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Governo
Sobre a relva
Em queda
nas pesquisas, Fernando Henrique
faz pronunciamento para explicar o governo
Ernesto
Bernardes
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| Foto:
Lula Marques/Folha Imagem |
Inspirado
nas entrevistas que os presidentes americanos dão à
imprensa no gramado da Casa Branca, o presidente Fernando
Henrique convocou jornalistas e falou sobre seu governo,
na quarta-feira passada, sobre a relva do Palácio da
Alvorada. Os jornalistas presentes esperavam algum
comunicado surpreendente. Mas a entrevista não tinha
como objetivo anunciar nenhuma medida governamental.
"Faz tempo que nós não temos conversado e eu, de
vez em quando, gosto de conversar mais soltamente com a
imprensa", disse. Tratava-se, na verdade, de uma
reação às pesquisas de opinião que vêm mostrando uma
queda na popularidade do presidente e nas intenções de
voto em sua candidatura. A mais recente, divulgada pelo
instituto Datafolha no último sábado, aponta uma
diferença de apenas 4 pontos entre FHC e Lula. De um
mês para cá, as intenções de voto em FHC caíram de
41% para 34%. E as de Lula subiram de 24% para 30%.
Entre os melhores
talentos de FHC, está sua capacidade de comunicação.
Deveria aproveitá-la com mais freqüência. Nos últimos
tempos, desde o incêndio de Roraima, passando pela seca
e pelos saques no Nordeste e chegando ao triste episódio
em que chamou de "vagabundos" os aposentados de
menos de 50 anos, FHC tem sido econômico no diálogo com
o país. Na semana passada, voltou à arena, com proveito
para o governo e o candidato à reeleição.
Como a demora do
governo em agir diante da seca causou uma perda de
intenções de voto, ele mostrou-se firme:
"Não vai morrer ninguém de fome aqui. Não vai
haver brasileiro, no Nordeste, alcançado por esse
flagelo que não vai ter a solidariedade do povo do
Brasil e do governo do Brasil".
Perguntado sobre os
saques que o MST tem organizado na área da seca,
aproveitou para mostrar os equívocos da oposição:
"Talvez haja alguém que ache proveitoso ter um
cadáver".
"Promover saques é fazer um assalto ao interesse do
povo".
Falou do
arquivamento do processo sobre uso da máquina pelo TSE:
"O
presidente não fez nada, passou dois meses sendo julgado
por uma acusação que, na hora H, disseram que não
existe".
Lamentou as
dificuldades com a reforma da Previdência:
"Se
tivéssemos aprovado a reforma no ano passado, haveria 4
bilhões a menos, neste ano, de déficit".
Aproveitou para
tranqüilizar o eleitor de classe média, que teme a
instabilidade das bolsas e o fantasma de um pacote
fiscal.
"O
Brasil tem de acabar com essa mania de ser a bola da
vez".
"Não vai haver novo pacote. Isso é desnecessário
e está fora de cogitação".
Disse que estava
penalizado por ter de cortar o ponto dos professores
grevistas nas universidades federais:
"É
doído, mas, se tem de fazer, faz".
Defendeu-se também
da acusação de lentidão no combate ao incêndio em
Roraima, que comeu um pedaço de sua popularidade:
"Qual o presidente que vai querer que pegue fogo na
mata? Só Nero, não é?"
O pronunciamento de
FHC serviu para clarear pontos de sombra que vinham
prejudicando a imagem do presidente entre os brasileiros,
mas até o fim da semana isso não se havia refletido nas
pesquisas. Na semana passada, uma pesquisa encomendada
pela Confederação Nacional do Transporte ao instituto
Vox Populi fez várias perguntas sobre o que o eleitor
achava de Fernando Henrique. Elas eram idênticas às que
o jornal americano Washington Post havia formulado
numa pesquisa a respeito do presidente Bill Clinton. Em
todos os itens, Fernando Henrique ficou em situação
mais desconfortável do que se esperava, exceto no da
honestidade pessoal (veja quadro abaixo). Pior: o
eleitor mostra sinais de desconfiança quanto ao
principal trunfo do presidente, o Plano Real. Quando se
perguntou se FHC "mantinha a economia forte",
41% dos eleitores responderam "não", contra
38% que disseram "sim". A popularidade do
governo, no entanto, tem oscilado desde o início. Para o
cientista político Sérgio Abranches, do Rio de Janeiro,
essa oscilação segue um padrão que, se analisado em
profundidade, deixa o Palácio do Planalto numa posição
bem mais confortável. Veja suas conclusões no quadro à
direita.

