Flor na lama

Presídio paulista abriga a nova atração do rap

Detentos do Rap:
você compraria um CD
desses cavalheiros?
Foto: Frederic Jean  

O conjunto que representa a mais nova promessa do pop nacional está prestes a lançar seu primeiro CD, mas não poderá promovê-lo entre o público. Nada de apresentações na TV, visita às rádios ou mesmo shows. No máximo, um videoclipe, necessariamente gravado no local onde moram seus integrantes: o pavilhão 5 da Casa de Detenção de São Paulo. O conjunto, batizado de Detentos do Rap, é formado por quatro presidiários com idades entre 20 e 23 anos, todos cumprindo pena por delitos como furto e tráfico de drogas. Embora posem para fotografias com a cara desafiadora típica dos músicos de rap, declaram-se arrependidos pelo que fizeram. Consideram-se no caminho da recuperação. Falam muito em Deus e contam com seu comportamento exemplar para a redução progressiva das penas. Cantavam apenas para passar o tempo, até que surgiu em cena um personagem que mudaria suas vidas, o DJ e produtor Iraí Campos. Dono da gravadora Fieldzz, celebrizada por CDs de dance music, Campos ouviu uma fita dos rapazes e resolveu apostar neles. "Os rappers brasileiros, como os Racionais MC's, gravam músicas em que posam de presidiários. Agora vamos lançar o produto real", diz.

A gravação do disco tem exigido uma complicada operação logística. Como os músicos não podem sair do presídio para ir ao estúdio, o estúdio vai até eles dentro de um caminhão adaptado. A aposta do produtor pode dar certo. O som dos Detentos do Rap é um relato contundente da vida na marginalidade e das agruras da rotina no cárcere. Relata também a luta inútil dos ex-presidiários para conseguir emprego e se reintegrar à sociedade. O que mais impressiona o ouvinte é saber que todas as letras são autobiográficas ou partem de cenas que eles viram de perto. Não são apenas criações de músicos profissionais brincando de garotos maus.

A candidatura ao estrelato de Daniel, Rony, Eduardo e Marcos tem-lhes trazido dores de cabeça no presídio. "Os detentos mais antigos fazem piada, temos de pisar em ovos para não arrumar confusão", informam os músicos. Confusão naquele local, eles sabem e dizem nas letras, em geral termina em morte, "às vezes só por maldade". A Casa de Detenção de São Paulo, também conhecida por Carandiru, é um dos barris de pólvora do sistema penitenciário do país, palco da chacina de 111 presos revoltosos em 1992. É uma surpresa que surja ali um grupo musical de qualidade.

Okky de Souza




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