O Canadá se abriu e...

...saiu premiado quando aceitou o risco da globalização

Eurípedes Alcântara, de Ottawa

Uma sessão do Parlamento canadense em Ottawa, a capital do país, na semana passada, dava sono. Discutia-se educadamente a grande questão nacional: como indenizar os pacientes que contraíram hepatite C em transfusões de sangue nos hospitais públicos. Nas ruas, a péssima fase do time de hóquei local, os Senators, e o calor precoce da primavera mais quente em muitos anos também não animavam muito as conversas. Especulava-se sobre quantos ursos vão sair das florestas e passear pelas ruas da cidade neste ano. A média é de quinze por estação. No ano passado foram avistados 63. Dois deles chegaram até as portas do imponente prédio gótico do Parlamento. "Este é o sonho de toda autoridade monetária. Discursos sonolentos e calmaria", dizia Gordon Thiessen, presidente do banco central canadense. O Canadá voltou a merecer a fama de ser um país à procura de um problema.

Foi uma virada fenomenal. Há quatro anos o Canadá era visto como a bola da vez para imergir numa crise monetária como a que ceifou metade da riqueza do México da noite para o dia em 1994. Achava-se possível um cenário em que os Estados Unidos ficariam ensanduichados entre dois vizinhos pobres e à beira da falência. Com apenas 30 milhões de habitantes num território maior que o do Brasil e uma renda per capita de 20.000 dólares, pouco menor que a da França, os canadenses se julgavam invulneráveis aos solavancos da economia mundial. Não eram. Numa insolência que até hoje desperta rancor, um economista graduado do governo americano disse que o Canadá era "sério candidato a se tornar um país do Terceiro Mundo". Tinha certa dose de razão. O país importava muito e exportava pouco, a dívida interna beirava assustadoramente os 80% do PIB e o déficit público era o mais alto em meio século, enquanto o desemprego, de 12%, mostrava os dentes afiados da recessão.

Fórmula do sucesso — Qual foi exatamente o segredo do Canadá? "Não existe fórmula mágica em economia. O que o governo fez foi cortar seus gastos, obrigando todo mundo a fazer o mesmo trabalho com orçamento menor", diz o professor Archibald Ritter, da Carlton University. Os setores mais sacrificados foram os hospitais públicos e as universidades. "Felizmente tínhamos gordura para gastar e, no final das contas, a qualidade dos serviços foi mantida." O governo podou fundo também os subsídios generosos com que adubava certos setores da economia. Os créditos de exportação foram substituídos por incentivos à pesquisa tecnológica. "Como regra geral, o que houve de cima a baixo na sociedade canadense foi um banho de racionalismo", explica James Frank, principal assessor econômico do governo canadense. "As instituições e os indivíduos passaram a viver no padrão que suas posses permitem. Foi isso que consertou o país."

Como aconteceu com Tony Blair, na Inglaterra, coube a um primeiro-ministro liberal, Jean Chrétien, colocar ordem na casa bagunçada por um antecessor conservador e ruim de contas. Socialista "com uma pitada de sal de 1 tonelada", como se diz dele, Chrétien tem fama de ser fiscalista, um pão-duro, quando se trata de gastar o dinheiro público. A rainha da Inglaterra, Elizabeth II, que por tradição é também a chefe de Estado do Canadá, não simpatizava com ele. Conta-se que ela sempre o recebia às pressas e de má vontade. Quando Chrétien começou a colher os frutos da reforma econômica, até o humor da rainha com ele melhorou. Num célebre discurso em março no Clube Econômico, em Nova York, Chrétien anunciou a novidade ao mundo: a novidade da economia canadense é um zero. Déficit: zero. O primeiro em trinta anos. Além disso, o desemprego caiu para 8,6% e o crescimento é o maior entre os membros do G-7, os países mais ricos do mundo.

Negócios com o gigante — O exemplo do Canadá não pode ser seguido como uma cartilha por todos os países que, como o Brasil, ainda patinam em déficits e dívidas que não param de crescer. As realidades são bastante diferentes. Mas a reviravolta do Canadá tem lá suas lições. Primeiro, ela mostra que de um caso à beira da perdição se pode passar a uma história de sucesso em dois anos. Segundo, que, enquanto Indonésia, Tailândia e Cingapura namoravam clandestinamente o desastre, países como Canadá, Nova Zelândia, Itália e Irlanda arrumavam a economia em silêncio (veja quadro). Terceiro, que é possível fazer negócios lucrativos com a competitiva e gigantesca economia americana — dez vezes maior do que a canadense — mesmo quando as barreiras comerciais entre os dois países deixam de existir.

