Suflê de vento

Um guia para gourmets em épocas de escassez de comida

Desde 1825, quando o nobre francês Anthelme Brillat-Savarin publicou o clássico A Fisiologia do Gosto, obras de gastronomia formam uma honorável tradição literária. São obras para celebrar o prazer da alimentação. Para cantar cozidos como se fossem bens culturais. Para fazer dos jantares um ritual da civilização. Como afirmava o autor, "Dize-me o que comes e dir-te-ei quem és". Nem por isso, entretanto, a comida deixou de ser o que sempre foi: uma perturbadora necessidade animal. Basta olhar em volta. Por isso mesmo seria preciso um grande artista, ou então um grande cínico, para escrever um livro de culinária a partir da experiência da fome. E foi exatamente essa a proeza da escritora americana MFK Fisher em Como Cozinhar um Lobo (Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares, 247 páginas, 26,50 reais), que acaba de ser lançado no Brasil. O que dizer desse livro?

Antes de mais nada que sua autora, nascida em 1908 e morta em 1992, era artista e não cínica. Tanto gourmets quanto professores de literatura consideram-na uma das mais brilhantes prosadoras americanas do século. Composta de 26 volumes, sua obra é uma mistura exótica de narração, ensaísmo e apanhados de receitas. Ela escrevia sobre comida com a sutileza de um filósofo. "Nossas três necessidades básicas, de comida, segurança e amor, encontram-se tão enlaçadas que não podemos pensar sobre uma sem envolver as outras", afirmou certa vez.

Publicado em 1942, nos Estados Unidos, Como Cozinhar um Lobo foi concebido na Europa devastada pela II Guerra. Era o período da escassez de alimentos, dos blecautes, do racionamento de combustíveis. Ela escreve, então, sobre como tirar o máximo proveito de coisas como pães e arroz, um ovo cozido ou um ensopado de restos. Pode parecer suspeito que ingredientes bem mais apetitosos que os calangos nordestinos apareçam algumas vezes no livro. Há receitas com queijos, cogumelos, carne e "borrifos de vinho". Nem por isso a autora está sendo desonesta. Durante a guerra, a fome era uma ameaça real ou, para dizer como os ingleses, "o lobo estava sempre atrás da porta". Fisher sabia do que estava falando. Escreve com delicada ironia e jamais soa esnobe ao insistir que uma das maneiras de reafirmar a dignidade, diante das dores da vida, é alimentar-se com a maior habilidade e o maior prazer possíveis.

É inevitável suspeitar, no entanto, que o livro de Fisher será lido da maneira cínica no Brasil. Ou alguém duvida de que senhores gordos de carne, mas "finos de espírito", folhearão o livro depois do jantar, dizendo para si mesmos que a fome tem lá suas belezas? Até o dia em que uma dona de casa sertaneja, ajudada talvez por Padre Cícero, consiga escrever algo semelhante, com ingredientes nativos menos suaves do que os europeus. Essa obra poderia chamar-se Como Cozinhar um Coronel e um Lobisomem, para lembrar o velho livro de José Cândido de Carvalho. Ou, quem sabe, Como Destrinchar um Tucano. É preciso tomar cuidado: não é no campo das idéias que avançam os demagogos, mas num bem mais prosaico — o do vazio do estômago.

Carlos Graieb




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