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Brasil
O presidente alarmista
Em mais uma tentativa de abafar a
crise, Lula sugere que investigações
podem prejudicar a economia

Carina Nucci
O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva tem reagido de forma errática ao escândalo
que expôs um ninho de corrupção dentro de seu
governo. Inicialmente apático, prometeu, num segundo momento,
investigar as denúncias até "cortar na própria
carne". Depois, num repente populista, recuou, voltou-se contra
as próprias investigações e sugeriu que as
denúncias não passavam de uma tentativa "das elites"
de curvá-lo. Na semana passada, o presidente decidiu acrescentar
uma terceira estratégia: ameaçar a própria
sociedade para esvaziar a crise. Na quinta-feira, ao discursar para
funcionários de uma refinaria da Petrobras, na região
metropolitana de Porto Alegre, Lula disse que a economia brasileira
"ainda é muito vulnerável" e, por isso, segundo ele,
não se pode "brincar nessa parte para que a gente não
tenha um retrocesso, porque um retrocesso leva anos e anos para
a gente recuperar". O recado foi claro: o presidente sugeriu que
as instituições brasileiras, em vez de cumprir suas
funções constitucionais, brincam ao investigar a crise
política. E que essa "brincadeira" poderá levar o
Brasil a uma indesejável tormenta econômica.
Não por coincidência,
Lula resolveu falar sobre economia justamente na semana em que os
mercados financeiros viveram seus momentos de maior tensão,
desde que VEJA flagrou em maio um ato de corrupção
nos Correios, a pedra de Roseta dos escândalos atualmente
em curso. O dólar, o risco-país e os juros futuros
subiram em razão do aprofundamento da crise política.
A tensão nos mercados foi causada pela notícia, publicada
também em VEJA, de que Marcos Valério ameaçava
o presidente com a possibilidade de contar tudo o que sabia caso
não recebesse ajuda financeira. Acuado, Lula apelou. O problema
(só para ele, é claro) é que os indicadores
voltaram a melhorar nos últimos dias, numa prova de que,
apesar de não haver blindagem que resista intacta às
dimensões da crise, a economia brasileira é muito
menos frágil do que tenta fazer crer o presidente em proveito
próprio.
Paulo Marcio/1º Plano
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BANCO RURAL NÃO
É AMEAÇA
Para o Banco Central, problemas no banco do mensalão
não causarão crise no setor |
Ao contrário do que disse
Lula, a economia brasileira surpreende positivamente porque sua
vulnerabilidade externa caiu de maneira drástica nos últimos
dois anos. O próprio presidente sabe disso. Em dezenas de
cerimônias públicas e viagens internacionais, apropriou-se
do mérito de sua equipe econômica, que, de 2003 para
cá, colocou em curso uma receita correta, mas impopular,
para fortalecer a economia. E é essa receita a barreira que
impede que o mar de lama do governo Lula arraste a economia para
o buraco como aconteceu em outros períodos. Em 2002,
o risco-país, o dólar e os juros dispararam em questão
de poucas semanas quando o então candidato à Presidência
Luiz Inácio Lula da Silva começou a despontar nas
pesquisas pré-eleitorais. Naquela ocasião, quando
se imaginava que o problema dos petistas era o destrambelho ideológico,
e não a falta de ética, o mercado temia que um governo
do PT pudesse jogar por terra duras conquistas na esfera econômica
como a Lei de Responsabilidade Fiscal, o câmbio flutuante
e o sistema de metas de inflação.
O que se viu foi o inverso. A
responsabilidade fiscal aumentou e a inflação caiu.
Some-se a isso um espetacular superávit na balança
comercial. Superávit esse que o presidente Lula exibiu como
a maior conquista do país durante seu governo nas suas mil
e uma viagens à China, Japão, África do Sul
etc. Nos últimos dois anos, a economia melhorou muito. O
saldo comercial saltou de 13 bilhões de dólares para
37 bilhões de dólares. A balança transformou-se
na principal fonte de moeda estrangeira para o país pagar
suas contas externas. É claro que a equipe econômica
contou com a ajuda do resto do mundo. O PIB global, impulsionado
pelo desempenho dos Estados Unidos e da China, aumentou mais de
5% no ano passado e não reduzirá muito o ritmo de
crescimento neste ano. O apetite mundial por soja e outras commodities
serviu de alavanca para as exportações brasileiras.
Ainda que não seja tão necessário, o capital
de curto prazo tem sido cada vez mais desviado dos países
ricos para o Brasil, atraído pelos juros altos que o governo
brasileiro paga. Mas o que tem determinado o câmbio é
muito mais a entrada de dólares via comércio exterior
do que a entrada de dinheiro especulativo. Com uma fonte de moeda
estrangeira muito mais estável a balança comercial
, o dólar enfrenta resistências para subir acima
de 2,50 reais. O exemplo de 2002 é didático. Naquele
período, o magro saldo da balança deixava o país
muito mais dependente dos estrangeiros que investem em juros e ações
no Brasil. O poder de fogo desses especuladores para apostar contra
o real ficou pequeno diante dos sucessivos recordes das exportações.
E, mesmo que ocorra uma fuga de capitais, seu efeito será
infinitamente menor do que o estrago provocado em 2002, quando o
dólar chegou a 4 reais. "Na crise de confiança, muita
gente perdeu dinheiro porque apostou que o dólar ficaria
alto por muito tempo. O mercado não cometerá o mesmo
erro hoje porque não apostará contra os bons fundamentos
da economia", afirma Octávio de Barros, economista-chefe
do Bradesco.
Em sua estratégia de amedrontar
a sociedade com a fala de que a economia brasileira é vulnerável,
o presidente contradisse os dois homens fortes de sua equipe econômica.
Em entrevista a VEJA, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, afirmou
que "a crise política não deverá ter impactos
sobre a economia". Segundo o ministro Palocci, o mesmo a quem Lula
cansou de atribuir a melhora que seu governo promoveu na economia,
o "Brasil tem instituições que já estão
trabalhando ativamente para solucionar a crise política,
e é isso que dá ao governo a tranqüilidade de
que os agentes econômicos continuarão tomando suas
decisões com base num cenário positivo que se projeta
para o país". O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles,
também veio a público para combater o argumento da
fragilidade econômica. Nas palavras de Meirelles, "os sólidos
fundamentos da economia não permitirão que o país
se desvie da rota de crescimento". Enquanto Lula escolhe palavras
negativas como "vulnerabilidade" e "retrocesso", seus escudeiros
na área econômica preferem "tranqüilidade" e "solidez".
Seria curioso se não fosse trágico.
Na prática, Lula tentou
botar lenha numa fogueira que sua própria equipe econômica
e o mercado financeiro querem sufocar. É fato que a economia
crescerá menos do que poderia se não houvesse a crise.
Antes dela, a previsão de crescimento do PIB era de 3,5%.
Hoje, economistas apostam que o PIB crescerá entre 2,5% e
3%. Investimentos em novos negócios, abertura de empresas
e as tão esperadas parcerias público-privadas ficarão
comprometidos caso a crise se prolongue. O dólar deve continuar
subindo ainda que moderadamente, o que encarecerá
viagens ao exterior e produtos importados. Mas o efeito sobre a
inflação deve ser bem pequeno porque os preços
se encontram numa acelerada trajetória de queda. No Congresso,
projetos importantes, como a reforma tributária e a lei que
favorece a abertura de micro e pequenas empresas, perderam prioridade.
Com isso, a geração de novos empregos tende a se arrastar.
Em tese, os problemas políticos também poderiam contaminar
a economia por meio de uma crise no sistema financeiro, especialmente
no segmento de bancos do porte do Rural, envolvido no escândalo
do mensalão. Mas o Banco Central, que monitora a situação,
não vê nuvens demasiado escuras pela frente. Dez em
cada dez economistas ouvidos por VEJA são categóricos
em afirmar que existe o risco de a crise política contaminar
a economia, mas insistem que o país está muito mais
sólido, fato ignorado pelo presidente. "Nos últimos
anos, o país instituiu uma política econômica
responsável e é ela que hoje nos permite atravessar
crises, e até trocas de governo, sem abalar a economia",
disse a VEJA Fábio Barbosa, presidente do banco Real.
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