|
|
![]() |
| Fotos:
Orlando Brito/Egberto Nogueira/Eneida Serrano/Sommer
Andrey/Raul Junior/ Gladstone Campos/Antonio Gauderio/Rogerio Montenegro/Yugo Koyama/Elze/ Nani Gois/Nico Esteves/Frederico Ferrite/Clodomir Bezerra |
| Foto: Jorge Rosenberg |
![]() |
| Antonio
Ermírio: o setentão reforma a empresa |
O empresário Antonio Ermírio de Moraes fará 70 anos na próxima quinta-feira com uma festa à sua moda conservadora. Reunirá a parentada, e só ela, para um jantar em sua mansão do Morumbi, bairro nobre de São Paulo. O riquíssimo Antonio Ermírio, cujo patrimônio pessoal é de 624 milhões de reais, tem novidades para apresentar. Ele e seu irmão mais velho, José, são os chefes do grupo Votorantim, maior corporação totalmente privada do país. Na semana passada, anunciaram que venderão ações de suas empresas com direito a voto nas bolsas de valores. Não disseram qual participação será oferecida aos novos sócios nem quanto dinheiro pretendem arrecadar. É uma virada e tanto na história da Votorantim, que completou oitenta anos de existência na última segunda-feira, com uma festança para 1.000 convidados. Até agora, a família Ermírio de Moraes não admitia sócios. Antonio Ermírio conta que quebrou a tradição para não perder o bonde. Quer o dinheiro dos novos sócios para avançar em negócios na área de energia elétrica e de petróleo com as próximas privatizações. "Eu não quero abraçar o mundo, mas se ficar parado o trator passa em cima de mim", diz o setentão enxuto, com 1,90 metro de altura, sempre metido em ternos de bom corte e tecido inglês, que ele nunca consegue manter abotoados.
Há uma mudança ainda mais interessante. Estudam-se na Votorantim associações com empresas estrangeiras, coisa impensável no passado. Antonio Ermírio explica essa mutação: o Brasil precisa de capital e de tecnologia estrangeira para se desenvolver. "Eu estou nesta. Sou nacionalista, mas não sou burro." O grupo dos que acham o capital estrangeiro uma coisa execrável perdeu seu principal estandarte. A Votorantim, um ícone do empresariado nacional, sem nenhuma pinta estrangeira em sua pele, já admite a miscigenação. Com isso, segue uma tendência comum a todas as corporações que estão jogando pesado no mercado global. Elas procuram sócios em outros países, fazem joint ventures, trocam tecnologias.
| "Não
tenho a intenção de abraçar o mundo, mas se
ficar parado um trator vai acabar passando por cima de mim" |
Há uma terceira alteração em andamento na Votorantim. A organização é formada por quarenta empresas, a maioria das quais já é dirigida pela quarta geração dos Ermírio de Moraes, formada pelos filhos de Antonio, José, Ermírio e Helena. Antonio foi o mais resistente, mas agora, embora tutele seus filhos a distância, só cuida mesmo da Companhia Brasileira de Alumínio, CBA. Era criticado pela comunidade dos consultores-reformadores de empresas por seu estilo centralizador, autocrático, mandão. Ele admite que está mais manso. "Durante dez anos preparei meus filhos para comandar as empresas. É hora de deixar que eles trabalhem sozinhos", conta. Sobrará mais tempo para sua nova paixão, escrever peças de teatro. Depois de Brasil S.A, peça encenada em 1996 e no início deste ano, há um novo trabalho pronto, descansando na gaveta. Ficará lá pelos próximos três meses, passará por uma revisão e deve ir para o palco no final de março do ano que vem. Desta vez é uma comédia, A Rainha Imexível, em que dois personagens, um general de pijama e um sindicalista aposentado, discutem a ditadura num quarto de hospital.
Antonio ainda não envergou o pijama e acha ofensiva a idéia de parar de trabalhar. Há 49 anos seu expediente é o mesmo. Acorda às 5 da manhã, chega ao escritório às 8 e não tem hora para sair. Numa sala desarrumada, decorada por mapas e pilhas de papel, ele confere obsessivamente contas de luz, extratos de banco e relatórios que não acabam mais. Mas, ultimamente, sinal das mutações que ocorrem na Votorantim, abre espaço na agenda para novos interesses. Está estudando astrologia. Anda lendo Machado de Assis (antes só lia livros técnicos) e tem até tirado férias. É um progresso para quem, na viagem de lua-de-mel, visitou seis metalúrgicas.
A reengenharia que está sendo feita na Votorantim tem o objetivo de torná-la centenária e mais forte. Que tenha chegado aos oitenta anos, com o seu porte, já é um feito. Todos os impérios fundados junto com ela, no começo do século, foram para o vidro de formol ou não têm mais expressão. Os Ermírio sobreviveram a ciclos e mais ciclos de mudança econômica enriquecendo sempre. É uma qualidade difícil de encontrar em qualquer dinastia empresarial do mundo. A Votorantim foi fundada em 1918 pelo avô de Antonio Ermírio, o sapateiro português Antônio Pereira Ignácio, em Sorocaba, no interior de São Paulo. Com o dinheiro que tinha, comprou uma tecelagem falida, que colocou para funcionar. Cinco anos depois, já estava rico e resolveu mudar de ramo. Viajou para os Estados Unidos, para aprender a fabricar óleo comestível.
Ignácio não se matriculou em escola. Empregou-se como operário numa empresa chamada Wilson North Carolina. De dia, disfarçado de trabalhador humilde, pegava no batente. À noite, ia a bons restaurantes e dormia em ótimos hotéis. Começou por baixo na indústria americana, mas foi sendo promovido e acabou tendo acesso a toda a tecnologia de produção do óleo. Quando foi nomeado chefe de um departamento, achou que já sabia o bastante. Convidou os diretores da empresa para jantar no seu hotel e deixou todos boquiabertos. Apareceu todo bem vestido, contou quem era e porque não aceitaria a nova promoção, e fechou a reunião com chave de ouro, devolvendo, em envelopes ainda fechados, todo o salário que lhe pagaram na temporada em que trabalhou na fábrica de óleo.
![]() |
| José
Ermírio, José Filho, Antônio Pereira Ignácio
e Antonio Ermírio (assinalados pela ordem), em 1950: as três gerações no início do império Votorantim, no interior de São Paulo |
Depois da aventura, Ignácio viajou para Portugal, onde conheceu um jovem engenheiro, José Ermírio de Moraes, que terminou se casando com sua filha, Helena. José Ermírio já carregava uma história incomum. Era filho de uma família de usineiros pernambucanos e poderia muito bem ter seguido a carreira de coronel do sertão. Mas foi estudar engenharia de minas nos Estados Unidos em 1916. Foi ele quem deu às empresas do sogro um novo rumo, que marca a Votorantim até hoje. Em vez de tecido e óleo, partiu para produtos como cimento, cerâmica e metalurgia. Os filhos já nasceram em berço de ouro, mas José Ermírio tinha dúvida a respeito do talento empresarial do segundo, Antônio. Com 7 anos, Antonio abriu uma gaveta do pai, pegou dinheiro e comprou um caminhão de laranjas. "Achei que fosse um bom negócio, mas meu pai, tropeçando em laranjas espalhadas pela casa, achou que não", lembra Antonio.
Nessa época, 1935, ele cruzou com um sobrenome mitológico na economia brasileira. Antonio Ermírio foi colega de Chiquinho Matarazzo, filho do conde Francisco Matarazzo. Chiquinho era um lorde. Chegava ao Liceu Rio Branco, uma das escolas mais tradicionais de São Paulo, de Rolls-Royce, acompanhado de uma governanta européia e carregando um lanche de frutas e bolos embrulhado num enorme guardanapo de linho inglês. Em 1935 cursava o 2º ano primário na mesma turma de Antonio Ermírio, que chegava à escola no Oldsmobile do pai. Eram os dois únicos alunos motorizados do Liceu Rio Branco. Houve um incidente com Chiquinho Matarazzo. Dono de um relógio muito bonito, ele fazia dinheiro alugando-o para outros colegas. A professora de Chiquinho, dona Soledade Santos, hoje com 92 anos de idade, lembra-se desse caso. O menino rico levou um pito da professora, mas o velho conde ficou muito entusiasmado. "Esse menino vai longe", disse o conde à professora.
Deu tudo ao contrário. Chiquinho já morreu e o grupo Matarazzo é composto atualmente de nove empresas, sete delas arrendadas. No apogeu eram 365. "Uma para cada dia do ano", conforme gostava de ostentar o fundador, conde Francisco Matarazzo. Os Matarazzo foram para o fundo, os Ermírio para o alto, liderados pelo comprador de laranjas e seus irmãos. A Votorantim emprega 30.000 pessoas. Tem dez fábricas de cimento, sete de papel e celulose e sete metalúrgicas, além de bancos, fábricas de suco, fazendas de reflorestamento, entre outros negócios.
![]() |
| O
casarão de Antonio em São Paulo ,
o casamento com Maria Regina (abaixo): há 27 herdeiros na quarta geração, todos casados e com filhos, todos preparados para administrar o grupo |
O
problema atual, e o mais sério no interior da
Votorantim, é entregar tudo isso aos 27 herdeiros da
quarta geração dos Ermírio de Moraes sem que o
império se desagregue. Já há um acordo informal sobre
as áreas de atuação de cada braço da família, mas os
Ermírio temem que esse acordo não seja respeitado no
futuro. Herdeiros de fortunas normalmente brigam entre si
por causa do dinheiro. No caso dos Ermírio, além do
dinheiro, há um outro ingrediente. Dos 27, um bom time
foi treinado pelos pais para exercer o comando da
corporação, e muitas vezes seus integrantes entram em
choque. Com a Votorantim ainda nas mãos de Antonio e
José, esses conflitos são diplomaticamente acomodados.
"Nós nos reunimos toda semana para tentar manter o
bom entendimento da família", diz Antonio.
