| |
Na casa do barão
Recuperadas,
as antigas fazendas de café do
Rio de Janeiro abrem as portas a visitantes
Roberta
Paixão
 |

Fazenda do Arvoredo
(à esq.)
e a Casa da Hera: como
nos velhos tempos |
| Fotos:
Renan Cepeda |
|
Província do Rio de Janeiro, 18 de
setembro de 1884. As mucamas prepararam durante dias o
jantar que o barão de Vassouras, dono da Fazenda
Cachoeira, ofereceu nessa noite. Os homenageados foram o
conde D'Eu e sua mulher, a princesa Isabel, filha do
imperador dom Pedro II, então de passagem pela região
do Vale do Paraíba. As louças de porcelana francesa
foram lustradas, a rouparia branca passada e todos os
cuidados tomados a fim de tornar o encontro memorável.
Para acompanhar o repasto, foram servidos oito tipos de
bebida, entre elas garrafas de vinho francês Château
Yquem (como era ainda chamado o atual Château d' Yquem).
Havia 27 pratos, alguns batizados com nomes de santos e
dos convidados: o ponche era "au conde D'Eu" e
o palmito fazia as honras ao próprio anfitrião. O menu
era manuscrito em francês, mas as iguarias de europeu
só tinham o sotaque. Traduzindo o cardápio, ali se
encontravam ingredientes brasileiríssimos como lombinho
e feijão-preto. O episódio foi exemplar quanto ao
requinte típico das grandes fazendas de café no Rio de
Janeiro em sua época de ouro. Pena para o barão que os
convidados tenham ajudado a selar a ruína de sua
fazenda. Pois foi a Lei Áurea, com a qual a princesa
Isabel aboliu a escravidão quatro anos depois, que
começou a decadência econômica dos grandes
proprietários em terras fluminenses.
Quase 114 anos mais
tarde, a casa de 22 cômodos da Fazenda Cachoeira está
abrindo de novo os seus seis salões. Em vez do conde
D'Eu e da princesa, os convidados são os turistas.
Restaurada e pintada de rosa, a Cachoeira é uma das 25
antigas fazendas de café abertas ao público no Vale do
Paraíba. A partir desta semana, roteiros organizados por
agências de turismo permitem viagens monitoradas por
guias que mostram seus quartos e salões com mobiliário,
arte e decoração de época. Três das fazendas foram
transformadas em pousadas. Comprada em 1900 pelo conde
João Modesto Leal, a Ponte Alta, em Barra do Piraí,
hospedou cinco vezes o ex-presidente Getúlio Vargas, que
era amigo da família. Na década de 60, foi vendida para
a executiva Nellie Pascoli, do grupo Caemi, que morreu em
1982, passando a propriedade para seus sobrinhos. Hoje,
os hóspedes pernoitam no lugar onde ficava a antiga
senzala. As refeições são feitas na antiga casa do
engenho e a principal atividade são os passeios a
cavalo. Na Fazenda do Arvoredo, pode-se ficar em um
quarto com mobiliário francês do século passado e
saborear uma típica comida mineira feita no fogão a
lenha original. A Fazenda São Policarpo, que possui
objetos antigos como uma coleção de porcelana
portuguesa do século passado, só recebe seis casais por
vez nos quartos dentro da casa-grande.
Mesmo as fazendas
onde não existe hospedagem valem a visita. A São
Fernando, do deputado federal Ronaldo Cezar Coelho, está
há dez anos sob os cuidados de arqueólogos, arquitetos
e historiadores e possui 300 móveis e outros objetos do
século XIX. A Casa da Hera, antiga chácara no
município de Vassouras, foi transformada em museu, com
roupas e objetos do século passado. Nas fazendas do
Arvoredo e Campo Alegre, as funcionárias são
paramentadas como as antigas mucamas. Ao chegar, os
visitantes são recebidos por negros que cantam e dançam
como os antigos escravos. A exemplo dos castelos do Vale
do Loire, no sul da França, elas procuram transportar os
visitantes para a época de seu apogeu. Como os engenhos
de açúcar no Nordeste e as cidades mineiras do ciclo do
ouro, as fazendas fluminenses ajudam a contar a maneira
como as pessoas viviam no passado. A corte portuguesa,
instalada no Rio desde 1808, estimulou a transferência
da nobreza rural para a região dos municípios de Barra
do Piraí, Vassouras, Valença e Rio das Flores. "Os
fazendeiros traziam para o Brasil tudo o que havia de
melhor da Europa, dos tecidos de parede e móveis aos
arquitetos e marceneiros", conta a arquiteta Isabel
Rocha, diretora do Museu Casa da Hera. Algumas fazendas
chegaram a ter 5.000 hectares, mas foram divididas entre
herdeiros ou vendidas aos pedaços. "Ao contrário
do século XVIII, quando os barões mediam sua riqueza
pelo tamanho da terra, hoje são as casas que valorizam a
propriedade", diz o corretor Artur Mário Viana, que
intermediou a venda de vinte fazendas a empresários. Nas
mãos dessa nova classe, elas foram restauradas,
resgataram o seu ar aristocrático e hoje custam até 5
milhões de reais.

|
|