Em nome da honra

Peso da tradição leva gaúchos ao suicídio

Eduardo Junqueira


Fotos: Liane Neves
Vilson a caráter em uma festa
gaúcha, seus pais com a irmã,
e a viúva, Aristotelina (
abaixo):
enforcamento foi a saída
para a vergonha de ter
engravidado uma menor

O sol ainda não havia espantado a friagem da madrugada, mas o céu azul prometia um domingo de inverno especial na fronteira do Brasil com o Uruguai. Pouco depois de acordar, o agricultor Darci Nunes de Macedo, de 36 anos, calçou suas lustrosas botas de couro preto, vestiu calças largas à moda gaúcha e uma camisa branca. Para completar, amarrou um lenço branco no pescoço. Naquele dia não iria trabalhar na colheita de arroz nem matar um dos bois do seu rebanho para faturar um dinheiro extra. Montou seu cavalo preferido e cavalgou 10 quilômetros até o Centro de Tradições Gaúchas Oswaldo Aranha, em Alegrete, a 464 quilômetros de Porto Alegre. Encontrou-se com os amigos para tomar chimarrão. Também bebeu um pouco de cachaça e, mais tarde, resolveu disputar uma corrida a cavalo. Perdeu. Voltou para casa no começo da noite e se fechou em um galpão anexo à casa dos pais, onde costumava dormir. Foi então que começou o ritual. O agricultor pegou a sela de seu cavalo, prendeu o cabresto de couro em uma viga de madeira no telhado e fez um laço com uma circunferência do tamanho de sua cabeça. Não houve gritos. Nem bilhetes chorosos ou cartas rancorosas. Darci enforcou-se em silêncio.

Darci: morte silenciosa
depois de perder na
corrida de cavalos e
ser desprezado
pelas mulheres

A morte trágica e premeditada de Darci integra uma estatística peculiar que se avoluma no interior do Rio Grande do Sul. A taxa estadual de doze suicídios para cada grupo de 100.000 habitantes (veja quadro) é mais do que o dobro da registrada em São Paulo, historicamente um dos campeões de incidência desse tipo de morte no país. A liderança gaúcha ocorre porque é cada vez maior o número de homens acima dos 30 anos, de origem rural, em geral solteiros, que se suicidam por enforcamento. Além da tipologia peculiar, o suicídio gaúcho obedece a uma circunscrição geográfica. Ele predomina nos pampas, uma faixa de 100 quilômetros quadrados que acompanha a fronteira do Brasil com a Argentina e o Uruguai. Na região, os índices de suicídio se equiparam às maiores médias mundiais, de quarenta casos para cada grupo de 90.000 pessoas — uma estatística semelhante à observada nos Estados Unidos e na Suécia. O assunto tem despertado a atenção de autoridades e pesquisadores. "É a síndrome do suicídio campeiro", diz a antropóloga gaúcha Ondina Fachel Leal, autora de uma tese de doutorado sobre o tema.

O fenômeno tem uma motivação cultural e já foi incorporado pela literatura gaúcha (leia trecho do poema "Relato do Enforcado"). Nos pampas, a morte está presente no cotidiano. Os animais consumidos nas fazendas são abatidos lá mesmo. As geadas no inverno reduzem as pastagens, matando o gado. Um animal doente deve ser sacrificado. "Como o ambiente ao redor é violento, os homens adquirem uma têmpera especial. Aprendem desde cedo que para sobreviver devem cultivar sua masculinidade", diz o médico e escritor gaúcho Moacyr Scliar. Os homens se acham viris, imbatíveis. Em uma palavra, gaúchos. "Mas essa história muda quando os sinais da velhice, as doenças e os desvios morais colocam a essência masculina em xeque", diz Ondina. Abre-se a trilha para o suicídio, como ocorreu com Darci. "Nos últimos tempos, quando ia aos bailes, as mulheres já não queriam dançar com o Darci", conta o cunhado Ari Oliveira de Souza. "Vai ver, já estava fraquejando com as moças."

"Com o chapéu bem tapeado, bem preso no barbicacho, cerrou nos queixos o crioulo,
e resvalou-se com jeito,
para ser estrangulado."
Relato do Enforcado,
de Aureliano de Figueiredo Pinto

Mulherengo — Quando a honra é ameaçada, vale o mesmo raciocínio. Depois de engravidar uma menor, o motorista Vilson Marzulo, de 40 anos, deparou com o medo. Temia uma vingança que poderia colocar a esposa, Aristotelina Marzulo, e as duas filhas em perigo. O notório mulherengo de Alegrete pensava em fugir porque se sentia fraco, acuado. Tentou descobrir o endereço de um primo no Tocantins, mas não conseguiu. Quis sair do emprego, mas o chefe recusou-se a demiti-lo. Sem conseguir desvencilhar-se do que considerava um atentado a sua dignidade, Vilson acabou seguindo a tradição. Suicidou-se à sombra de uma paineira, enforcado com uma corda de náilon branca usada para imobilizar as vacas leiteiras durante a ordenha. "Foi uma maneira de ele salvar sua honra", diz o pai, Darci Marzulo, gaúcho típico que ainda assim admite ficar com os olhos cheios d'água.

Fora dos pampas, o suicídio tem outras formas e motivações. Em Venâncio Aires, tradicional região gaúcha produtora de fumo, por exemplo, o alto número de mortes, suspeitam os especialistas, deve-se à intoxicação por organofosforados, químicos presentes nos agrotóxicos. Segundo os médicos, essas substâncias desencadeiam problemas neurológicos que resultariam nos óbitos. A tragédia dos pampas também é diferente dos suicídios comuns entre adolescentes, que em geral ocorrem nas grandes cidades e são fruto da imaturidade para lidar com os dilemas da idade adulta que se aproxima. Nada a ver, também, com a morte súbita de drogados, desempregados e falidos. O caso que mais se assemelha ao fenômeno gaúcho é o do haraquiri japonês. Os homens são impelidos a rasgar o próprio abdome a faca. O ato supremo é visto como a única saída honrosa diante de um fracasso pessoal ou profissional e se perpetua desde os tempos dos samurais do Japão feudal.

Com reportagem de Eduardo Salgado, de Alegrete




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