"Éramos como uma ostra, lacrada, temerosa de se abrir para o monstro abaixo do paralelo 49", diz o economista Sam Boutziouvis, especialista em competitividade global do Conselho de Negócios do Canadá, uma entidade privada. O Canadá se abriu, e só lucrou com a ousadia. Quando o país negociava os tratados de livre comércio com os Estados Unidos, os críticos diziam que a águia americana iria devorar empresas canadenses. Até agora está ocorrendo o contrário. O mercado americano cresceu tanto e a economia se aqueceu a tal ponto que existe uma demanda permanente por produtos e serviços. As empresas canadenses se aproveitaram disso. A Bombardier, famosa no Brasil por concorrer com a Embraer no mercado de aeronaves para aviação regional, foi a mais voraz. Em um ano, a Bombardier comprou a De Havilland, divisão da Boeing que fabricava aviões pequenos, e a Learjet, que fabrica jatinhos — e tem no Brasil seu segundo maior mercado depois dos Estados Unidos.

CDs e salmão — Antes de mostrar a cara para o mundo, o Canadá se preparou. Controlou a gastança pública, baixou as taxas de juros e desvalorizou a moeda para impulsionar as exportações. Hoje, 1 dólar canadense vale 75 centavos do dólar americano. As exportações reagiram com um vigor impressionante. Atualmente, em um único ponto da fronteira entre os dois países, na província de Ontário, passa de exportação canadense para os Estados Unidos mais do que todo o comércio de empresas americanas com o Japão. Em um único dia, o comércio entre os dois vizinhos americanos chega a 1,1 bilhão de dólares. De cada 100 dólares que as empresas canadenses recebem do exterior, 80 dólares vêm dos Estados Unidos. A ostra se abriu para o mundo e hoje 71,5% da produção econômica canadense gira em torno de exportações. No Japão, que no imaginário das pessoas surge sempre como um agressivo vendedor no mercado internacional, esse valor mal passa dos 17%. "O Canadá aceitou os riscos da globalização, sofreu muito no princípio, mas agora colhe os frutos de sua ousadia", diz o economista W. Paul Jenkins, segundo homem do Banco Central.

Com mais de 80% da população morando a 100 quilômetros da fronteira com os Estados Unidos, o Canadá vive uma luta cotidiana para manter sua identidade cultural. Mesmo assim, as rusgas são café pequeno. Uma das mais instigantes disputas comerciais entre os dois países é travada no campo da música country. Para preservar o mercado em favor de seus cantadores, o Canadá taxa pesadamente os CDs americanos e cria dificuldades legais para as emissoras de rádio tocarem os sucessos do vizinho do sul. Outra briga entre as poucas que os separam se dá por causa do salmão. A frota pesqueira americana é acusada de pescar o salmão ainda em alto-mar, impedindo a tradicional migração dos peixes rio acima pelo Canadá. Nada muito sério, quando 1 bilhão de dólares está cruzando a fronteira a cada dia.

Sócia exemplar do clube europeu

Quando a idéia de unificar a Europa começou a tomar forma final, seus organizadores tinham como certo que alguns países sobrariam. A República da Irlanda e a Itália eram os mais unanimemente apontados como incapazes de preencher as exigências para fazer parte do clube europeu. Eram países campeões de desemprego, gastos públicos fora de controle e moedas podres. Quando se fez a checagem final, no ano passado, para surpresa de alguns, a Itália havia cumprido a maioria das exigências. Para surpresa de todos, a Irlanda também estava com um ótimo perfil financeiro. O país conseguiu fazer um aperto fiscal e cresceu a taxas elevadíssimas, de até 9% ao ano, durante quatro anos seguidos. Investiu pesado em educação e, de tradicional exportador de migrantes miseráveis, passou a importador de cérebros. Até 1995, cerca de 80.000 irlandeses saíam do país a cada ano. Desde 1996, a emigração foi reduzida para quase zero.

O sucesso econômico da República da Irlanda está ajudando até o processo de paz na Irlanda do Norte. Uma pesquisa mostrou que 85% dos irlandeses que, há dez dias, votaram "sim" no plebiscito pela paz foram motivados pelo desejo de "atrair mais investimentos para o país". Exemplos como os da Irlanda, do Canadá e da Itália mostram que os sacrifícios de acertar as contas do governo não resultam em países à prova de crise, mas produzem nações mais orgulhosas de seus feitos. Proporcionalmente a seu PIB, o país que mais atrai investimentos estrangeiros no mundo é uma surpresa para muita gente, a Nova Zelândia. Seu trunfo: há cinco anos a ex-colônia britânica é eleita em fóruns internacionais como um dos três países menos corruptos do planeta. Sua riqueza é a honestidade.




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