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Nossa
Senhora da Dores, em madeira: mesmo tombada, foi comprada por 420.000 dólares |
Em vez de comprar obras de arte brasileiras no Brasil, os colecionadores estão pegando o avião para adquirir artigos nacionais em Nova York. Na quinta-feira passada, a casa de leilões Christie's vendeu, por 380.000 dólares, uma imagem em madeira de Nossa Senhora das Dores, esculpida por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814). Somando a esse valor a comissão de 10% sobre o preço final, cobrada pela Christie's, chega-se ao valor total de 420.000 dólares desembolsados pelo comprador. Ao que tudo indica, o novo dono da escultura é um banco brasileiro. Seus antigos proprietários são os herdeiros da colecionadora paulista Anésia Ribeiro Leite. Numa situação curiosa, imposta pela lei brasileira, Nossa Senhora das Dores não viajou para os Estados Unidos. Por se tratar de um artista cuja totalidade da obra é tombada pelo patrimônio histórico, sua saída do território nacional está proibida por lei. Na Christie's havia apenas uma reprodução fotográfica colorida da imagem. Ao voar para Nova York atrás de um Aleijadinho cujo original permaneceu em São Paulo, os colecionadores brasileiros estavam atrás do prestígio de uma casa de leilões de renome internacional. A griffe Christie's inflaciona o preço final e, por tabela, serve para incrementar o pedigree da obra. Essa necessidade de um atestado americano para uma peça brasileira, seja do barroco mineiro ou da arte contemporânea, é um sinal da fragilidade do mercado nacional.
Pela primeira vez uma peça do período colonial foi posta a leilão fora do Brasil. Dentre as obras de Aleijadinho disponíveis, esta Nossa Senhora das Dores é de excepcional qualidade. Além de ter 68 centímetros de altura, um tamanho relativamente grande para as obras em madeira do artista, a escultura encontra-se em ótimo estado de conservação. A venda da imagem foi uma surpresa, mesmo tendo sido arrematada por um preço inferior à estimativa de 400.000 dólares estabelecida pela Christie's, aí já descontada a comissão da casa. O mestre do barroco não tem grande liquidez no mercado. No ano passado, duas esculturas similares de Aleijadinho foram oferecidas em leilões cariocas a preços razoáveis, sem encontrar comprador.
Contemporâneos Na mesma noite, a arte contemporânea brasileira também se deu bem em Nova York. O recorde pertence a uma tela kitsch da pintora Adriana Varejão, Cristo, que saiu por 26.000 dólares, o preço mais alto entre os artistas contemporâneos na ocasião. "Resolvemos correr um risco calculado, entrando mais agressivamente com os contemporâneos brasileiros no leilão latino-americano", diz Cândida Sodré, representante da Christie's para o Rio de Janeiro. Além de Varejão, o pintor Daniel Senise, da Geração 80, teve uma tela amealhada por 8.500 dólares. Já o escultor Tunga vendeu uma obra representando um pente e um feixe de cabelos metálicos por belos 24.000 dólares. E por outros 22.000 dólares saiu uma escultura abstrata de aço inoxidável de Waltércio Caldas. Diante do resultado positivo da semana passada, de agora em diante a presença dos brasileiros em leilões internacionais deverá aumentar. Tanto do lado de quem vende como de quem compra.
A.P.
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