Um mergulho no
mar brasileiro

Feira Mundial de Lisboa expõe riquezas do oceano

Maurício Cardoso, de Lisboa, e Glenda Mezarobba

Dono de 8.000 quilômetros de costa atlântica, o Brasil sempre celebrou suas praias, o sol, os corpos desnudos. Chegou a vez de olhar com mais atenção para as riquezas ocultas sob as águas das 200 milhas marítimas que envolvem todo esse litoral. O pretexto é a inauguração da Exposição Mundial de Lisboa, a Expo-98, que adotou como tema "Os Oceanos, um Patrimônio para o Futuro". Inaugurada no dia 22 de maio às margens do Rio Tejo, no ponto de onde Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral se lançaram à conquista dos mares, há 500 anos, a exposição tem como objetivo fazer com que o mundo se volte para seus oceanos. Desta vez, menos como rota de passagem e mais como fonte de riquezas e vida a ser preservada. Com um estande vistoso na feira, o Brasil apresentará, pela primeira vez em Lisboa, os mais completos levantamentos sobre a fauna e topografia de suas profundezas submarinas. Ao contrário de regiões oceânicas como o Mar do Norte, na Europa, em que poucas espécies de peixes são encontradas em grandes quantidades, o mar brasileiro é fértil em diversidade e não em estoques. Tem peixes de muitas espécies mas, no total, poucos peixes. "Essa é uma das características mais impressionantes do nosso Atlântico", observa o professor Edmundo Nonato, especialista em biologia dos fundos marinhos. É uma riqueza ainda em grande parte desconhecida, mas que os cientistas têm motivos para acreditar ser tão valiosa quanto a contida na Floresta Amazônica (veja alguns exemplos ilustrando esta reportagem).

A Expo-98 e o Pavilhão
do Futuro
(à esq.): uma
disneylândia aquática
para mostrar a importância
dos mares e ajudar
a preservar espécies
animais e vegetais
ameaçadas de extinção
antes mesmo de ser
catalogadas
Foto: Gustavo Moura/Reflexo  

Estimativas da Unesco indicam que 80% da biodiversidade mundial está no mar, uma superfície contínua que cobre dois terços do planeta e responde pela produção de 80% do oxigênio em circulação na atmosfera. Nesse caldo de vida, o relevo submarino brasileiro, oscilando entre profundidades de não mais que 200 metros, nas proximidades das praias, e abismos oceânicos — precipícios de 6000 metros —, favoreceu o surgimento de espécies novas e diferenciadas. A colisão, por força das correntes marítimas, das águas profundas com a encosta da plataforma costeira do país gera um suco rico em nutrientes para os animais aquáticos, ao mesmo tempo que as diferenças de pressão e temperatura oceânicas servem como barreira geográfica entre espécies distintas. Impede-se assim que, na luta pela sobrevivência, uma espécie vivendo numa cota oceânica ataque e leve à extinção outra espécie, que viva sob outras pressões e temperaturas. Esses ecossistemas comportam ainda mais variantes porque o fundo do mar brasileiro é enriquecido por cadeias de montanhas de mais de 600 quilômetros de extensão, como a Vitória—Trindade, que está localizada na região entre o Espírito Santo e o Rio de Janeiro (veja quadro). É o mesmo fenômeno que ocorre numa montanha a céu aberto, que permite a instalação de espécies diferentes segundo a altitude.

Limpador Facilmente identificado, o limpador
leva a vida comendo parasitas e limpando as
feridas dos demais peixes. Isso o obriga, muitas
vezes, a entrar na boca de espécies carnívoras.
Mede cerca de 4,5 centímetros e pode ser
encontrado em boa parte do litoral
Fotos: Maristela Colucci/Reflexo  
Coió Costeiro, o coió vive em fundos de
areia e cascalho. Suas nadadeiras ventrais
permitem que ele se movimente para a frente
e para trás, o que facilita a captura de crustáceos.
Possui a cabeça espinhenta e, quando
assustado, abre suas nadadeiras peitorais
para intimidar seus predadores
Moréia Este peixe vive em fundos rochosos
e costuma passar seus dias apenas com a
cabeça para fora da toca. À noite, quando sai
para se alimentar, prefere peixes e crustáceos.
Agressivo, quando é perturbado ou se sente
acuado, pode até morder. Não é venenoso
Corcoroca e fogueira Freqüentemente encontrado em beira de praias, baías e estuários, o corcoroca gosta de formar cardumes. Junto desses grupos costuma estar o fogueira, que leva esse nome devido à sua cor avermelhada. Cobiçado pelos aquaristas, alimenta-se de crustáceos

