantagens biológicas em relação aos seus concorrentes", disse Coyle a VEJA.

O feito de Armstrong na Volta da França, que o consagrou como o maior ciclista de todos os tempos, é ainda maior quando comparado, por exemplo, ao heptacampeonato de Michael Schumacher na Fórmula 1. Embora a perícia do piloto seja, obviamente, fundamental, boa parte do seu desempenho depende do carro. No ciclismo, preparo físico e talento são os fatores determinantes. E o esporte é, também, surpreendentemente perigoso. No rol das atividades esportivas, aparece abaixo apenas de vôo livre e alpinismo em número de mortes por praticante. Supera o motociclismo e o automobilismo.

Especificamente na Volta da França, prova de 21 etapas na qual os participantes pedalam durante três semanas e rodam quase 4.000 quilômetros, esforço e risco têm suas compensações. Dependendo do trecho, os atletas rodam até seis horas por dia, mas dormem nos melhores hotéis dos lugares por onde passam e todos são acompanhados por uma equipe que inclui médicos e nutricionistas – Armstrong, inclusive, tem um chef só para ele. Mas o ciclista não quer mais saber de desafios. Vai gastar parte dos 20 milhões de dólares que ganhou graças a sua última vitória e ficar mais tempo ao lado dos três filhos (Luke e as gêmeas Grace e Isabelle) e da namorada, a cantora Sheryl Crow, que desde o início do namoro acompanhou cada etapa da competição. De carro, claro.

 
Divulgação/Discovery Channel/Pro Cycling Team
Armstrong: sucesso também nos negócios, com a pulseira politicamente correta que virou febre mundial

RAPIDEZ
Em provas de quatro a seis horas, ele atinge uma velocidade máxima quase 50% superior àquela dos outros ciclistas

FORÇA
Estudos indicam que não mais do que vinte pessoas no mundo exibem uma potência muscular semelhante à sua em vinte minutos de pedalada

RESISTÊNCIA
Suas taxas de ácido lático (substância que produz dores musculares e cãibras durante exercícios vigorosos) no sangue são baixíssimas –metade das da maioria dos atletas

FÔLEGO
A capacidade de seus pulmões é 30% superior à de outros ciclistas

Fontes: Edward Coyle (Universidade do Texas) e Turibio Leite de Barros Neto (Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte da Unifesp)

 
 
 
 
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