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Terrorismo
A morte de um inocente
Polícia inglesa confunde brasileiro com
terrorista e o mata com sete tiros na cabeça

Antonio Ribeiro, de Londres,
e José Eduardo Barella, de Gonzaga
Antonio Scorza/AFP
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FP
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A
TRAGÉDIA DE JEAN
Parentes e amigos carregam o caixão com o corpo
de Jean Charles de Menezes, em Governador Valadares. À
direita, Jean veste a jaqueta que despertou as suspeitas da
polícia inglesa. Resultado de um erro na caçada
aos terroristas, a morte do brasileiro foi noticiada com indignação
pela imprensa da Inglaterra (abaixo) e pela população
de Gonzaga, onde ele nasceu |
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Jean Charles de Menezes foi a
vítima brasileira dos atentados terroristas de Londres. Ele
não estava entre os 52 passageiros de metrô e ônibus
mortos no dia 7 de julho por homens-bomba. O jovem eletricista morreu
quinze dias depois, confundido com um terrorista. Um dia antes,
quatro muçulmanos haviam tentado novos ataques a bomba no
sistema de transporte londrino. Em busca dos responsáveis,
a polícia inglesa iniciou a maior caçada humana de
sua história. Na sexta-feira, os quatro terroristas, dois
deles cidadãos britânicos, já tinham sido presos.
Executado por policiais à paisana com oito tiros à
queima-roupa sete na cabeça, um no ombro quando
tentava pegar o metrô para ir ao trabalho, o mineiro de 27
anos teve uma morte brutal por uma infeliz série de coincidências
e erros de julgamento da Scotland Yard.
O prédio em que Jean morava
estava sendo vigiado porque o endereço havia sido encontrado
no dia anterior na mochila de um terrorista. O que fez com que os
policiais acreditassem que Jean era um possível homem-bomba?
O fato de ele ter saído de casa vestindo uma jaqueta sob
uma temperatura de 22 graus um calorão, para os padrões
londrinos , pois podia significar que ele carregava explosivos
presos ao corpo? Sua aparência de estrangeiro? Por parecer
um tanto apressado? "Ele estava atrasado para um serviço
de instalação de alarme de incêndio em um condomínio",
disse a VEJA Genésio d'Ávila, com quem o eletricista,
formado no Senac de São Paulo, trabalhava. Só há
incertezas na tragédia. Jean realmente pulou a catraca da
estação subterrânea, como afirma a polícia?
Por que ele correu para dentro do vagão de trem, se é
que correu, quando os policiais à paisana o mandaram parar,
se é que deram mesmo essa ordem? Teria sido porque seu visto
de permanência estava vencido?
Desde os atentados no início
do mês passado, a Scotland Yard enfrentou 250 situações
em que a polícia acreditou estar diante de um terrorista
suicida. A ordem, nesses casos, é atirar na cabeça
do suspeito, para não correr o risco de que, num reflexo,
a bomba seja detonada mas só Jean, um inocente, foi
executado. O procedimento é drástico para uma força
policial que mata, em média, apenas duas pessoas por ano
em comparação, a polícia de São
Paulo matou 313 em 2004. "Falam tão bem da polícia
inglesa, mas a verdade é que eles mataram meu filho pelas
costas, de forma covarde e injusta", diz Maria Otoni de Menezes,
de 59 anos, mãe de Jean. A aposentadoria de 290 reais do
marido, Matozinhos Otoni da Silva, de 60 anos, era complementada
com o dinheiro que Jean mandava da Inglaterra, por intermédio
de um doleiro brasileiro.
O jovem enviava aos pais o equivalente
a 2.500 reais todo mês, um dinheirão para os padrões
de Gonzaga, cidade em que 80% da arrecadação vem do
repasse de verbas federais. "São os dólares mandados
por emigrantes como Jean que sustentam a economia da cidade", diz
o prefeito Júlio Maria de Sousa, que morou quatro anos nos
Estados Unidos como imigrante ilegal na década de 80. Por
ano, os emigrados remetem 2,4 bilhões de dólares aos
parentes no Brasil. O terrorismo afeta a vida desses trabalhadores
brasileiros em todos os lugares. Por causa do terror, os países
ricos começam a podar a zona de tolerância que permitia
aos brasileiros ganhar a vida no exterior, mesmo sem a devida papelada
imigratória.
Na casa modesta em que os pais
de Jean vivem, em Córrego dos Ratos, na zona rural de Gonzaga,
são visíveis os sinais materiais da última
visita do filho caçula ao Brasil, entre janeiro e abril:
as janelas ganharam esquadrias de alumínio e o piso da sala,
lajotas. O aparelho de DVD, a geladeira e o fogão de seis
bocas são novos em folha. "O Jean era determinado, sabia
exatamente o que queria: juntar dinheiro para voltar a Gonzaga",
diz o irmão Giovani da Silva. Na semana passada, ele estava
desconfiado das pessoas que, na Inglaterra, querem representar os
interesses da família no caso da morte do irmão. Uma
delas é Gareth Peirce, advogada esquerdista famosa por causa
do filme Em Nome do Pai, que relata sua luta para corrigir
um erro judicial envolvendo acusados de terrorismo. Logo que soube
da morte de Jean, Gareth mandou uma funcionária se apresentar
aos primos do brasileiro que vivem em Londres. Dias depois, ela
convocou uma entrevista coletiva em que apareceu ao lado de primos
de Jean e de Bianca Jagger, ex-mulher do roqueiro Mick Jagger, que
milita contra a guerra no Iraque.
Aos poucos, as declarações
públicas de pesar dos parentes de Jean foram substituídas
por acusações contra o governo inglês, inspiradas
por Peirce. O risco de vincular o caso do brasileiro a essas ativistas
é botar a perder o que realmente importa à família
neste momento: a busca por justiça isto é,
apuração das circunstâncias da morte e punição
dos responsáveis e indenização. A manipulação
política da morte de Jean pode arruinar a simpatia da opinião
pública e criar dificuldades. Os ingleses solidarizaram-se
com a tragédia do brasileiro, mas pesquisas de opinião
indicam que 60% deles acham que a polícia agiu corretamente.
A ordem de executar suspeitos de terrorismo com tiros na cabeça
continuará em vigor.
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