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Showbiz Políticos,
nunca mais Decepcionado com a lama do
governo do PT, Zezé di Camargo diz que não dará mais
apoio a ninguém  Sérgio
Martins
Antonio
Milena  | Zezé,
em sua fazenda em Goiás: desencanto com a política e ambição
de grandeza | |
O
cantor sertanejo Zezé di Camargo tomou uma decisão: nunca mais fará
shows para políticos. Em 2002, ele abraçou a campanha do então
candidato Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência. Zezé
não só cantava como também tecia loas ao caráter de
Lula. A avalanche de lama que atingiu o governo do PT provocou um recuo tático
do militante sertanejo. Numa entrevista a VEJA realizada na semana passada, em
sua fazenda no interior de Goiás, ele afirma que ainda não perdeu
a confiança no presidente, mas não esconde o desencanto em relação
à política (veja quadro). "Às
vezes me pergunto se não fomos usados", diz. No momento, Zezé quer
distância do barulho em Brasília. Está mais interessado em
outro tipo de politicagem a do meio artístico. Em catorze anos de
carreira, a dupla formada por ele e pelo irmão Luciano vendeu mais de 22
milhões de discos. Mas Zezé sonha com algo mais: o aval dos formadores
de opinião e medalhões da MPB. Sua tacada mais ambiciosa é
no cinema. No dia 19, estréia 2 Filhos de Francisco, biografia de
sua família para as telas. Orçada em 6,3 milhões de reais,
a fita é um dos lançamentos brasileiros mais importantes do ano.
Com atores como Lima Duarte no elenco, conta as origens da dupla e irá
estrear em 250 salas. A trilha sonora espelha seu plano de conquista de prestígio:
traz artistas incensados como Maria Bethânia, Nando Reis, Ney Matogrosso
e Caetano Veloso. Esse último, que nunca escondeu a simpatia pelo sertanejo,
prometeu musicar duas letras dele.
Para estabelecer-se como um coronel da música sertaneja, Zezé sempre
foi pragmático. Sua relação com a política é
um emblema disso. Um artista pode envolver-se numa campanha apenas profissionalmente
ou seja, só por dinheiro, sem ter compromisso com a causa do candidato.
Faz sua apresentação e vai embora antes do início do comício.
Outros fazem a linha engajada: além de tocar, dão apoio público
ao candidato. Por anos, Zezé alinhou-se à primeira categoria. Nos
contratos de shows, incluía até uma cláusula que proibia
os candidatos de abraçá-lo no meio da apresentação.
"Teve uma vez que o Paulo Maluf correu para me agarrar e fugi dele", diz. Só
nas eleições de 2002 ele quebrou essa regra, ainda que de maneira
um tanto ambígua. Zezé ajudou candidatos de campos ideológicos
opostos. Apoiou Lula para presidente e o ruralista Ronaldo Caiado para deputado
federal afinal, Zezé também é fazendeiro. A aproximação
com o PT rendeu dores de cabeça. No ano passado, veio à tona que
o Banco do Brasil havia gastado 73.000 reais em ingressos para um show da dupla,
cujo objetivo era levantar fundos para o partido. "Nosso dinheiro veio do cachê,
não da venda de ingressos. Não tivemos nada a ver com essa bagunça",
diz o cantor, nem um pouco satisfeito em ver o nome da dupla envolvido nessa intriga.
Se esse cachê foi pago, outros estão pendentes. Estima-se que o PT
deva 7 milhões de reais por showmícios realizados no ano passado
por artistas como Leonardo, KLB e Wanessa Camargo, filha de Zezé. Com a
dupla sertaneja, o papagaio é de 350.000 reais.
