Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Políticos, nunca mais

Decepcionado com a lama do governo
do PT, Zezé di Camargo diz que não
dará mais apoio a ninguém


Sérgio Martins

Antonio Milena

Zezé, em sua fazenda em Goiás: desencanto com a política e ambição de grandeza

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O cantor sertanejo Zezé di Camargo tomou uma decisão: nunca mais fará shows para políticos. Em 2002, ele abraçou a campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência. Zezé não só cantava como também tecia loas ao caráter de Lula. A avalanche de lama que atingiu o governo do PT provocou um recuo tático do militante sertanejo. Numa entrevista a VEJA realizada na semana passada, em sua fazenda no interior de Goiás, ele afirma que ainda não perdeu a confiança no presidente, mas não esconde o desencanto em relação à política (veja quadro). "Às vezes me pergunto se não fomos usados", diz. No momento, Zezé quer distância do barulho em Brasília. Está mais interessado em outro tipo de politicagem – a do meio artístico. Em catorze anos de carreira, a dupla formada por ele e pelo irmão Luciano vendeu mais de 22 milhões de discos. Mas Zezé sonha com algo mais: o aval dos formadores de opinião e medalhões da MPB. Sua tacada mais ambiciosa é no cinema. No dia 19, estréia 2 Filhos de Francisco, biografia de sua família para as telas. Orçada em 6,3 milhões de reais, a fita é um dos lançamentos brasileiros mais importantes do ano. Com atores como Lima Duarte no elenco, conta as origens da dupla e irá estrear em 250 salas. A trilha sonora espelha seu plano de conquista de prestígio: traz artistas incensados como Maria Bethânia, Nando Reis, Ney Matogrosso e Caetano Veloso. Esse último, que nunca escondeu a simpatia pelo sertanejo, prometeu musicar duas letras dele.

Para estabelecer-se como um coronel da música sertaneja, Zezé sempre foi pragmático. Sua relação com a política é um emblema disso. Um artista pode envolver-se numa campanha apenas profissionalmente – ou seja, só por dinheiro, sem ter compromisso com a causa do candidato. Faz sua apresentação e vai embora antes do início do comício. Outros fazem a linha engajada: além de tocar, dão apoio público ao candidato. Por anos, Zezé alinhou-se à primeira categoria. Nos contratos de shows, incluía até uma cláusula que proibia os candidatos de abraçá-lo no meio da apresentação. "Teve uma vez que o Paulo Maluf correu para me agarrar e fugi dele", diz. Só nas eleições de 2002 ele quebrou essa regra, ainda que de maneira um tanto ambígua. Zezé ajudou candidatos de campos ideológicos opostos. Apoiou Lula para presidente e o ruralista Ronaldo Caiado para deputado federal – afinal, Zezé também é fazendeiro. A aproximação com o PT rendeu dores de cabeça. No ano passado, veio à tona que o Banco do Brasil havia gastado 73.000 reais em ingressos para um show da dupla, cujo objetivo era levantar fundos para o partido. "Nosso dinheiro veio do cachê, não da venda de ingressos. Não tivemos nada a ver com essa bagunça", diz o cantor, nem um pouco satisfeito em ver o nome da dupla envolvido nessa intriga. Se esse cachê foi pago, outros estão pendentes. Estima-se que o PT deva 7 milhões de reais por showmícios realizados no ano passado por artistas como Leonardo, KLB e Wanessa Camargo, filha de Zezé. Com a dupla sertaneja, o papagaio é de 350.000 reais.

Na política miúda do cotidiano, Zezé é um populista rematado. Apesar da fama e da fortuna, o sertanejo, de 42 anos, faz o estilo simples e boa-praça. Quando não está em turnê, sua diversão é descansar na fazenda É o Amor – sim, o nome é uma alusão a seu maior hit –, na cidade goiana de Araguapaz. No terreno de 1.550 hectares, dotado de casa com 22 quartos para a família e os hóspedes e de um belo lago artificial, Zezé cria gado para abate e reprodução. Para manter em dia as relações com a comunidade local, ele promove festanças periódicas abertas aos populares, com campo de futebol e churrasco por conta da casa. Nos últimos tempos, Zezé teve de se desdobrar na costura política – mas para lidar com um cisma familiar. Sua mãe, Helena, não se conforma com o fato de o filme sobre a dupla levar apenas o nome do marido, Francisco. "Ela ficou chateada porque nos deu à luz e nos criou e só meu pai levou a fama", diz Zezé.

 

MILITANTE PRAGMÁTICO

A seguir, a entrevista do cantor sertanejo Zezé di Camargo concedida a VEJA na semana passada.

 
Roberto Castro/AE

Zezé, em comício de Lula: "Acho que ele até sabia"

O SENHOR FOI UM DOS ARTISTAS QUE MAIS SE EMPENHARAM NA ELEIÇÃO DO PRESIDENTE LULA. ESTÁ ARREPENDIDO?
Não, ainda acredito no projeto do Lula. Mas decidi parar com shows políticos. Não faço nem que ofereçam dez vezes mais do que costumo receber. Porque você apóia um candidato e depois fica na dúvida se ele fará um bom governo.

O PRESIDENTE SABIA DO ESQUEMA DO MENSALÃO?
Acho que ele até sabia, mas não se deu conta da gravidade do problema. Ele delegou poderes demais para uma pessoa que era da confiança dele, o Zé Dirceu. O senador Arthur Virgílio disse que o Lula ou era corrupto ou era idiota. Eu acho que ele foi ingênuo.

O SENHOR ACHA CORRETO O BANCO DO BRASIL TER GASTADO 73 000 REAIS EM INGRESSOS DE UM SHOW DE SUA DUPLA PARA LEVANTAR FUNDOS PARA O PT?
Eu e o Luciano fomos contratados por uma churrascaria para cantar num evento. Cobramos cachê, não tivemos nada a ver com a venda de ingressos para a festa. Tenho todas as notas fiscais. Só depois fiquei sabendo dessa história de dinheiro do Banco do Brasil. Eu não quero dinheiro do governo. Nem uma telha da minha casa foi comprada com financiamento público. O mesmo vale para o meu filme. Não usamos um centavo de lei de incentivo. Não dá. O povão acha que a Lei Rouanet é um órgão lá em Brasília para arrancar dinheiro dos cofres públicos.

QUAL SUA OPINIÃO SOBRE OS SEM-TERRA?
Já tive problemas com eles. Pararam na porta da minha fazenda e só foram embora depois que lhes dei dinheiro. O MST tem uma ideologia avacalhada. Recruta gente que nunca plantou para invadir terra. Depois, eles fazem barganha e vão para outra fazenda. Pessoas que trabalham comigo compraram lotes dos sem-terra.

SEU IRMÃO, WELINGTON, É DEPUTADO ESTADUAL POR GOIÁS. O SENHOR AJUDOU NA CAMPANHA?
Gastei 90.000 reais. Quando ele se candidatou, eu disse que não iria ajudar, porque não queria que ele mexesse com política. Faltando um mês para a eleição, um amigo me advertiu que o Welington ia perder e o povo poderia falar que não tínhamos força nem para elegê-lo. Então fizemos uns shows para ele. O Welington pode ser um zero à esquerda em política, mas tem consciência. Sua luta é pelos deficientes físicos.

É VERDADE QUE O PT TEM DÍVIDAS COM O SENHOR?
Eles me devem 350.000 reais por apresentações em campanhas. Mas vou esperar a poeira baixar para fazer a cobrança. Agora não é o momento.

 
 
 
 
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