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| Foto: Liane Naves |
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empresário e colecionador argentino Eduardo Costantini tem uma fortuna estimada em 200 milhões de dólares |
Diz uma piada brasileira que a melhor forma de ganhar dinheiro no Mercosul é comprar um argentino pelo valor de mercado para revendê-lo pelo preço que ele diz valer. Nada mais descabido quando o argentino em questão é o financista e colecionador Eduardo Costantini. Dono de uma fortuna estimada em 200 milhões de dólares, seu valor de mercado é realmente proporcional ao que alardeia. Em especial, no campo da arte. O milionário portenho ficou famoso pela voracidade demonstrada em leilões nova-iorquinos. Ganhou as páginas dos jornais quando adquiriu o quadro mais caro da pintura latino-americana, o Auto-Retrato com Macaco e Papagaio, da mexicana Frida Kahlo, também cobiçado por Madonna. Outro gol pictórico com a assinatura Costantini foi a compra, em 1995, do Abaporu, da brasileira Tarsila do Amaral, alçado à condição de preço recorde das tintas nacionais. É justamente para cumprir uma promessa, a de mostrar o Abaporu ao público brasileiro, que Costantini desembarca nesta semana em São Paulo. Na quinta, inaugura no Museu de Arte Moderna paulistano uma mostra com 112 de seus quadros até o dia 5 de julho. A mostra segue depois para o Rio de Janeiro. É possível que a exposição seja acrescida da mais nova conquista do empresário, a tela A Manhã Verde, do surrealista cubano Wifredo Lam, arrematada na semana passada num leilão da Sotheby's por 1,2 milhão de dólares. A cada novo leilão, Costantini vai encorpando seu acervo. Além dessa obra de Lam, acaba de comprar um quadro do argentino Antonio Berni e mais uma do brasileiro Antonio Dias.
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| Auto-Retrato
com Macaco Papagaio, de Frida Kahlo, comprado por 3,2 milhões de dólares |
Hoje com cerca de 130 quadros valendo 40 milhões de dólares, a coleção é uma antologia sucinta da arte do continente no começo do século. Para além das cifras, entre as jóias de sua coroa despontam as telas de seu conterrâneo Xul Solar e as dos uruguaios Joaquín Torres-García e Pedro Figari. "Não tenho motivo para esconder os quadros. Quanto mais promoção, melhor", disse ele a VEJA, em seu escritório em Buenos Aires, de onde se tem uma vista espetacular para o Rio da Prata. Iniciada há vinte anos, a coleção Costantini ainda é um acervo jovem, que não tem endereço definitivo. Não é o maior nem tampouco o melhor acervo de arte modernista produzido ao sul do Texas no século XX. Não se compara, por exemplo, com o da família Gelman, no México, ou dos Cysneros, na Venezuela. O que faz a diferença da coleção Costantini é o próprio Costantini. Aos 50 anos, pele bronzeada, pai de cinco filhos, avô de quatro netos e em seu segundo casamento, com a economista Gloria Fiorito, de 28, ele conseguiu a proeza de unir a publicidade pessoal com um arrojado e bem-sucedido projeto de mecenato.
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Abaporu,
de Tarsila do Amaral, adquirido por 1,4 milhão de dólares |
Holofotes Dono de uma financeira, a Consultatio, hoje com um patrimônio líquido de 700 milhões de dólares, Costantini adora os holofotes, ao contrário da maioria dos colecionadores inclusive brasileiros , que compram arte na sombra, para lavar dinheiro, e rarissimamente franqueiam suas obras ao público. Como faz questão de declarar, seus quadros darão origem ao futuro Museu de Arte Latino-americana, a ser construído num lote já comprado por 10 milhões de dólares em Palermo, o bairro mais chique da cidade. O museu deve ficar pronto no ano 2000. "Será uma referência no continente, com o que há de superlativo do modernismo de cada país", diz. Além de suas compras, às quais destina 4 milhões de dólares por ano, o museu será alimentado pela Fundação Costantini. Com um orçamento de 20 milhões de dólares, a fundação promove e financia um prêmio de pintura contemporânea argentina. A cada ano, os dois artistas vencedores têm suas obras adquiridas para o museu.
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| Composição
Simétrica Universal, de Joaquín Torres-García, arrematado por 930.000 dólares |
Na fechada sociedade argentina, a ascensão de Costantini, um sujeito de classe média que enriqueceu à custa de seu faro especulativo, demorou a ser digerida. Os velhos ricos, por exemplo, até hoje ficam chocados pelo fato de ele freqüentar o aristocrático Teatro Colón, de Buenos Aires, trajando jeans. "Sua presença na cena cultural argentina é revolucionária. Com a coleção e o futuro museu, Costantini tornou-se a face iluminista do menemismo", diz a crítica de arte Ana Batistocci, do jornal El Clarín. Menemista, sim, em sua empolgada adesão à dolarização argentina e à globalização, pero sem as costeletas ou a cabeleira acaju do presidente argentino.
Magro, bonitão e esportista, Costantini é mesmo uma figura singular em seu país. Seu dinheiro novo não faz dele um típico exibicionista dos pampas, desses que colecionam puros-sangues ou apreciam charutos. Além de colecionar arte, ele ama praticar esportes. Pratica ioga e é um atleta versátil, que joga tênis e futebol em Buenos Aires. Mora há um ano numa bela mansão modernista, de concreto e vidro. Tem também uma casa de praia em Punta del Leste, onde anda de bicicleta, faz windsurfe e mergulho. Tal como sua atual mulher, Gloria, na pátria da picanha ele é vegetariano e só bebe ocasionalmente. "Eduardo é uma alma inquieta. Juntamente com Gloria, forma um dos pares mais dinâmicos da sociedade portenha. Freqüentam o circuito das artes e o mundo fashion", diz Carolina Fauve, da Caras local. Casado com Gloria desde o fim do ano passado, ele pretende ter mais dois filhos.
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Manhã Verde, de Lam: 1,2 milhão |
| Fotos: Coleção Eduardo Constantini |
Durante seu primeiro casamento, com a atriz e produtora de cinema Teresa Correa Avila, Costantini concentrou suas forças nos negócios. Nos anos 70, com um diploma de economia nas mãos, resolveu fazer mestrado na Inglaterra. De volta à Argentina, logo amealhou seu primeiro milhão. Os negócios decolaram nos anos 80, com as bolsas de valores. Em 1994, num golpe de sorte, pouco antes do "efeito tequila", a derrocada da economia mexicana, desfez-se de todos seus papéis daquele país. Hoje, no âmbito do mercado de arte latino-americano, Costantini é uma celebridade. De arte brasileira, outra grande compra é a tela Festa de São João no Morro, de Candido Portinari, por cerca de 1 milhão de dólares, numa transação intermediada pelo marchand carioca Maurício Pontual em 1997. O quadro também será exposto no MAM. Ao contrário do que faz nos leilões, quando compra de marchands Costantini prefere o silêncio. Ele tem razão de sobra para essa tática: a discrição ajuda na barganha. Como naquela piada do início, os marchands brasileiros estão loucos para vender a arte verde-amarela ao argentino pelo dobro do que ela realmente vale. É só o milionário argentino ameaçar aparecer que os preços explodem.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |