Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Moda
Onde está a roupa?

Em geral, bem disfarçada no meio
dos cenários fantásticos dos editoriais



Angelina Jolie e Brad Pitt, com os "filhinhos" (acima, à esq.), posam de família feliz na W e, na Vogue, um show de plásticas, ataduras e cicatrizes: situações da "vida real" para mostrar figurinos de grife

Numa foto, a modelo se contorce (falsamente) de dor ao ter as pálpebras costuradas; outra enfrenta a mesa de lipoaspiração, com sangue (falso) e tudo. As roupas? Bem, quem olhar atentamente verá que, sim, em meio à parafernália hospitalar, aparecem vestidos, casacos e outros elementos costumeiros nesse tipo de foto. Num momento em que a alta moda anda comportada, sem grandes arroubos que comprometam a lenta recuperação comercial, nas publicações especializadas de vanguarda, ao contrário, a criatividade anda a toda. Inventar novidade em editoriais de moda – como são chamados os conjuntos de fotos usados para apresentar os últimos lançamentos – é praticamente uma obrigação das revistas do ramo, para atiçar o público e não cair na monotonia. Quem não está acostumado estranha os cenários bizarros, as poses esotéricas, as roupas combinadas de maneira que ninguém jamais usa na vida real. Desbravar novos territórios faz parte do negócio e, nessa busca, o fotógrafo americano Steven Meisel, 51 anos e um catálogo recheado de trabalhos polêmicos, encontrou recentemente um novo nicho: as fotos que imitam a vida real em momentos propositadamente não glamourosos. O resultado pode ser engraçado, instigante ou até assustador, dependendo do grau de flexibilidade do leitor. Mas uma coisa é certa: nunca fotos de moda foram tão comentadas.

Abrigado na Vogue Italia, na qual assina trabalhos há vinte anos, Meisel apresentou em janeiro setenta páginas de fotos inspiradas nos flagrantes dos paparazzi de celebridades de Hollywood. Na edição de julho, mais barulho ainda: 65 páginas mostram, dentro de um "hospital", modelos sendo submetidas ao pré, ao pós e ao momento em si de cirurgias plásticas simuladas e outros procedimentos estéticos. "Editoriais de moda são feitos em função de anunciantes, que são sempre os mesmos nas revistas mais conhecidas. Por isso, correm o risco de ficar muito parecidos. Quem inova ganha credibilidade", diz o diretor de arte carioca Giovanni Bianco, que contabiliza trabalhos na própria Vogue Italia e em outras publicações do gênero.

Caroline com o próprio celular em "Hollywood": palpites nas fotos

Imitar a vida real dá um trabalho danado. O editorial "Hollywood style" foi fotografado em um estúdio de Los Angeles que reproduzia uma rua da cidade, com modelos e gente comum (inclusive uma grávida de verdade) imitando famosos em situações cotidianas: indo ao supermercado, passeando com o cachorro ou até colocando o lixo na rua. Incentivou-se um clima de descontração. "As fotos eram todas bem rápidas. Tudo foi feito em dois dias. Em algumas eu apareço com o meu próprio celular. E todo mundo dava palpite", conta a modelo brasileira Caroline Trentini, uma graça, de calcinha de biquíni aparecendo abusadamente sob a bermuda.

Mais difícil de convencer, apesar do impacto, foi o trabalho do fotógrafo Steven Klein para a revista W retratando um casal ao estilo anos 60, com cinco filhinhos loirinhos numa casa de subúrbio americano. Modelos: o casal da vida real mais comentado atualmente no planeta, Brad Pitt e Angelina Jolie. "Não quero fabricar uma vida de sonho, com Barbies que não existem mais", teoriza Klein, como se ídolos do cinema fossem gente normal. "Procuramos fotógrafos com capacidade de provocar", explica Nandini D'Souze, editora de moda da W. "Mas os temas seguem a tendência da estação. Não fazemos nada muito louco", diz. E as roupas? Descrições, grifes, lojas e outras informações estão lá – embora pouca gente vá se preocupar com esses detalhes quando Brad e Angelina, belos como deuses, brincam de família feliz.

 
 
 
 
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