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Gol contra
Futebol
brasileiro pode ser bom, mas
a literatura sobre o esporte não passa
da segunda divisão
Diogo
Mainardi
O
velho lugar-comum diz que brasileiro não sabe escrever
sobre futebol. É verdade. Mas sobre o que sabemos
escrever? Por acaso temos um grande romance sobre
Carnaval? Ou sobre macumba? Ou sobre índios? O fato é
que nossa literatura se sai mal em praticamente todos os
temas. É injusto, portanto, atacar apenas esses
escritores e editores que tentaram pegar uma carona na
Copa do Mundo da França e lançaram livros com títulos
sugestivos como Brasil Bom de Bola, Onze em Campo e um
Banco de Primeira, Futebol que Lava a Alma, O Nosso
Futebol e Confissões de um Torcedor.
O projeto mais
ambicioso é Brasil Bom de Bola (Tempo
d'Imagem; coordenação de Ed Viggiani; 203 páginas; 60
reais), um rico volume de fotografias com textos das mais
variadas personalidades da nossa cultura. A cantora Rita
Lee, por exemplo, conta a fábula de Sir Football,
"um renomado inglês que saiu mundo afora com o
propósito de colonizar povos primitivos para trabalhos
forçados no campo". Ao desembarcar no Brasil, Sir
Football e seus Hooligans levaram uma surra de 1.000 gols
a zero do cacique Pelé, voltando para casa humilhados e
desprovidos de cartola. O historiador Joel Rufino dos
Santos prossegue a ladainha anticolonialista: "Os
ingleses nos deram um esporte. Nós, os
pretos-índios-portugas, o transformamos numa arte. Arte
nacional popular, refinada e essencial". Esse mesmo
louvor patriótico pode ser observado no poema de
Patativa do Assaré, autor de folhetos de cordel, que
exalta a nacionalidade com rimas altissonantes: "Eu
me orgulho em ter nascido/Neste meu Brasil querido/O
país do futebol". O dramaturgo Ariano Suassuna
também se orgulha da nossa habilidade futebolística.
Nada de Romário ou Ronaldinho, porém. Ele celebra
somente o futebol do Brasil "real", jogado por
gente humilde que ignora a oficialidade de técnicos e
dirigentes, numa "das maiores manifestações da
nossa beleza e da nossa alegria".
É curioso que
tanto brio nacionalista se manifeste justamente num livro
feito com o patrocínio de um grande banco estrangeiro,
em edição trilíngüe português, francês e inglês,
típico produto de exportação. Tem até a tradicional
fotografia do Pão de Açúcar na capa. As demais imagens
que ilustram o volume são igualmente canônicas: o
moleque que bate bola na praia, o campinho de terra no
interior, a pelada na favela. O grande Pelé, claro,
aproveita a oportunidade para fazer um pouco de demagogia
politiqueira, dizendo que sua atual missão é ajudar a
criar "um país melhor e mais justo, que permita que
toda criança brasileira vire gente grande de
respeito". A única idéia original do livro é de
Marcelo Rubens Paiva, com fotos de Luis Humberto, que
mostra uma animada partida entre alguns rapazes cegos,
com viseiras acolchoadas para amortecer eventuais
pancadas. O outro ponto de interesse de Brasil Bom de
Bola é que, analisando os retratos dos campos de
futebol do país inteiro, constata-se que somos incapazes
de erguer traves que não sejam tortas. Bons de bola,
sim, mas péssimos marceneiros.
A antologia Onze
em Campo e um Banco de Primeira (Relume Dumará;
135 páginas; 17 reais), publicada originalmente em 1986,
acaba de ser relançada com o acréscimo de cinco contos.
Logo de cara, João Ubaldo Ribeiro repete a fórmula do
Brasil contra o resto do mundo, narrando uma partida
entre um clube do interior, o São Lourenço, e um time
formado por americanos e japoneses, funcionários de uma
mina. O tom é leve e brejeiro, como tudo o que faz João
Ubaldo Ribeiro, mas por trás dessa alardeada brejeirice
esconde-se a fácil retórica nacionalista que vê o
futebol como uma oportunidade de nos redimir contra os
gringos imperialistas que vêm roubar nossos metais. O
conto de Rubem Fonseca, Abril, no Rio, em 1970,
sobre um pobre jogador diletante que perde miseravelmente
a maior chance de sua carreira, é o único realmente
memorável da coletânea. E também funciona a história
de Sérgio Sant'Anna, um autor que sempre tenta inventar.
Quanto aos outros contos, nada a dizer.
Se o futebol não
produziu grandes resultados em matéria de ficção, o
mesmo pode ser dito em relação às crônicas
esportivas. O Nosso Futebol (Mauad; 207
páginas; 22 reais), de Fernando Calazans, e Futebol
que Lava a Alma (Rideel; 92 páginas; 15 reais),
de Miguel Arcanjo Terra, reproduzem todos os chavões que
desde os anos 30 infestam nossa prosa futebolística:
"futebol-arte", "fúria
avassaladora", "espetáculo de gala",
"toque infalível", "pensador do
futebol". Pior ainda é quando os cronistas se
aventuram em metáforas religiosas. Nilton Santos era um
mensageiro de Deus. Coutinho tinha pés abençoados.
Juari mostrava que a dança é a arma de Deus para
espantar maus espíritos. Maradona merecia um templo
sagrado para celebrar seu futebol. Bem mais divertido do
que os livros precedentes é Confissões de um
Torcedor (Objetiva; 138 páginas; 10 reais), em
que Nelson Motta conta sua passagem pelas quatro últimas
Copas. Ele dedica apenas uma ou duas linhas para cada
jogo, concentrando-se em seu contorno de bebedeiras e
mulheres. Ou seja, futebol não é política, não é
arte, não é religião. No máximo, um porre diante da
TV, xingando o Zagallo.

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