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Perfil A
última do superciclista Lance
Armstrong se aposenta depois de vencer o câncer e ser heptacampeão
da Volta da França  Roberta
Salomone
O ciclista americano Lance Armstrong
é um colecionador de feitos quase impossíveis. Aos 25 anos, venceu
um câncer que atingiu seus testículos, pulmão e cérebro.
Três anos depois do diagnóstico e um após o fim do tratamento,
foi pela primeira vez campeão da Volta da França, prova ciclística
mais tradicional e importante do planeta. Na semana passada, aos 33 anos, venceu
pela sétima vez consecutiva a competição, tornando-se absoluto
num esporte amplamente dominado pelos europeus. E anunciou sua aposentadoria como
um dos grandes ídolos esportivos do mundo. Na lista das maiores celebridades
da revista Forbes, aparece à frente do piloto Michael Schumacher
e do jogador de futebol David Beckham, ambos praticantes de esportes muito mais
populares internacionalmente. Lance Armstrong's War ("A Guerra de Lance
Armstrong"), livro lançado em junho, está entre os mais vendidos
dos Estados Unidos. O ciclista ainda é lançador de moda. É
de sua lavra a pulseirinha de borracha amarela usada para arrecadar recursos para
a sua fundação de ajuda a pacientes com câncer, que inspirou
inúmeras outras campanhas politicamente corretas.
A façanha de Armstrong é recorrentemente atribuída ao uso
de doping. Já se insinuou, inclusive, que seu câncer foi conseqüência
da utilização excessiva dessas substâncias. No ano passado,
o livro L.A. Confidential mostrou depoimentos de uma enfermeira que trabalhou
na equipe do ciclista. Ela afirma que, durante a preparação para
a Volta da França de 1999, ele teria usado EPO, uma droga conhecida por
aumentar o desempenho dos atletas. As suspeitas recrudesceram quando o italiano
Michele Ferrari, então médico de Armstrong, foi condenado por prescrever
substâncias proibidas a competidores. Como nunca se comprovou nada, fica
reforçada a hipótese de que o ciclista é, também,
um fenômeno da natureza. É essa a tese do fisiologista Edward Coyle,
da Universidade do Texas, que por sete anos acompanhou o ciclista em seu Laboratório
de Performance Humana. Ele chegou à conclusão de que Armstrong
a quem chama de "monstro genético" tem características diferentes
da maior parte dos seres humanos (ver quadro). O
fôlego, a força e a resistência de Armstrong estão acima
dos exibidos pela maioria dos atletas. Munido de estudos e estatísticas,
o fisiologista estima que não mais do que vinte pessoas no mundo têm
força muscular semelhante à sua. "Além da técnica
perfeita e do preparo físico, ele tem vantagens biológicas em relação
aos seus concorrentes", disse Coyle a VEJA.
O feito de Armstrong na Volta da França, que o consagrou como o maior ciclista
de todos os tempos, é ainda maior quando comparado, por exemplo, ao heptacampeonato
de Michael Schumacher na Fórmula 1. Embora a perícia do piloto seja,
obviamente, fundamental, boa parte do seu desempenho depende do carro. No ciclismo,
preparo físico e talento são os fatores determinantes. E o esporte
é, também, surpreendentemente perigoso. No rol das atividades esportivas,
aparece abaixo apenas de vôo livre e alpinismo em número de mortes
por praticante. Supera o motociclismo e o automobilismo.
Especificamente na Volta da França, prova de 21 etapas na qual os participantes
pedalam durante três semanas e rodam quase 4.000 quilômetros, esforço
e risco têm suas compensações. Dependendo do trecho, os atletas
rodam até seis horas por dia, mas dormem nos melhores hotéis dos
lugares por onde passam e todos são acompanhados por uma equipe que inclui
médicos e nutricionistas Armstrong, inclusive, tem um chef só
para ele. Mas o ciclista não quer mais saber de desafios. Vai gastar parte
dos 20 milhões de dólares que ganhou graças a sua última
vitória e ficar mais tempo ao lado dos três filhos (Luke e as gêmeas
Grace e Isabelle) e da namorada, a cantora Sheryl Crow, que desde o início
do namoro acompanhou cada etapa da competição. De carro, claro.
Divulgação/Discovery
Channel/Pro Cycling Team
 | | Armstrong:
sucesso também nos negócios, com a pulseira politicamente correta que virou febre
mundial |
RAPIDEZ
Em provas de quatro a seis horas, ele atinge uma velocidade máxima quase
50% superior àquela dos outros ciclistas FORÇA Estudos
indicam que não mais do que vinte pessoas no mundo exibem uma potência
muscular semelhante à sua em vinte minutos de pedalada
RESISTÊNCIA Suas taxas de ácido lático
(substância que produz dores musculares e cãibras durante exercícios
vigorosos) no sangue são baixíssimas metade das da maioria
dos atletas FÔLEGO
A capacidade de seus pulmões é 30% superior à de outros ciclistas
Fontes: Edward Coyle (Universidade
do Texas) e Turibio Leite de Barros Neto (Centro de Medicina da Atividade Física
e do Esporte da Unifesp) | | |