Briga de galo

O caso Romário mostra que o comando da
seleção não se entende numa questão crucial

Maurício Cardoso, de Ozoir-la-Ferrière

O coordenador Zico e o técnico Zagallo: as
divergências vão do carteado às convocações

O jogo nem começou, mas uma bola dividida pegou a seleção brasileira batendo cabeça. Desta vez, a culpa não foi do atual goleiro reserva Dida e do zagueiro Aldair, como nas Olimpíadas, mas de toda a comissão técnica, que se desentende diante de uma questão crucial: a contusão do artilheiro Romário. Desde a chegada em Teresópolis (RJ) dos primeiros convocados, dia 12 de maio, o atacante não tem conseguido treinar. Ele está com uma contusão na perna direita. No início, o técnico Zagallo achou que era "manha" do jogador, cuja aversão por treinamentos físicos é tão forte quanto seu apetite pelo gol. O coordenador Zico sempre demonstrou pensar o contrário. Para ele, o problema de Romário seria a reedição de antigos pesadelos provocados por atacantes que foram à Copa sem estar aptos a jogar. O exemplo mais lembrado é o do próprio Zico, em 1986, quando perdeu, por falta de ritmo, um pênalti decisivo na partida em que a França eliminou o Brasil. "Nem Romário nem qualquer outro jogador será cortado", afirmou o médico da seleção, Lídio Toledo, entrando na rinha em que Zagallo começava a se estranhar com Zico, chamado de "Galinho" quando vestia a camisa 10 do Flamengo.

Com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, fora de combate em função de uma cirurgia no apêndice, os ânimos se atiçaram ao ser revelado que Romário estava se queixando de Zico, que segundo ele faz campanha para cortá-lo do elenco. A história foi tornada pública pelo colunista Juca Kfouri, da Folha de S.Paulo. "Não tenho nada contra Romário e já esclareci isso a ele", disse Zico a VEJA na tarde de sexta-feira. "Mas tenho minha posição sobre o caso", acrescentou, deixando no ar que não é a mesma de Zagallo, que no mesmo dia garantiu a presença de Romário entre os 22 jogadores que serão oficialmente inscritos no Mundial nesta terça-feira. A relação de Romário com os dois é tumultuada. Zagallo ficou quase três anos sem chamá-lo para a seleção. Zico, que criticou algumas atuações do jogador, foi chamado por ele de "perdedor".

Romário, contundido e
sem treinar: lembranças
de antigos pesadelos
Fotos: Paulo Jares  

Entre o técnico e o coordenador, há diferenças desde que este foi convidado para o cargo. "Zico é o representante do presidente da CBF na comissão técnica", garante um amigo de Teixeira. O Galinho se impôs ao mostrar-se contrário à convocação do meia Juninho, defendida por Zagallo, mas foi vencido quando quis proibir o carteado entre os jogadores. Neste ponto, eles se entenderam. À noite, na concentração, costumam jogar buraco, cada qual com seu parceiro. Falta acertarem-se em relação a Romário. Uma das dificuldades é que até mesmo o diagnóstico de sua lesão provoca controvérsias. No início era uma contratura muscular, depois passou a ser apenas dores musculares e por fim derivou para um edema na panturrilha. "Edema é conseqüência de uma contusão, mas no caso de Romário não foi possível constatar sua origem", diz o preparador físico Paulo Paixão. Com a barba por fazer, Romário tem-se submetido a sessões de exercícios numa bicicleta ergométrica e na piscina de uma clínica nas imediações da concentração do Brasil em Lésigny, a 20 quilômetros de Paris. Paixão acredita que esses exercícios darão a Romário condicionamento físico para que volte a jogar tão logo se recupere clinicamente. Na opinião do presidente do Flamengo, Kléber Leite, existe uma relação entre os problemas musculares do principal jogador de seu clube e o hobby preferido do craque: o futevôlei. Quando está no Rio de Janeiro, ele chega a jogar dez partidas por dia nas areias da Barra da Tijuca. "Romário não tem mais 20 anos", lembra Leite. "Aos 32, precisa tomar mais cuidado e administrar melhor a vida. Mas ele é muito fominha e vai fazer tudo para se recuperar."

Com reportagem de Roberta Paixão
e Sérgio Ruiz Luz




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