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Emergentes ladeira abaixo
Crise na
Rússia quebra a confiança
nos países em desenvolvimento
David
Friedlander e João Sorima Neto

O fogo na Ásia nem
foi apagado e já há outro foco de incêndio mexendo com
os nervos da praça financeira internacional. Os
investidores que andavam preocupados com as dificuldades
econômicas do Japão e perdiam o sono com os
sobressaltos semanais na Coréia do Sul e na Indonésia
agora estão alarmados com a Rússia. Moscou não tem
dinheiro para pagar dívidas de curto prazo e parece cada
vez mais perto de um desastre econômico. Machucados pelo
colapso da Ásia, que começou no ano passado na
Tailândia e se espalhou rapidamente pelo mundo, os
investidores globais temem que os problemas russos
detonem outra crise nos países emergentes, grupo do qual
o Brasil faz parte. Na semana passada, os donos do
dinheiro internacional deram mais um sinal de que estão
perdendo a confiança nesses países. Sumiram por alguns
dias das bolsas de emergentes de peso como Coréia do
Sul, Hong Kong e Brasil. Por falta de compradores, o
preço das ações negociadas na Bolsa de São Paulo caiu
8% em apenas dois dias, houve especulação com juros e
dólar e o governo teve de intervir para acalmar o
mercado.
A recomendação
geral entre os analistas de Wall Street, o centro nervoso
das finanças mundiais, é ter muita cautela em relação
aos emergentes. Aqueles lucros tremendos da primeira
metade de 1997 desapareceram, e quem tem dinheiro
aplicado na América Latina e na Ásia está tendo
prejuízo neste ano. O banco Lloyds, da Inglaterra,
acompanha de perto o desempenho das 54 principais bolsas
de valores do mundo. A pesquisa mostra que, dos doze
mercados com pior desempenho neste ano, sete são
latino-americanos (inclusive o Brasil), quatro são da
Ásia e o pior de todos é a Rússia, com queda de mais
de 50%. O banco americano Morgan Stanley recomendou a
seus clientes que diminuam as carteiras com papéis de
países emergentes. A Merrill Lynch, maior corretora dos
Estados Unidos, sugeriu reduzir um pouco as aplicações
nos mercados da América Latina. E outro importante banco
americano, o J.P. Morgan, está aconselhando a venda de
títulos da dívida externa brasileira. "O mercado
é assim, nervoso. Os emergentes estão fora de moda
agora, mas de uma hora para outra tudo pode mudar",
diz Helder Soares, sócio do banco Matrix.
Há outro sinal
evidente de que, pelo menos neste momento, diminuiu o
encanto dos países emergentes. Um levantamento da
Merrill Lynch nos 34 maiores fundos de ações
especializados em América Latina mostra que há dinheiro
indo embora das bolsas. Apenas desses fundos, os
administradores já sacaram 700 milhões de dólares, ou
18% de tudo o que tinham aplicado na região. A pesquisa
mostra também que o movimento é contínuo. Das últimas
vinte semanas, só não houve resgate de recursos em uma.
O investidor estrangeiro não está fugindo apenas das
bolsas. Ele está evitando operações com a praça
financeira dos emergentes em geral. O banco americano
Goldman Sachs constatou que nas duas últimas semanas,
desde que a convulsão na economia russa começou a
preocupar, o fluxo de dinheiro para os títulos de renda
fixa da Ásia e da América Latina foi interrompido. Até
abril, entravam em média 40 milhões de dólares a cada
semana. Faz duas semanas que não aparece um centavo de
dólar. "O mundo financeiro está cheio de
incertezas e os emergentes estão sendo castigados por
isso", diz o economista Paulo Leme, diretor do
Goldman Sachs em Nova York.
O estado de
espírito do investidor em relação aos emergentes pulou
da euforia para a paranóia a partir do terremoto que
começou no Pacífico. Durante duas décadas os Tigres
Asiáticos foram considerados pelo mundo capitalista como
paradigma do desenvolvimento. Cresciam a taxas médias de
10% ao ano, a renda da região explodiu e a Ásia virou
uma máquina de exportar. Os Tigres eram apontados como
exemplo para os países em desenvolvimento. No final dos
anos 80, montaram-se no Brasil dezenas de seminários
