Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Divertimento
Idade não é documento

Videogame é, sim, coisa de criança.
Mas, agora adulta, a geração que
cresceu com ele vem tendo uma recaída


Laura Ming


Fotos Lailson Santos
os
Noite boa é noite de game: Martins levou o laptop para o Havaí; Renata aprendeu a "jogar" futebol para acompanhar o namorado, Ruggi

Aviso aos pais que se preocupam porque o filho não larga o videogame, mas se conformam achando que é só uma fase: não é. Cada vez mais, marmanjos de 20 e tantos, 30 anos, que há tempos desmamaram do console, estão voltando à atividade com gosto, dinheiro próprio para investir nos joguinhos e nada de papai ou mamãe por perto para reclamar. Os temas continuam os mesmos de sempre – luta, esportes e jogos de estratégia –, e os rapazes ainda jogam muitíssimo mais do que as garotas. Adultos que são, procuram argumentos racionais para justificar o vício. "Eu melhorei o meu inglês", garante o publicitário Daniel Garcia, 29 anos, que se acostumou a jogar com um dicionário a seu lado para entender as legendas. "Há jogos que exigem muito raciocínio, como o xadrez", emenda Garcia, que joga desde os 7 anos, não passa um dia longe do videogame e já chegou a ficar 24 horas seguidas em atividade.

O empresário Robson Strob, 33 anos, tem história diferente: é reincidente depois de longa abstinência. Distante dos joguinhos durante quinze anos, sofreu recaída total quando ganhou da mulher, Aline, um PlayStation de presente de aniversário. Agora, desconta o tempo perdido. "Levo no porta-malas do carro, para poder jogar aonde for", conta. Strob incentivou os dois cunhados a comprar um console também e, juntos, promovem campeonatos caseiros de Winning Eleven, um jogo de futebol ao qual se grudam até seis horas seguidas nos fins de semana. "Eu levo minha própria televisão. Assim ninguém tem de esperar muito para jogar", diz. Como ele, uma legião de trintões aprecia o desafio. "Winning Eleven não é um jogo de apertar botões. O que conta é a estratégia", explica Wilson Cheng, gerente de marketing da Konami, que fabrica jogos "mais complicados", voltados especialmente para ex-garotões já em idade para ser pais. "Trata-se de uma geração que cresceu jogando. É natural que ainda goste do passatempo", avalia Cheng. Disputas futebolísticas são, disparado, a competição predileta. Existe uma Federação Paulista de Futebol Virtual (e outra em Sergipe, mais uma no Paraná e uma quarta em Goiás) que, além de organizar campeonatos, busca o reconhecimento do "esporte". "No exterior há pessoas que são patrocinadas para jogar", explica o bancário Fabio Silva, 27, presidente da federação paulista, que conta com 1.600 jogadores cadastrados, 30% deles com idade em torno de 30 anos.


Lailson Santos
Strob, que retornou à brincadeira após quinze anos: console sempre no porta-malas do carro, "para jogar aonde for"

A presença de mulheres ainda é rara, mas a advogada Renata Massa, 24 anos, resolveu aderir quando percebeu que o namorado, o publicitário Daniel Ruggi, 29, não largava o videogame. "Ele deixava de sair para jogar. Aí, resolvi aprender também", explica. A tática funcionou: o namoro se mantém firme há três anos. Ruggi, que joga cerca de quatro horas todos os dias, obviamente aplaude a conversão: "Minha namorada antiga reclamava que eu era velho para jogar. Acho ótimo que a Renata me acompanhe". Também adepta do Winning Eleven, ela pratica sozinha em casa para não fazer feio nas rodadas de fim de semana com amigos. "Não sou café-com-leite", gaba-se, orgulhosa do calo que desenvolveu no polegar. Nos Estados Unidos, a segunda maior fatia de mercado – 25% – do PlayStation, o console da Sony que domina esse setor, está na faixa dos 25 aos 34 anos. A primeira não fica muito atrás: 28% são jovens de 18 a 24 anos. "Para eles fazemos jogos que exigem raciocínio lógico e pensamento estratégico, do tipo que um garoto de 15 anos acha avançado demais", diz Woodrow Mosqueda, porta-voz da PlayStation americana. Há marmanjos adeptos dos games que juntam passatempo e trabalho na mesma ferramenta, o computador. O advogado paulista Rogério Gandra Martins, 36, tem mais de 100 desses joguinhos em casa, todos originais, na faixa dos 100 reais cada um (algo incomum, uma vez que o pirata sai por 15). Além disso, gasta cerca de 9.000 reais por ano para turbinar o computador, visto que os jogos exigem cada vez mais memória, placas de vídeo sofisticadas e internet rápida. "Durante a semana me controlo para não passar de 1 da manhã, mas nos fins de semana é comum eu virar a noite jogando", diz Martins. Autocontrole tem limites: nas últimas férias com a mulher, no Havaí, Martins não resistiu e pôs na bagagem o laptop e um pacote de joguinhos.

 
 
 
 
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