Artigo
A leitura
errada dos números
Sérgio
Abranches
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"Mesmo
em seu pior
momento, FHC está
empatado com os
adversários. Não
apareceu nenhum
que realmente decolasse" |
| Foto: Alexandre Sasaki |
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As recentes
pesquisas de intenção de voto para presidente,
divulgadas há duas semanas, levaram a duas
interpretações quase unânimes. Uma assegura
que há cada vez mais chance de ocorrer um
segundo turno nas eleições de outubro. A outra
aponta para a possibilidade de a reeleição do
presidente Fernando Henrique Cardoso estar
ameaçada. Trata-se de uma leitura errada dos
números. Estão analisando as pesquisas
isoladamente e, por isso, fazendo uma tremenda
confusão. Poucos se preocupam em olhar de forma
encadeada as fotografias que tais levantamentos
revelam. E saem por aí produzindo equívocos.
Passados
mais de três anos de governo, já é possível
comparar uma série de pesquisas, que têm
amostras semelhantes. Quem o fizer ficará diante
de realidades muito patentes. A primeira delas é
que a avaliação do desempenho do governo tem
uma variação absolutamente regular desde 1995.
Como um despertador pré-programado, o resultado
das pesquisas segue uma rotina impressionante.
Quando chega o mês de abril, a popularidade do
governo começa a cair. Atinge seu pior momento
em maio (no caso do Ibope) ou em junho (pelo
Datafolha) e, a partir de julho ou agosto, a seta
vira de posição, voltando a subir. Essa
tendência se mantém até dezembro, quando
atinge seu ápice.
O que
explica essa rigorosa regularidade? A cesta
básica, o exemplo perfeito da inflação
popular. Abril é um mês em que sazonalmente o
preço dos alimentos sobe. Vem maio e com ele o
aumento do salário mínimo. A sensação é de
frustração, até porque qualquer reajuste
possível fica sempre aquém do desejado. Mas o
relógio das pesquisas é pontual: em junho a
cesta básica começa a cair e a popularidade de
Fernando Henrique se recupera.
O segundo
fator que explica uma queda na avaliação do
desempenho do governo não é o desemprego, mas
sim a expectativa de a inflação subir. Sim,
esse fantasma ainda ronda a cabeça das pessoas.
O massacre de Eldorado dos Carajás em 1996
ajudou a empurrar para baixo os índices de
aprovação de Fernando Henrique, assim como a
seca e o episódio dos "vagabundos"
contribuíram para piorar a sua popularidade
agora, mas basicamente há um forte componente do
medo da volta da inflação.
Em outubro,
quando estourou a crise da Ásia, Fernando
Henrique lançou um duro pacote fiscal. A cena
foi parecidíssima com a dos pacotes
antiinflacionários do Plano Collor e de outros:
a equipe econômica explicando aquelas coisas
complicadas, ao vivo pela televisão, é uma
imagem assustadora para a população,
independentemente da classe social. O resultado
foi um agravamento impressionante da expectativa
da inflação. Portanto, quando a inflação da
cesta básica diminuir, a tendência é que a
avaliação do desempenho do governo suba.
Também nas
pesquisas de intenção de voto as análises
estão desfocadas. Fernando Henrique está
estabilizado. E, mesmo em seu pior momento, ele
aparece empatado com a soma de seus adversários.
Isso significa que ainda não apareceu nenhum
candidato que realmente decolasse. Só fatores
não previsíveis poderiam alterar esse quadro.
Até aqui, o tanque do qual Fernando Henrique
pode tirar votos é maior que o tanque de que a
esquerda pode tirar votos.
Sérgio
Abranches é cientista político
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