para apresentar aos empresários locais o padrão
asiático de crescimento. Mais tarde, a América Latina,
que no começo dos anos 90 conseguiu atingir a
estabilidade econômica, e a Rússia, que se abriu para o
mundo, se juntaram aos asiáticos para formar o tal bloco
dos emergentes, lugares onde se conseguia lucrar muito e
rápido.
Nos últimos anos, esses países
receberam boladas de até 240 bilhões de dólares por
ano, que vinham fermentar nas bolsas e nas aplicações
de renda fixa ou para comprar empresas e construir
fábricas. O clima de festa acabou a partir da queda da
Tailândia, quando se descobriu que os Tigres escondiam
problemas sérios como déficits graves, bancos
debilitados por créditos podres e corrupção no poder.
Apavorados com essas descobertas, os investidores fugiram
em massa dos países emergentes com medo de que todos
estivessem na mesma situação. "Foi a primeira
crise da História em que os mercados contagiaram uns aos
outros com tanta velocidade", diz o ex-ministro da
Fazenda, Mailson da Nóbrega.
O medo de que
aconteça na Rússia o mesmo que ocorreu com a Ásia é
que tem deixado as bolsas nervosas. Como medida de
proteção, o dinheiro que antes vinha para os emergentes
está procurando lugares mais seguros, como Estados
Unidos e Europa. As economias desses países estão
crescendo, são menos vulneráveis a sobressaltos e
ultimamente têm oferecido ganhos exuberantes. A bolsa
americana já rendeu 13% neste ano, a da Itália bateu
nos 40% e na França a valorização das ações é de
33%.
Na semana passada,
o presidente Fernando Henrique Cardoso fez questão de
enfatizar, durante uma entrevista coletiva, que o Brasil
está numa situação econômica muito razoável, melhor
que a dos países com risco de quebrar. O presidente tem
razão. A Rússia não conseguirá resolver suas
dificuldades financeiras sem socorro de fora. Com a fuga
dos investidores, as reservas internacionais, que já
eram baixas, caíram para cerca de 17 bilhões de
dólares. Desse total, 13 bilhões já estão
comprometidos com dívidas externas que vencem agora.
Isso significa que, se não entrar dólar novo no país,
a Rússia só tem dinheiro suficiente para bancar mais
dois meses e meio de importações. Depois, quebraria.
Na tentativa de
reverter a situação e segurar o capital estrangeiro, o
banco central russo aumentou a taxa de juros de 30% para
150% ao ano. Na semana passada, uma missão do FMI
visitou o país e prometeu um adiantamento de 700
milhões de dólares para os compromissos mais urgentes.
Os especialistas estimam que a Rússia precisa de 10
bilhões de dólares. O problema é que o FMI está com
pouca caixa porque já emprestou muito aos Tigres mancos
da Ásia. "O que se espera é que o socorro venha da
Alemanha ou dos Estados Unidos", diz Heidi Wurzel,
gerente-geral do Renaissance, um dos primeiros bancos de
investimento da Rússia.

O Brasil possui
mais de 70 bilhões de dólares em reservas, tem empresas
importantes para privatizar, como o sistema Telebrás,
que pode render 21 bilhões de reais, e um sistema
político consolidado, bem diferente da baderna russa. Os
próprios analistas de Wall Street já perceberam que
não é sensato colocar o Brasil no mesmo balaio de
Coréia, Indonésia e Rússia. "O investidor está
mais seletivo, mas não vai sair de vez dos emergentes. O
Brasil, para muita gente, ainda é uma boa opção",
afirma Mauro Schneider, economista-chefe do banco
holandês ING. O problema é que o país carrega
estampado na testa o rótulo de emergente, apesar de
todas as diferenças com seus companheiros de bloco. Ao
que tudo indica, a instabilidade nas bolsas deve
continuar por mais algum tempo. Neste ano, além do que
acontece no mundo, os operadores que compram e vendem
papéis brasileiros estarão atentos à eleição
presidencial. Outro ponto de preocupação está no
déficit público, na casa dos 6% do PIB. Nesse quesito,
o país corre o risco de provocar a desconfiança do
investidor estrangeiro. Ele está mais sensível do que
nunca.

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