Horário nobre

Violenta, Torre de Babel desmorona logo no início

As armas da novela: Tony Ramos
como assassino
e festa com
bandidos e metralhadoras

A nova novela das 8 da Rede Globo é uma surpresa ruim de qualquer ponto de vista. Trombeteada como a novela mais cara já produzida pela emissora, a 100.000 reais o capítulo, contra 60.000 em outras produções do gênero, Torre de Babel obteve até agora uma audiência decepcionante. Atingiu uma média de 42 pontos nos dois primeiros capítulos e de 41 no terceiro. No quarto, em determinados momentos, não ultrapassou os 35 pontos. É um índice bem inferior ao alcançado pelas últimas três novelas do horário. Por Amor, a mais recente, começou com 48, pulando logo para 50 pontos. Aparentemente, boa parte do público rejeitou o formato de Torre de Babel, claramente inspirado nos enlatados exibidos pela própria Globo, que têm como peça de resistência a pancadaria e o sexo. Logo no início do primeiro capítulo, o personagem de Tony Ramos flagra a esposa traindo-o com dois homens ao mesmo tempo. Na hora ele mata um deles a golpes de pá e com uma estaca fincada no tórax. Na seqüência, é a vez de a mulher infiel morrer assassinada, com sangue espirrando por todo o cenário. Era só o início.

No final do primeiro capítulo, um bando de traficantes encapuzados invade uma festa do empresário vivido por Tarcísio Meira, o ameaça com uma arma na cabeça e metralha os lustres e janelas da mansão. Pelo realismo da cena, até parece que o autor Silvio de Abreu conta com a colaboração do traficante Escadinha para escrever o folhetim. Na quarta-feira, foi a vez de o personagem de Marcelo Anthony dar um tiro no ombro de Silvia Pfeifer. Mais sangue em cena. No capítulo de quinta-feira, durante uma briga na cadeia, um preso tentava fatiar a cabeça de Tony Ramos com uma serra elétrica e, a seguir, com um estilete. Coisa de filme de Freddy Krueger, e não das novelas das 8 a que o público está habituado. Foi tão feio que até o pessoal da sacristia chiou. "Essas e outras novelas contribuem para a destruição dos valores morais", proferiu o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, de quem não se conhecia a faceta de noveleiro.

Torre de Babel também vai contra a corrente ao colocar atores conhecidos em papéis que lhes parecem inadequados. Tony Ramos, eterno galã e titular de personagens bonzinhos, transforma-se num monstro sedento de vingança, com expressões faciais de assustar criancinhas. Cláudia Raia, inconvincente no papel de uma executiva sempre metida em terninhos, está tão sensual quanto uma Banana de Pijama. "Jamais deveriam ter coberto as pernas de Cláudia Raia e qualquer ator poderia ser o assassino da pá, menos Tony Ramos", admite um diretor da Globo.

A prosseguir nesse ritmo, Torre de Babel corre o risco de repetir o fracasso de O Dono do Mundo, exibida em 1991. Na época, a história de Gilberto Braga chegou a perder audiência para o dramalhão mexicano Rosa Selvagem, do SBT. Curiosamente, também em O Dono do Mundo um ator habituado a personagens simpáticos (Antonio Fagundes) encarnou um vilão da pior espécie. Na semana passada, Marluce Dias da Silva, superintendente executiva da Globo, declarou não enxergar violência fora de propósito em Torre de Babel. "É uma novela forte, mas não apelativa", disse. Talvez o fato de muitos espectadores pensarem o contrário leve a emissora a dar novo rumo ao folhetim.

Ricardo Valladares




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