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Além do cosmos
Obra
póstuma de Carl Sagan traz seu legado intelectual
Bilhões e
Bilhões, do astrônomo americano Carl Sagan, tinha
tudo para ser um livro caça-níqueis. O autor foi o
segundo cientista mais popular do século, atrás apenas
do físico Albert Einstein, e o livro com dezenove
artigos, palestras e relatos foi lançado nos Estados
Unidos logo depois da sua morte, em 1996. Mas Bilhões
e Bilhões (Companhia das Letras; tradução de
Rosaura Eichemberg; 265 páginas; 23,50 reais) é
exatamente o contrário. Funciona como o testamento de
Sagan, um dos raros cientistas que conseguiam escrever
sobre temas complexos de forma simples, sem menosprezar a
inteligência do leitor. Estão no livro alguns dos
assuntos recorrentes da carreira do cientista, como a
corrida armamentista, a destruição do meio ambiente e a
possibilidade de vida em outros planetas. Também há
artigos sobre o cotidiano, como a argumentação racional
de Sagan em defesa do aborto até o sexto mês de
gravidez, momento em que o feto começa a produzir ondas
cerebrais diferentes das de um animal. Mas o mais
surpreendente é o relato de Sagan sobre a própria
morte.
Conhecido por causa
da série de TV Cosmos, Sagan morreu de uma
espécie rara de câncer no sangue. Em dois anos, ele
passou por dois transplantes de medula, tratamentos de
quimioterapia intensiva e várias internações.
"Já encarei a morte seis vezes e aprendi muito com
essas confrontações", escreveu um Sagan
bem-humorado, semanas antes de morrer. "Na verdade,
quase morrer é uma experiência tão positiva e
construtora do caráter que a recomendaria a todos. Não
fosse, é claro, o risco." Sagan escreve sem
autopiedade sobre seu susto ao receber o diagnóstico da
doença, a respeito da irmã que doou a medula e até
sobre o conflito moral de estar se beneficiando de um
tipo de cirurgia que só é possível por causa dos
testes experimentais feitos com animais, técnica que
sempre condenou. A única concessão ao sentimentalismo
é o posfácio de autoria da mulher do astrônomo, a
escritora Ann Druyan. Os dois se conheceram nos anos 70,
quando Sagan foi convidado pela Nasa, a agência espacial
americana, para preparar as mensagens que foram colocadas
na nave espacial Voyager. São arquivos de som e
imagem que apresentam a civilização da Terra a
eventuais seres de outros planetas. Ann revela que
incluiu no acervo da Voyager uma declaração
apaixonada a Carl Sagan, na época ainda em seu primeiro
casamento. Não se trata, porém, de um bilhetinho
amoroso comum: a declaração foi codificada na forma de
ondas cerebrais. Nada mais adequado para uma
relação-cabeça.
Thomas
Traumann

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