Contribuições para uma
etnologia do pontapé

Onde se oferece uma explicação para a
distância que vai de Frank Sinatra a Ronaldinho

O leitor imagina talvez que já se disse tudo o que havia para dizer sobre Frank Sinatra. Engano. Faltou enfatizar um aspecto crucial de sua personalidade: ele brigava de soco. E como brigava! Fixava aqueles duros olhos azuis no adversário e investia com as mãos cerradas, o corpo aparentemente franzino explodindo nos punhos. Brigava no cinema e, ao que consta, na vida real. Brigava também com mulheres. Brigou muito com Ava Gardner, a mais indomável de suas mulheres. Talvez brigasse de soco também com as mulheres.

Americano briga de soco, é o que Hollywood nos ensina. Nunca se viu John Wayne usar as pernas a não ser para andar e para subir no cavalo. Na briga, era só punhos. Em alguns casos se usam os punhos mesmo contra as mulheres — a especulação sobre Ava Gardner não foi gratuita. O escritor Norman Mailer uma vez agrediu de soco uma companheira. Geralmente, em mulher se bate com tapa. As feministas relevem a frieza com que se está dizendo isso, mas é verdade. Em mulher, em geral, é com tapa. Americano, ou pelo menos americanos como Frank Sinatra e Norman Mailer, dá socos.

Já brasileiro briga com as pernas. O que se pretende aqui é elaborar uma sociologia da briga, ou talvez uma antropologia do soco, ou uma etnologia do pontapé — nada menos do que isso —, comparando dois povos. A um brasileiro parecerá artificial alguém que, provocado na rua, reaja como um lutador de boxe. O normal é partir com chutes em direção ao adversário. Os braços podem eventualmente ser usados, mas não para dar socos, e sim aplicar golpes em que mais entram em ação o cotovelo e o antebraço do que os punhos. Se a alguém, na saída de um baile funk, no subúrbio do Rio de Janeiro, ocorre preparar-se para a briga como um boxeador, concentrando os punhos junto ao rosto, o corpo ligeiramente arcado, e até ousando encetar uns saltinhos à guisa de finta no adversário, esse alguém fará papel de palhaço. Pode mesmo ser considerado efeminado. Isso é coisa para fazer sobre o tablado. Pertence ao mundo do esporte e do espetáculo, não à vida real. Já imaginar Robert De Niro se preparando para uma briga da maneira descrita, numa calçada do Bronx, não soa artificial.

Americano é do soco, brasileiro é da pernada, eis o enunciado que permite nosso estudo, neste ponto. Desse princípio pode decorrer uma série de ilações aparentemente desvantajosas para o nosso lado. Eles usam as partes de cima do corpo e nós as de baixo. Recorrem às áreas mais nobres e nós às menos. Estão mais perto do céu e nós do inferno. De alguma forma, isso refletiria uma realidade geográfica, uma vez que eles estão no norte e nós no sul do planeta, e outra econômica e política — eles estão por cima, nós por baixo. Ingressamos neste ponto no território pantanoso do que poderia ser chamado de psicanálise das nacionalidades. No(a) americano(a), o ponto de equilíbrio corporal se situaria no peito. Daí a força escorrer pelos braços e, no caso dos homens, estourar nos punhos. No(a) brasileiro(a), o ponto de equilíbrio, como ninguém ignora, está na cintura. Um(a) brasileiro(a), no meio de uma multidão multinacional, será reconhecido(a) por um certo jeito de rolar a cintura. A plasticidade da cintura escoa para as pernas e pode resultar em força e agilidade no percurso que vai até a ponta dos pés.

Alguns atribuiriam essa característica dos brasileiros ao sangue africano que corre em suas veias, e não só dos negros. Muitos atribuíram. Gilberto Freyre, por exemplo, para citar alguém à altura do rigor científico a que aspira nossa investigação. Ocorre que nos Estados Unidos também há negros, e lá eles revelam característica oposta. Um negro americano tenderia a brigar como Sinatra. Na verdade, são eles que ensinaram os demais americanos a brigar com os punhos, a partir do exemplo de sucessivas gerações de campeões, de Joe Louis a Muhammad Ali, de Ali a Mike Tyson. Quando se tratou de aplicar força e talento a um jogo com bola, os negros americanos não optaram pelo futebol. Escolheram o basquete, que se joga com as mãos.

Pé não é com americano, essa é uma evidência que salta aos olhos. Mesmo o jogo a que eles chamam de futebol é jogado, insensatamente, com as mãos. Pé é com brasileiro, e com isso chegamos à resposta que perseguíamos, neste nosso estudo. O que procurávamos, e Frank Sinatra nos veio a calhar como ponto de partida, é a razão pela qual, de quatro em quatro anos, em época de Copa do Mundo, os brasileiros vivem como que uma noite encantada, um baile de Cinderela. Em tempos normais, o mundo só lembra do Brasil quando se trata de menores de rua, favelas, espoliação de índios, queima de florestas e massacre de sem-terra. Em época de Copa do Mundo, somos príncipes. Os mais festejados, os mais requisitados, os mais belos e mais fortes. O leitor agora já sabe por quê. Porque futebol é algo que brota da cintura, escorre pelas pernas e vai atingir o máximo de sua potência e magia na ponta dos pés. E esse é o território corporal por excelência dos brasileiros. Ronaldinho está tão longe de John Wayne quanto o pé da mão.




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