Edição 1916 . 3 de agosto de 2005

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Terrorismo
A morte de um inocente

Polícia inglesa confunde brasileiro com
terrorista e o mata com sete tiros na cabeça


Antonio Ribeiro, de Londres,
e
José Eduardo Barella, de Gonzaga


Antonio Scorza/AFP
FP
A TRAGÉDIA DE JEAN
Parentes e amigos carregam o caixão com o corpo de Jean Charles de Menezes, em Governador Valadares. À direita, Jean veste a jaqueta que despertou as suspeitas da polícia inglesa. Resultado de um erro na caçada aos terroristas, a morte do brasileiro foi noticiada com indignação pela imprensa da Inglaterra (abaixo) e pela população de Gonzaga, onde ele nasceu

Jean Charles de Menezes foi a vítima brasileira dos atentados terroristas de Londres. Ele não estava entre os 52 passageiros de metrô e ônibus mortos no dia 7 de julho por homens-bomba. O jovem eletricista morreu quinze dias depois, confundido com um terrorista. Um dia antes, quatro muçulmanos haviam tentado novos ataques a bomba no sistema de transporte londrino. Em busca dos responsáveis, a polícia inglesa iniciou a maior caçada humana de sua história. Na sexta-feira, os quatro terroristas, dois deles cidadãos britânicos, já tinham sido presos. Executado por policiais à paisana com oito tiros à queima-roupa – sete na cabeça, um no ombro – quando tentava pegar o metrô para ir ao trabalho, o mineiro de 27 anos teve uma morte brutal por uma infeliz série de coincidências e erros de julgamento da Scotland Yard.

O prédio em que Jean morava estava sendo vigiado porque o endereço havia sido encontrado no dia anterior na mochila de um terrorista. O que fez com que os policiais acreditassem que Jean era um possível homem-bomba? O fato de ele ter saído de casa vestindo uma jaqueta sob uma temperatura de 22 graus – um calorão, para os padrões londrinos –, pois podia significar que ele carregava explosivos presos ao corpo? Sua aparência de estrangeiro? Por parecer um tanto apressado? "Ele estava atrasado para um serviço de instalação de alarme de incêndio em um condomínio", disse a VEJA Genésio d'Ávila, com quem o eletricista, formado no Senac de São Paulo, trabalhava. Só há incertezas na tragédia. Jean realmente pulou a catraca da estação subterrânea, como afirma a polícia? Por que ele correu para dentro do vagão de trem, se é que correu, quando os policiais à paisana o mandaram parar, se é que deram mesmo essa ordem? Teria sido porque seu visto de permanência estava vencido?

Desde os atentados no início do mês passado, a Scotland Yard enfrentou 250 situações em que a polícia acreditou estar diante de um terrorista suicida. A ordem, nesses casos, é atirar na cabeça do suspeito, para não correr o risco de que, num reflexo, a bomba seja detonada – mas só Jean, um inocente, foi executado. O procedimento é drástico para uma força policial que mata, em média, apenas duas pessoas por ano – em comparação, a polícia de São Paulo matou 313 em 2004. "Falam tão bem da polícia inglesa, mas a verdade é que eles mataram meu filho pelas costas, de forma covarde e injusta", diz Maria Otoni de Menezes, de 59 anos, mãe de Jean. A aposentadoria de 290 reais do marido, Matozinhos Otoni da Silva, de 60 anos, era complementada com o dinheiro que Jean mandava da Inglaterra, por intermédio de um doleiro brasileiro.

O jovem enviava aos pais o equivalente a 2.500 reais todo mês, um dinheirão para os padrões de Gonzaga, cidade em que 80% da arrecadação vem do repasse de verbas federais. "São os dólares mandados por emigrantes como Jean que sustentam a economia da cidade", diz o prefeito Júlio Maria de Sousa, que morou quatro anos nos Estados Unidos como imigrante ilegal na década de 80. Por ano, os emigrados remetem 2,4 bilhões de dólares aos parentes no Brasil. O terrorismo afeta a vida desses trabalhadores brasileiros em todos os lugares. Por causa do terror, os países ricos começam a podar a zona de tolerância que permitia aos brasileiros ganhar a vida no exterior, mesmo sem a devida papelada imigratória.

Na casa modesta em que os pais de Jean vivem, em Córrego dos Ratos, na zona rural de Gonzaga, são visíveis os sinais materiais da última visita do filho caçula ao Brasil, entre janeiro e abril: as janelas ganharam esquadrias de alumínio e o piso da sala, lajotas. O aparelho de DVD, a geladeira e o fogão de seis bocas são novos em folha. "O Jean era determinado, sabia exatamente o que queria: juntar dinheiro para voltar a Gonzaga", diz o irmão Giovani da Silva. Na semana passada, ele estava desconfiado das pessoas que, na Inglaterra, querem representar os interesses da família no caso da morte do irmão. Uma delas é Gareth Peirce, advogada esquerdista famosa por causa do filme Em Nome do Pai, que relata sua luta para corrigir um erro judicial envolvendo acusados de terrorismo. Logo que soube da morte de Jean, Gareth mandou uma funcionária se apresentar aos primos do brasileiro que vivem em Londres. Dias depois, ela convocou uma entrevista coletiva em que apareceu ao lado de primos de Jean e de Bianca Jagger, ex-mulher do roqueiro Mick Jagger, que milita contra a guerra no Iraque.

Aos poucos, as declarações públicas de pesar dos parentes de Jean foram substituídas por acusações contra o governo inglês, inspiradas por Peirce. O risco de vincular o caso do brasileiro a essas ativistas é botar a perder o que realmente importa à família neste momento: a busca por justiça – isto é, apuração das circunstâncias da morte e punição dos responsáveis – e indenização. A manipulação política da morte de Jean pode arruinar a simpatia da opinião pública e criar dificuldades. Os ingleses solidarizaram-se com a tragédia do brasileiro, mas pesquisas de opinião indicam que 60% deles acham que a polícia agiu corretamente. A ordem de executar suspeitos de terrorismo com tiros na cabeça continuará em vigor.

 

 
 
 
 
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