|
|
![]() |
| Ale Setti baseado em gráfico da revistaTime |
O mundo acordou para um pesadelo na manhã de quinta-feira passada: o Paquistão, um dos países mais miseráveis do planeta, anunciou sua entrada no pequeno grupo dos donos de armas nucleares detonando cinco bombas num rincão desértico. Como os paquistaneses vivem em permanente estado de beligerância com a vizinha Índia, outra nação que se preocupou em estocar bombas nucleares antes de ser capaz de alimentar decentemente todos os seus habitantes, armou-se no sul da Ásia uma situação de confronto como não se via desde os tempos mais perigosos da Guerra Fria. Invocando o nome de Alá, o Todo-Poderoso, o primeiro-ministro Nawaz Sharif anunciou que "empatamos o placar com a Índia". O 5 a 5 referia-se ao mesmo número de testes nucleares realizados pela Índia há duas semanas. Para agravar o cenário apocalíptico esboçado no subcontinente indiano, o governo paquistanês informou também que já estava colocando ogivas nucleares nos seus mísseis apontados para o inimigo do outro lado da fronteira.
Foi a experiência indiana, arrogantemente assumida, que acelerou a corrida nuclear dos pobres. Os Estados Unidos tentaram de tudo para dissuadir o Paquistão de responder na mesma moeda atômica: promessas de ajuda, ameaças de sanções, telefonemas insistentes do presidente Bill Clinton para Sharif durante a madrugada que antecedeu os testes. Sharif não quis pagar o preço do desgaste diante de uma opinião pública em estado de surto desde os testes indianos. "Deixem que nos imponham sanções", disse um comerciante de Karachi, a maior cidade do país, onde a população comemorou as bombas reais com fogos de artifício, tiros para o alto e dança nas ruas igualzinho aos indianos, duas semanas antes. "O Paquistão agora é uma potência nuclear. Não somos covardes e não nos curvamos à Índia." Para reforçar o papel de vítima, o governo do Paquistão inventou um suposto plano indiano de ataque preventivo contra suas instalações nucleares, pretexto invocado para apressar os testes e decretar o estado de emergência pelo qual são suspensas garantias constitucionais que, de qualquer maneira, não costumam ter vida longa no país.
Sonhos de grandeza Como no caso da Índia, choveram sobre o Paquistão condenações internacionais e sanções econômicas. Nada disso servirá para moderar os dois países, com três guerras no currículo e um estado de beligerância permanente na região fronteiriça de Cachemira. As sanções certamente vão machucar tanto que Sharif acompanhou o anúncio dos testes nucleares com um plano de austeridade nacional. Como a imensa maioria dos paquistaneses não tem o que cortar, resta o consolo da "auto-estima" recuperada a poder de bombas. Do alto de sua economia de anão, apesar dos sonhos de grandeza, o Paquistão é muito mais dependente de ajuda internacional do que a Índia. Com uma renda per capita de 470 dólares (menos da metade da do Piauí, o Estado mais pobre do Brasil), o país consome com gastos militares um terço do Orçamento nacional. Já em 1965, o então primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto, o político mais popular da história do Paquistão (o que não o impediu de ser deposto e enforcado), havia declarado: "Se a Índia construir sua bomba, vamos comer grama, passaremos até fome, mas também faremos a nossa". Fome já existe, e de sobra. Bomba também.
Desde o fim da década de 80, quando os Estados Unidos e a União Soviética, já a caminho do ocaso, iniciaram um processo verdadeiro de contenção de seus arsenais nucleares, a humanidade vinha se sentindo mais segura. O uso das armas nucleares como um instrumento legítimo da estratégia de poder começava a parecer coisa do passado. Com o fim da Guerra Fria, países que aspiravam ter a bomba, como o Brasil, e até aqueles que já a tinham, como a África do Sul, desistiram da aventura nuclear. Os dois vizinhos asiáticos, no entanto, persistiram. Com uma bomba testada desde 1974, a Índia deu um grande passo adiante ao realizar as novas explosões e reivindicar o status de potência nuclear. Fez isso porque quer mais prestígio internacional e também por ter um governo ultranacionalista, declaradamente disposto a botar lenha na fogueira atômica e, de quebra, faturar pontos na política interna. O Paquistão, que seguia a tática de montar um programa nuclear completo, evitando apenas os testes para não levar a paulada das sanções internacionais, se sentiu na obrigação de assumir, com a maior visibilidade possível, a condição de dono de bomba. O clima, de patriotadas movidas a bomba e retórica belicista, é de dar medo. Não se pode apostar muita coisa na moderação no subcontinente indiano. Se americanos e soviéticos mantinham um diálogo permanente, não há sombra de negociações entre a Índia e o Paquistão.
A ameaça imediata é para os dois países, em estado de quase guerra desde a independência, em 1947. O fato de seus arsenais serem compostos de ogivas de menor poder explosivo é, ironicamente, outra má notícia. Se os Estados Unidos e a União Soviética precisavam segurar o dedo no gatilho devido à certeza de aniquilação mútua, indianos e paquistaneses podem acreditar que é possível sobreviver a uma guerra nuclear em pequena escala. Como são vizinhos, eles também não precisam de foguetes de longo alcance para pulverizar seus alvos. É nesses mísseis que o Paquistão anunciou estar instalando as ogivas nucleares. O projeto do míssil, rebatizado de Ghauri, foi comprado prontinho na Coréia do Norte. O Ghauri utiliza tecnologia dos antigos Scuds soviéticos e pode atingir alvos a até 1.500 quilômetros. O próprio nome da arma ilustra o ódio dos muçulmanos paquistaneses contra os antigos compatriotas hinduístas. Ghauri foi o guerreiro muçulmano do século XII que, com o avanço islâmico, derrotou o último rei hindu de Delhi. O rei se chamava Prithviraj, e é por isso que o míssil indiano de maior alcance foi batizado de Prithvi.
A inimizade religiosa e o ódio fratricida entre indianos e paquistaneses explodiram em larga escala por ocasião da independência da Índia, em 1947. Com o desmanche do domínio colonial inglês, a solução parecia ser criar um país para a população muçulmana, o Paquistão. O resultado foi um brutal deslocamento de refugiados imensas massas humanas procurando o território correspondente a sua religião que deixou 2 milhões de mortos. Apenas um ano depois, Paquistão e Índia entraram em guerra pela região de Cachemira, onde os muçulmanos são maioria. Dividida entre os dois países e a China, que se apossou de uma parte, a região é convulsionada do lado indiano por um movimento rebelde muçulmano. Os dois Exércitos rivais trocam tiros com freqüência na fronteira. É aí, justamente, que pode acontecer o impensável: soldados indianos entram em território paquistanês para perseguir guerrilheiros, o outro lado reage, os combates ficam mais violentos. Usa-se, então, uma arma nuclear tática, com raio de destruição restrito ao campo de batalha. Está criado o pretexto para que um dos lados, qualquer um deles, mande um míssil despejar sua carga devastadora sobre uma grande cidade do inimigo. Este, naturalmente, parte para retaliação à altura. É isso o holocausto nuclear que ficou mais próximo.
Os homens por trás das bombasA rivalidade entre o Paquistão e a Índia se deve, em grande parte, ao antagonismo religioso, mas os cientistas à frente dos programas nucleares de ambos os países são muçulmanos. Abdul Qadeer Khan, o pai da bomba paquistanesa, nasceu na Índia e sua família seguiu o êxodo muçulmano quando o subcontinente foi dividido, em 1947. Muçulmano praticante num país de maioria hinduísta, Abdul Kalam é um nacionalista feroz, apaixonado pelo projeto de transformar a Índia em potência. A militância e os cabelos revoltos, que lhe dão a aparência enganosa de um poeta rebelde, fizeram dele figura popular no país. Os indianos o chamam carinhosamente de "homem-míssil", uma homenagem ao criador do foguete Prithvi, cuja missão é levar a bomba nuclear até o vizinho Paquistão. O paquistanês Khan é uma personagem bem diferente, que comanda um laboratório secreto batizado com seu próprio nome. Sua reputação é de cientista brilhante, mas capaz de qualquer vilania para atingir seu objetivo. Anos atrás precisou fugir às pressas da Holanda, onde está condenado à prisão por roubo de tecnologia nuclear. No início de maio, soube-se por um documento apreendido em Bagdá que ofereceu ao Iraque tecnologia para fabricar a bomba atômica a disseminação da "bomba islâmica" é um dos fatores de alto risco do atual quadro. Desde que explodiu suas bombas, Khan é o homem mais popular do país. |
Copyright © 1998, Abril
S.A. |