Autocrítica — O interesse recente sobre as riquezas marinhas, entre as quais as brasileiras, deriva de uma autocrítica. Até bem pouco tempo atrás, o pensamento dominante era de que o mar, por ser tão extenso, era capaz de absorver todos os impactos da ação humana. Não é assim. A pesca e a navegação ganharam dimensões industriais (todo ano são 90 milhões de toneladas de peixes extraídas do mar), ameaçando viveiros naturais de espécies. A extração e o transporte de petróleo cresceram brutalmente, já respondendo por 30% de toda a produção mundial. Na mesma proporção cresceu a poluição decorrente dessa exploração. Defensivos e fertilizantes químicos empregados na agricultura também destroem a fauna e flora marinhas, porque acabam depositados nos oceanos pela ação das chuvas que lavam os solos. Além disso, a ocupação costeira aumentou desordenadamente. Cidades e povoados ocupam as vizinhanças da água numa extensão crescente. O resultado é que desapareceram muitos lugares antes usados como berçários de muitas espécies. Exemplos de espécies em perigo por essa razão são as tartarugas marinhas e muitas variantes de peixes. "Estamos percebendo que os oceanos são muito vulneráveis à ação do homem e precisamos controlar sua exploração e bloquear sua degradação", explica o biólogo português Mário Ruivo, principal cabeça científica da Comissão Mundial Independente dos Mares.

Golfinho de dentes rugosos Robusto e forte, o golfinho de dentes rugosos tem a dentição marcada por pequenas estrias longitudinais. Apesar de ser considerado típico de águas oceânicas, no Brasil vem sendo observado com freqüência
em áreas costeiras
Fotos: Bia Hetzel/André Alves/Carlos Goldgrub/Reflexo  
Tartaruga-verde Das sete espécies de tartarugas existentes em todo o mundo, cinco vivem e se reproduzem no Brasil. Exploradas durante décadas, hoje elas lutam contra a extinção. A cada 1.000 nascimentos, apenas uma ou duas sobrevivem
Peixe-boi Especialistas estimam
que no Brasil existam apenas 400
espécimes desses mamíferos de
hábitos solitários. Quando adultos esses
animais chegam a pesar 700 quilos

No caso do mar brasileiro, esses riscos são potencializados. Como acontece com a Floresta Amazônica, corre-se o risco de assistir à extinção de espécies que nem sequer são conhecidas ainda. Mesmo o Japão, país considerado o mais desenvolvido nas pesquisas sobre a biologia marinha, só conseguiu identificar até agora 3.000 substâncias farmacêuticas ativas de animais e plantas marinhos. Ninguém duvida de que poderia ser muito mais. A flora e a fauna submarinas — estima-se que existam mais de 25.000 espécies distintas de algas — podem fornecer grandes contribuições à medicina. Já são usadas na fabricação de cosméticos e em medicamentos anticoagulantes e anticolesterol. Pesquisas sobre o câncer estão sendo feitas a partir do ouriço-do-mar, já que as células de seus ovos se reproduzem de forma semelhante à observada na evolução de tumores.

Piraúna Este peixe vive entre corais e
rochas, debaixo de lajes ou em tocas, que
costumam ser amplas. Pode mudar de cor
rapidamente e medir até 40 centímetros
Fotos: Maristela Colucci/Reflexo  
Jaguareçá Produz sons para afugentar
invasores e os espinhos de algumas espécies
contêm toxinas. Vive em corais e recifes e
costuma sair à noite para caçar
Mulata Vive próximo a recifes de
coral e costões e costuma permitir a
aproximação de mergulhadores. Ao
pressentir uma ameaça, busca
refúgio entre as pedras

Os cientistas apontam formas novas para entender a importância dos mares e sugerem como preservá-los, mas sabem que nunca conseguirão aprofundar suas pesquisas se não ganharem o apoio da opinião pública mundial. É para isso que serve a Expo-98, onde o Brasil comparece com um estande que está entre os maiores. Logo na entrada, o visitante atravessa uma cascata de pedras caminhando sobre um piso de vidro que cobre o leito pedregoso de um rio. O chão do pavilhão reproduz o levantamento topográfico do país feito a partir de fotos de satélite. No seu conjunto, a exposição tem atrações inesquecíveis. Não há como não se maravilhar com o projeto futurista do arquiteto americano Peter Chermayeff, um veterano no design de parques oceânicos.

A grande vedete é o Pavilhão dos Oceanos, um conjunto de cinco aquários gigantes — o maior com volume de água equivalente ao de quatro piscinas olímpicas — em que foram alojados 15.000 animais marinhos pertencentes a 200 espécies encontradas nos quatro oceanos. Através de janelas abertas nessas piscinas os visitantes podem observar as belezas submarinas. Outros três pavilhões completam o resumo temático da exposição. O Pavilhão do Conhecimento dos Mares conta a história das conquistas marítimas. Nele estão representadas das viagens dos grandes descobridores do século XVI às expedições científicas de sábios como Charles Darwin, que navegou pelo mundo em busca das evidências que o levaram à construção da teoria da evolução das espécies. O Pavilhão de Portugal se concentra na saga lusitana e o Pavilhão do Futuro é dedicado às potencialidades e à preservação dos oceanos. Desse jeito, com certeza, os mares nunca dantes foram navegados. Sorte de quem puder comparecer. Vai até o final de setembro.

 

 

Consultoria: José Lima de Figueiredo/Museu de Zoologia da USP




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