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Divertimento
Idade não é documento
Videogame é, sim, coisa de criança.
Mas, agora adulta, a geração que
cresceu com ele vem tendo uma recaída

Laura Ming
Fotos Lailson Santos
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os
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| Noite boa é noite de game: Martins
levou o laptop para o Havaí; Renata aprendeu a "jogar" futebol
para acompanhar o namorado, Ruggi |
Aviso aos pais que se preocupam porque o filho
não larga o videogame, mas se conformam achando que é
só uma fase: não é. Cada vez mais, marmanjos
de 20 e tantos, 30 anos, que há tempos desmamaram do console,
estão voltando à atividade com gosto, dinheiro próprio
para investir nos joguinhos e nada de papai ou mamãe por
perto para reclamar. Os temas continuam os mesmos de sempre
luta, esportes e jogos de estratégia , e os rapazes
ainda jogam muitíssimo mais do que as garotas. Adultos que
são, procuram argumentos racionais para justificar o vício.
"Eu melhorei o meu inglês", garante o publicitário
Daniel Garcia, 29 anos, que se acostumou a jogar com um dicionário
a seu lado para entender as legendas. "Há jogos que exigem
muito raciocínio, como o xadrez", emenda Garcia, que joga
desde os 7 anos, não passa um dia longe do videogame e já
chegou a ficar 24 horas seguidas em atividade.
O empresário Robson Strob, 33 anos,
tem história diferente: é reincidente depois de longa
abstinência. Distante dos joguinhos durante quinze anos, sofreu
recaída total quando ganhou da mulher, Aline, um PlayStation
de presente de aniversário. Agora, desconta o tempo perdido.
"Levo no porta-malas do carro, para poder jogar aonde for", conta.
Strob incentivou os dois cunhados a comprar um console também
e, juntos, promovem campeonatos caseiros de Winning Eleven,
um jogo de futebol ao qual se grudam até seis horas seguidas
nos fins de semana. "Eu levo minha própria televisão.
Assim ninguém tem de esperar muito para jogar", diz. Como
ele, uma legião de trintões aprecia o desafio. "Winning
Eleven não é um jogo de apertar botões.
O que conta é a estratégia", explica Wilson Cheng,
gerente de marketing da Konami, que fabrica jogos "mais complicados",
voltados especialmente para ex-garotões já em idade
para ser pais. "Trata-se de uma geração que cresceu
jogando. É natural que ainda goste do passatempo", avalia
Cheng. Disputas futebolísticas são, disparado, a competição
predileta. Existe uma Federação Paulista de Futebol
Virtual (e outra em Sergipe, mais uma no Paraná e uma quarta
em Goiás) que, além de organizar campeonatos, busca
o reconhecimento do "esporte". "No exterior há pessoas que
são patrocinadas para jogar", explica o bancário Fabio
Silva, 27, presidente da federação paulista, que conta
com 1.600 jogadores cadastrados, 30% deles com idade em torno de
30 anos.
Lailson Santos
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| Strob, que retornou à brincadeira após
quinze anos: console sempre no porta-malas do carro, "para
jogar aonde for" |
A presença de mulheres ainda é
rara, mas a advogada Renata Massa, 24 anos, resolveu aderir quando
percebeu que o namorado, o publicitário Daniel Ruggi, 29,
não largava o videogame. "Ele deixava de sair para jogar.
Aí, resolvi aprender também", explica. A tática
funcionou: o namoro se mantém firme há três
anos. Ruggi, que joga cerca de quatro horas todos os dias, obviamente
aplaude a conversão: "Minha namorada antiga reclamava que
eu era velho para jogar. Acho ótimo que a Renata me acompanhe".
Também adepta do Winning Eleven, ela pratica sozinha
em casa para não fazer feio nas rodadas de fim de semana
com amigos. "Não sou café-com-leite", gaba-se, orgulhosa
do calo que desenvolveu no polegar. Nos Estados Unidos, a segunda
maior fatia de mercado 25% do PlayStation, o console
da Sony que domina esse setor, está na faixa dos 25 aos 34
anos. A primeira não fica muito atrás: 28% são
jovens de 18 a 24 anos. "Para eles fazemos jogos que exigem raciocínio
lógico e pensamento estratégico, do tipo que um garoto
de 15 anos acha avançado demais", diz Woodrow Mosqueda, porta-voz
da PlayStation americana. Há marmanjos adeptos dos games
que juntam passatempo e trabalho na mesma ferramenta, o computador.
O advogado paulista Rogério Gandra Martins, 36, tem mais
de 100 desses joguinhos em casa, todos originais, na faixa dos 100
reais cada um (algo incomum, uma vez que o pirata sai por 15). Além
disso, gasta cerca de 9.000 reais por ano para turbinar o computador,
visto que os jogos exigem cada vez mais memória, placas de
vídeo sofisticadas e internet rápida. "Durante a semana
me controlo para não passar de 1 da manhã, mas nos
fins de semana é comum eu virar a noite jogando", diz Martins.
Autocontrole tem limites: nas últimas férias com a
mulher, no Havaí, Martins não resistiu e pôs
na bagagem o laptop e um pacote de joguinhos.
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