Na política miúda do cotidiano, Zezé é um populista
rematado. Apesar da fama e da fortuna, o sertanejo, de 42 anos, faz o estilo simples
e boa-praça. Quando não está em turnê, sua diversão
é descansar na fazenda É o Amor sim, o nome é uma
alusão a seu maior hit , na cidade goiana de Araguapaz. No
terreno de 1.550 hectares, dotado de casa com 22 quartos para a família
e os hóspedes e de um belo lago artificial, Zezé cria gado para
abate e reprodução. Para manter em dia as relações
com a comunidade local, ele promove festanças periódicas abertas
aos populares, com campo de futebol e churrasco por conta da casa. Nos últimos
tempos, Zezé teve de se desdobrar na costura política mas
para lidar com um cisma familiar. Sua mãe, Helena, não se conforma
com o fato de o filme sobre a dupla levar apenas o nome do marido, Francisco.
"Ela ficou chateada porque nos deu à luz e nos criou e só meu pai
levou a fama", diz Zezé.
MILITANTE PRAGMÁTICO
A seguir, a entrevista do cantor sertanejo
Zezé di Camargo concedida a VEJA na semana passada. Roberto
Castro/AE  | Zezé,
em comício de Lula: "Acho que ele até sabia" |
O
SENHOR FOI UM DOS ARTISTAS QUE MAIS SE EMPENHARAM NA ELEIÇÃO DO
PRESIDENTE LULA. ESTÁ ARREPENDIDO? Não, ainda acredito no
projeto do Lula. Mas decidi parar com shows políticos. Não faço
nem que ofereçam dez vezes mais do que costumo receber. Porque você
apóia um candidato e depois fica na dúvida se ele fará um
bom governo. O PRESIDENTE SABIA
DO ESQUEMA DO MENSALÃO? Acho que ele até sabia, mas não
se deu conta da gravidade do problema. Ele delegou poderes demais para uma pessoa
que era da confiança dele, o Zé Dirceu. O senador Arthur Virgílio
disse que o Lula ou era corrupto ou era idiota. Eu acho que ele foi ingênuo.
O SENHOR ACHA CORRETO O BANCO DO
BRASIL TER GASTADO 73 000 REAIS EM INGRESSOS DE UM SHOW DE SUA DUPLA PARA LEVANTAR
FUNDOS PARA O PT? Eu e o Luciano fomos contratados por uma churrascaria
para cantar num evento. Cobramos cachê, não tivemos nada a ver com
a venda de ingressos para a festa. Tenho todas as notas fiscais. Só depois
fiquei sabendo dessa história de dinheiro do Banco do Brasil. Eu não
quero dinheiro do governo. Nem uma telha da minha casa foi comprada com financiamento
público. O mesmo vale para o meu filme. Não usamos um centavo de
lei de incentivo. Não dá. O povão acha que a Lei Rouanet
é um órgão lá em Brasília para arrancar dinheiro
dos cofres públicos. QUAL
SUA OPINIÃO SOBRE OS SEM-TERRA? Já tive problemas com eles.
Pararam na porta da minha fazenda e só foram embora depois que lhes dei
dinheiro. O MST tem uma ideologia avacalhada. Recruta gente que nunca plantou
para invadir terra. Depois, eles fazem barganha e vão para outra fazenda.
Pessoas que trabalham comigo compraram lotes dos sem-terra. SEU
IRMÃO, WELINGTON, É DEPUTADO ESTADUAL POR GOIÁS. O SENHOR
AJUDOU NA CAMPANHA? Gastei 90.000 reais. Quando ele se candidatou, eu
disse que não iria ajudar, porque não queria que ele mexesse com
política. Faltando um mês para a eleição, um amigo
me advertiu que o Welington ia perder e o povo poderia falar que não tínhamos
força nem para elegê-lo. Então fizemos uns shows para ele.
O Welington pode ser um zero à esquerda em política, mas tem consciência.
Sua luta é pelos deficientes físicos. É
VERDADE QUE O PT TEM DÍVIDAS COM O SENHOR? Eles me devem 350.000
reais por apresentações em campanhas. Mas vou esperar a poeira baixar
para fazer a cobrança. Agora não é o momento. |
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