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![]() Fotos: Liane Neves Vilson a caráter em uma festa gaúcha, seus pais com a irmã, e a viúva, Aristotelina (abaixo): enforcamento foi a saída para a vergonha de ter engravidado uma menor |
O sol ainda não havia espantado a
friagem da madrugada, mas o céu azul prometia um domingo
de inverno especial na fronteira do Brasil com o Uruguai.
Pouco depois de acordar, o agricultor Darci Nunes de
Macedo, de 36 anos, calçou suas lustrosas botas de couro
preto, vestiu calças largas à moda gaúcha e uma camisa
branca. Para completar, amarrou um lenço branco no
pescoço. Naquele dia não iria trabalhar na colheita de
arroz nem matar um dos bois do seu rebanho para faturar
um dinheiro extra. Montou seu cavalo preferido e cavalgou
10 quilômetros até o Centro de Tradições Gaúchas
Oswaldo Aranha, em Alegrete, a 464 quilômetros de Porto
Alegre. Encontrou-se com os amigos para tomar chimarrão.
Também bebeu um pouco de cachaça e, mais tarde,
resolveu disputar uma corrida a cavalo. Perdeu. Voltou
para casa no começo da noite e se fechou em um galpão
anexo à casa dos pais, onde costumava dormir. Foi então
que começou o ritual. O agricultor pegou a sela de seu
cavalo, prendeu o cabresto de couro em uma viga de
madeira no telhado e fez um laço com uma circunferência
do tamanho de sua cabeça. Não houve gritos. Nem
bilhetes chorosos ou cartas rancorosas. Darci enforcou-se
em silêncio.
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| Darci: morte
silenciosa depois de perder na corrida de cavalos e ser desprezado pelas mulheres |
A morte trágica e premeditada de Darci integra uma estatística peculiar que se avoluma no interior do Rio Grande do Sul. A taxa estadual de doze suicídios para cada grupo de 100.000 habitantes (veja quadro) é mais do que o dobro da registrada em São Paulo, historicamente um dos campeões de incidência desse tipo de morte no país. A liderança gaúcha ocorre porque é cada vez maior o número de homens acima dos 30 anos, de origem rural, em geral solteiros, que se suicidam por enforcamento. Além da tipologia peculiar, o suicídio gaúcho obedece a uma circunscrição geográfica. Ele predomina nos pampas, uma faixa de 100 quilômetros quadrados que acompanha a fronteira do Brasil com a Argentina e o Uruguai. Na região, os índices de suicídio se equiparam às maiores médias mundiais, de quarenta casos para cada grupo de 90.000 pessoas uma estatística semelhante à observada nos Estados Unidos e na Suécia. O assunto tem despertado a atenção de autoridades e pesquisadores. "É a síndrome do suicídio campeiro", diz a antropóloga gaúcha Ondina Fachel Leal, autora de uma tese de doutorado sobre o tema.
O fenômeno tem uma motivação cultural e já foi incorporado pela literatura gaúcha (leia trecho do poema "Relato do Enforcado"). Nos pampas, a morte está presente no cotidiano. Os animais consumidos nas fazendas são abatidos lá mesmo. As geadas no inverno reduzem as pastagens, matando o gado. Um animal doente deve ser sacrificado. "Como o ambiente ao redor é violento, os homens adquirem uma têmpera especial. Aprendem desde cedo que para sobreviver devem cultivar sua masculinidade", diz o médico e escritor gaúcho Moacyr Scliar. Os homens se acham viris, imbatíveis. Em uma palavra, gaúchos. "Mas essa história muda quando os sinais da velhice, as doenças e os desvios morais colocam a essência masculina em xeque", diz Ondina. Abre-se a trilha para o suicídio, como ocorreu com Darci. "Nos últimos tempos, quando ia aos bailes, as mulheres já não queriam dançar com o Darci", conta o cunhado Ari Oliveira de Souza. "Vai ver, já estava fraquejando com as moças."
"Com o chapéu bem
tapeado, bem preso no barbicacho, cerrou nos
queixos o crioulo, |
Mulherengo Quando a honra é ameaçada, vale o mesmo raciocínio. Depois de engravidar uma menor, o motorista Vilson Marzulo, de 40 anos, deparou com o medo. Temia uma vingança que poderia colocar a esposa, Aristotelina Marzulo, e as duas filhas em perigo. O notório mulherengo de Alegrete pensava em fugir porque se sentia fraco, acuado. Tentou descobrir o endereço de um primo no Tocantins, mas não conseguiu. Quis sair do emprego, mas o chefe recusou-se a demiti-lo. Sem conseguir desvencilhar-se do que considerava um atentado a sua dignidade, Vilson acabou seguindo a tradição. Suicidou-se à sombra de uma paineira, enforcado com uma corda de náilon branca usada para imobilizar as vacas leiteiras durante a ordenha. "Foi uma maneira de ele salvar sua honra", diz o pai, Darci Marzulo, gaúcho típico que ainda assim admite ficar com os olhos cheios d'água.
Fora dos pampas, o suicídio tem outras formas e motivações. Em Venâncio Aires, tradicional região gaúcha produtora de fumo, por exemplo, o alto número de mortes, suspeitam os especialistas, deve-se à intoxicação por organofosforados, químicos presentes nos agrotóxicos. Segundo os médicos, essas substâncias desencadeiam problemas neurológicos que resultariam nos óbitos. A tragédia dos pampas também é diferente dos suicídios comuns entre adolescentes, que em geral ocorrem nas grandes cidades e são fruto da imaturidade para lidar com os dilemas da idade adulta que se aproxima. Nada a ver, também, com a morte súbita de drogados, desempregados e falidos. O caso que mais se assemelha ao fenômeno gaúcho é o do haraquiri japonês. Os homens são impelidos a rasgar o próprio abdome a faca. O ato supremo é visto como a única saída honrosa diante de um fracasso pessoal ou profissional e se perpetua desde os tempos dos samurais do Japão feudal.
Com reportagem de Eduardo Salgado, de Alegrete
Copyright © 1998, Abril
S.A. |