Ele nasceu em São Paulo, em 1928, com um único rim, mas só descobriu o defeito aos 20 anos, quando se formava engenheiro metalúrgico pela Universidade de Colúmbia. Na verdade, queria especializar-se em petróleo. Depois do primeiro ano de curso foi dissuadido pelo pai, em uma carta. Falava-se, no Brasil, na criação de uma estatal para a exploração de petróleo. "Se você quiser ser funcionário público, continue esse curso", avisou José Ermírio de Moraes. Quando voltou dos Estados Unidos já era, na prática, o sucessor do pai no comando das empresas. José Ermírio de Moraes Filho, engenheiro de minas, sempre trabalhou num ritmo mais brando.
| "Formar um sucessor leva dez
anos. Nós nos reunimos todas semana para tentar manter a harmonia da família" |
Para o irmão Antonio, o trabalho é uma espécie de fato central da vida, uma idéia fixa. Dedica doze horas por semana, gratuitamente, a uma coisa muito aborrecida: a administração do hospital Beneficência Portuguesa, um dos maiores e mais modernos da América Latina. A Beneficência é uma espécie de herança que recebeu de seu pai. Antes de morrer, José Ermírio de Moraes pediu ao filho que assumisse a administração do hospital, uma função que fora sua por muitos anos. Na família Ermírio de Moraes é assim. Hoje, Mário, filho de Antonio, está sendo iniciado na arte da administração hospitalar.
O temperamento é afável, a polidez vai ao ponto de chamar de senhor ou senhora pessoas muito mais novas, não habituadas a esse cerimonial. Mas a veia da testa às vezes salta quando acha que foi tratado sem a devida consideração. Em 1986 candidatou-se pelo PTB ao governo de São Paulo, perdendo para o candidato do PMDB, Orestes Quércia. Durante o período da campanha para governador, Jânio Quadros, então prefeito de São Paulo, pelo PTB, o partido de Ermírio, não apoiava a candidatura do empresário. Um dia, disse aos jornalistas que Antonio Ermírio não ganharia as eleições porque era ingênuo, não era um político. Antonio Ermírio não demorou a dar a resposta, pessoalmente. No casamento da filha de outro político petebista, Gastone Righi, Ermírio e Jânio eram padrinhos numa cerimônia cheia de pompa na igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo. Antonio Ermírio cercou Jânio na sacristia. Falou tão alto que as outras pessoas que estavam na sala saíram. "Sou novato em política, mas não sou retardado mental e não admito que me chamem de ingênuo", disse. Os dois quase saíram no tapa.
Outro episódio em que Antonio saiu do sério ocorreu três anos depois. O secretário de Segurança de São Paulo, Luiz Antonio Fleury Filho, ficou sabendo que um presidiário confessara que estava em andamento um plano para seqüestrar Antonio Ermírio. Chamou o empresário e contou a ele. Antonio Ermírio achou a polícia meio lenta para resolver o problema e resolveu agir. Foi ao presídio, informou-se sobre quem estava tramando seu seqüestro e saiu atrás do homem. Soube que era um funcionário do Lanifício Vidal, um cliente da Votorantim. No lanifício, encontrou o suposto seqüestrador e o peitou: "Se alguma coisa acontecer comigo ou com a minha família não vai sobrar ninguém vivo na sua família". O homem tremeu. "O que eu podia fazer? Esperar que o homem agisse?", pergunta Antonio, quando recorda a história.
A derrota na eleição de 1986 provocou uma mudança no empresário. Foi nessa época que ele largou os livros técnicos, passou a se interessar pelo movimento dos astros e pelo teatro. O teatro é o seu novo brinquedo e o ambiente dos atores o impressionou. "Com eles, Antonio fica bem-humorado, descontraído", declara o economista José Pastore, o único amigo que freqüenta a casa de Ermírio. Quando a peça Brasil S.A foi encenada em São Paulo, há dois anos, Antonio comparecia aos bastidores do teatro carregando uma bandeja de salgadinhos para os atores, que o apelidaram de "menino da pizza". Era tamanho o entusiasmo, nesse ano, que seu aniversário foi pela primeira vez comemorado numa fazenda junto com o elenco. Os que conhecem o sisudo Ermírio não acreditaram. Ele se divertia como criança, no meio de balões coloridos, chapeuzinhos de papel e línguas-de-sogra.
Uma variedade de críticas corre à meia voz sobre Antonio Ermírio. A maioria diz respeito à sua inflexibilidade ou ao seu autoritarismo, e há bastante razão nessas observações. Prova disso é que ele não conseguiu montar uma associação capaz de comprar a Companhia Vale do Rio Doce, porque queria ser o chefe principal. Também não conseguiu fazer alianças quando se candidatou ao governo de São Paulo. Os críticos citam como exemplo a maneira como ele conduz a Votorantim. Centralizador como é, não conseguiria produzir sucessores, é o que dizem. Fala-se também, com freqüência, que é um homem arcaico. O anúncio de que a Votorantim jogará suas fichas na bolsa de valores e aceitará sócios na mesa da diretoria mostra que o setentão Antonio é capaz de virar o jogo. É tradição. Seus dois antecessores no comando da corporação fizeram o mesmo no passado, e por isso ela não desapareceu como os outros gigantes do começo do século.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |