O QUE ELES QUEREM

Os dirigentes do MST dizem que não querem só terra e falam em revolução e socialismo

André Petry e Eduardo Oinegue

Foto: Liane Neves
"Queremos uma sociedade socialista e igualitária. Este é um conceito doutrinário, não uma reivindicação. Junta duas utopias realizáveis. O socialismo é igualdade, é o ideal cristão. Vamos fazer isso mudando nossas elites, que precisam deixar de ser subservientes. Tudo o que vêem no exterior querem copiar. Não passam de lúmpen, que ficam pensando em como vão continuar mamando no Estado."
João Pedro Stedile, dirigente nacional do MST

"Estamos diante de uma organização absolutamente nova e diferente de tudo o que já se viu na História do Brasil. O Movimento dos Sem-Terra revelou ao país um tipo de organização de massa que nós não conhecíamos." Quem faz essa afirmação é o deputado Milton Temer, do PT do Rio de Janeiro, militante da ala radical do partido e habituado às lides de esquerda. Criado em 1984, entre agricultores do Rio Grande do Sul, o MST virou um fenômeno — político e social. Sua principal bandeira, a reforma agrária, é um assunto do século passado, fora de moda, embora ainda insepulto no Brasil dos latifúndios. Entre seus 100.000 seguidores, há de tudo: desempregados, analfabetos, agricultores arruinados, comerciários sem eira nem beira, gente que foi bóia-fria ou veio de favelas nas grandes cidades. Formam a massa que a esquerda tradicional sempre julgou ser impossível organizar e conduzir — o chamado lúmpen, a expressão que Karl Marx usou para designar "o lixo de todas as classes". Sua estrutura tem um quê da velha concepção de partido criada por Lenin, o revolucionário russo, com hierarquia rígida e comando centralizado. Pois não é que uma bandeira tão arcaica, uma massa de pés descalços e uma estrutura tão antiquada agitam o Brasil de norte a sul?

Na semana passada, os militantes do MST fizeram saques em Pernambuco, invadiram delegacia de polícia na Bahia e ocuparam agências bancárias no Paraná, no mesmo momento em que o governo começava a distribuir cestas básicas nos 1.236 municípios afetados pela seca no Nordeste, mandava o Exército para a região e anunciava que irá gerar 1 milhão de empregos em frentes de trabalho. Na quarta-feira, numa entrevista de uma hora e meia nos jardins do Palácio da Alvorada, Fernando Henrique consumiu mais de um terço do tempo falando sobre seca, saques e sobre ele, o MST. Criticou a invasão de bancos no Paraná. "Quando o MST entra num banco é igualzinho, igualzinho, a alguém que entrou num banco como assaltante", disse. Explicou que não condenava saques de supermercados quando feitos por famintos: "O problema é quem não está com fome. Quem está usando a fome para assaltar".

Estudantes do Grupo
Escolar Mao Tsé-tung, em
acampamento na Bahia:
aprendizado engajado
Fotos: Fernando Vivas  

Mais cedo ou mais tarde, a seca deste ano vai acabar. O que não vai acabar é o MST, porque a seca é apenas seu palco atual. Ele tem outros. As fazendas que invade são um deles. Os prédios públicos que ocupa são outro. Como se viu na semana passada, agências bancárias também servem. Organizado em 22 Estados, o movimento está no seu momento de maior ebulição. Começou pedindo terra em 1984, passou a pedir crédito agrícola dois anos depois, reuniu 40.000 numa marcha a Brasília no ano passado e agora promove invasões e saques porque, no fundo, o MST quer muito mais do que se pensa. Distribuição de terras é apenas uma etapa do projeto global. As lideranças do MST querem transformar a sociedade e, se possível, abocanhar o poder para fazer do Brasil um país "socialista e igualitário", como dizem em seus documentos. Alguns de seus dirigentes chegam ao delírio. "Podemos tomar o poder um dia, fazer a revolução, mas não pensamos nisso agora. Quem vai determinar o próximo passo é a conjuntura", diz Jaime Amorim, líder do movimento em Pernambuco. No governo, essa retórica é acompanhada com lupa. A parte mais radical do MST preocupa as pessoas que precisam pensar em eventuais conseqüências nefastas de uma ação indesejável do exército descalço da bandeira vermelha. "Sinto tristeza que o MST tenha deixado de ser um movimento social pela reforma agrária para se tornar um movimento político e ideológico", diz o general Alberto Cardoso, chefe da Casa Militar do Palácio do Planalto. "Se eles ameaçarem a democracia, o Estado vai reagir."

Imagem de Che Guevara
em acampamento no
Nordeste: sandinismo,
maoísmo e Igreja

"Jogo duplo" — O MST não nasceu assim. Embora anacrônico, com os dois pés fincados num tempo que já passou — quando a oligarquia rural tinha o poder dos barões da indústria de hoje, quando a reforma agrária era uma solução moderna do capitalismo, quando as massas operárias miravam a revolução — , ele está em plena mutação e cada vez mais politizado. Está ocupando o vácuo do movimento sindical urbano que, diante da ameaça do desemprego, prefere fazer bingos em estádios de futebol em vez de se arriscar em greves mais ousadas. Já os sem-terra são tão pauperizados que não têm nada a perder — emprego, carro, casa e, em muitos casos, dignidade. Com uma disposição meio messiânica, permitem que a cúpula do MST transite da reforma da terra para a reforma da sociedade — pois acreditam que o que vier, seja lá o que for, será necessariamente melhor. O grande mentor desse novo perfil é um dos fundadores do movimento: João Pedro Stedile, gaúcho de 44 anos, casado, pai de quatro filhos e economista formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. É ele a alma mais radical do MST.

"Zapatistas, Che Guevara, maoístas, marxistas, leninistas, gostamos um pouco de todos, mas não seguimos nenhum. Temos influência até de Jesus Cristo. Podemos tomar o poder um dia, fazer a revolução, mas não pensamos nisso agora. Quem vai determinar o próximo passo é a conjuntura. Por enquanto, nossa luta é para que possamos ser exemplo com nosso trabalhozinho pequeno. O povo tem de ocupar o seu lugar neste país. Seja pelo voto, eleição ou pela força dos movimentos."
Jaime Amorim, dirigente do
MST em Pernambuco

Stedile é um homem de determinação incomum. Ele colocou na cabeça um tipo de batalha pessoal, a luta em defesa dos humildes. Dia após dia, chova ou faça sol, lá está ele andando de ônibus pelo Brasil afora, conversando com políticos em Brasília ou mantendo contatos com ONGs no exterior. Sobretudo, pensando numa forma de ação que possa ajudar o movimento e apavorar Brasília. É fácil discordar das finalidades ideológicas de seu projeto arcaico, mas a prática diária é a defesa dos excluídos. Pela trajetória pessoal, o líder maior do MST guarda pouca semelhança com seus colegas dirigentes, a maioria oriunda de famílias de agricultores pobres que perderam a terra por causa de dívida. Stedile estudou em seminário, trabalhou como funcionário público em Porto Alegre e estudou no exterior. Cursou pós-graduação em economia no México. Enquanto viveu na Cidade do México, andando de sandália de couro e calça cáqui, lia textos de faróis do comunismo como Lenin, Karl Marx, Mao Tsé-tung. Envolveu-se com os sem-terra na condição de funcionário público ao voltar para o Brasil.

O prefeito do município de Chapecó (SC), José Fritsch, do PT, lembra-se de quando tudo começou, em 1980. Havia uma área com 1.600 hectares num município chamado Ronda Alta, que pertencia ao Estado mas havia sido arrendada para particulares e acabou invadida. Fritsch, na época assessor da igreja junto aos movimentos rurais, e um padre, Arnildo Fritzen, foram ao acampamento, que estava cercado pela brigada militar do Estado. Dentro da fazenda, no prédio onde antes funcionava uma escola, encontraram os representantes da Secretaria de Agricultura do governo. Entre eles, João Pedro Stedile, que era funcionário do governo. Stedile os recebeu com um sermão. Ele dizia que não queria ver a igreja estimulando invasões. Fritsch e o padre foram embora. À noite, compareceram a uma reunião dos sem-terra e reencontraram Stedile, dessa vez organizando os acampados. "Ele fazia jogo duplo. De dia, fingia estar do lado do governo. À noite, incitava à mobilização", diz o prefeito. "Era um artista", lembra o padre. Político de bons recursos retóricos, Stedile sabe empregar as frases certas nos ambientes certos. Na semana passada, ao receber VEJA para uma conversa que durou duas horas, empregou um fraseado sereno.

Em ambientes mais reservados, normalmente ligados à esquerda, Stedile costuma ser mais agressivo. Leia-se o que disse no encerramento de uma palestra durante um seminário sobre socialismo promovido pelo Instituto Sedes Sapientae, em junho de 1991: 1) "A reforma agrária interessa a toda a classe trabalhadora e deixou de ser apenas uma questão econômica para resolver o problema dos sem-terra que estão passando fome. Ela passou a adquirir um caráter revolucionário". 2) "Nós imaginamos que vai ser impossível implantar o socialismo no Brasil se não se fizer a reforma agrária, ao mesmo tempo que não se consegue a reforma agrária sem implantar o socialismo". 3) "E para chegar a esse ponto, eu, pessoalmente, não acredito que vamos conseguir com eleição". 4) "Então eu acho que nós devemos ter a consciência de preparar a classe trabalhadora sabendo que essas mudanças, que são necessárias, não serão dadas de mão beijada, nem na base do voto, nem de uma maneira simplista e fácil, devagarinho".

Foto: Claudio Rossi
"O objetivo do MST é mudar o modelo de sociedade. Para isso estamos preparando o povo. Tem alguém que não gosta? Pois há 100 milhões que querem isso. O MST está oferecendo ao país um projeto novo para enfrentar o projeto burguês. Precisamos romper com a burguesia. Só não sei quando, nem como. Se eles vão sair correndo, se eles vão para outro país, se eles vão ficar numa boa, não sei."
Delveck Mateus, dirigente do
MST em São Paulo

"Stedile puxa as cores ideológicas do MST e, com isso, freia conquistas", diz Gilmar Viana, diretor de Conflitos do Incra, o departamento mais movimentado do órgão. "Enquanto os seus liderados vão invadir porque querem terra, crédito, agroindústria, Stedile diz que têm de invadir para combater a política neoliberal." No governo, o ministro Raul Jungmann, da Política Fundiária, tem relações tumultuadas com Stedile. "Ele é o produto do ódio que o colonato do Rio Grande do Sul, imigrante e religioso, tem contra a modernidade, a tecnologia e a incerteza do capitalismo", declara o ministro. "Não dá para debater com ele. Ele é muito agressivo." Quem debate, então, é o presidente do Incra, Milton Seligman, gaúcho e torcedor do Grêmio, como Stedile. O presidente do Incra abomina o "absoluto desrespeito do MST às instituições democráticas", acha que Stedile é um "marxista típico dos anos 60 com um pensamento velho sobre o Brasil", mas é sensato o bastante para não cortar relações nem deixar de elogiar o movimento no terreno da produção. "Os assentamentos do MST são os que se tornam produtivos com maior rapidez. O pessoal do MST consegue, de fato, transformar a agricultura familiar em um fato econômico", afirma Seligman.

O MST não é partido político, nunca apresentou em público, formalmente, uma proposta de país ou de governo e não pode ser encarado como um movimento revolucionário. Ainda assim, a visão do poder assanha uma parte da sua cúpula. Os líderes jamais tocam nesse assunto muito claramente, mas o governo até já colocou as mãos em documentos internos do MST em que se fala na disposição de criar "zonas autônomas" — coisa que a guerrilha de esquerda, nos seus tempos mais férteis, chamava de "áreas liberadas". O MST gosta de elogiar pelo site que mantém na Internet (www. mst.org.br) a experiência da União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (Ultab), criada em 1954. A entidade foi fundada pelo Partido Comunista do Brasil e suas principais bases de atuação estavam em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mas foi em Goiás que as Ultabs obtiveram o maior sucesso. Lá, trabalhadores rurais liderados por um lavrador conhecido como "Zé Pureza" conseguiram dominar as cidades de Trombas e Formoso. A revolta começou como luta armada, e durante dez anos os rebeldes sobreviveram, praticando uma agricultura de subsistência, até ser desmantelada pelos militares em 1964.

José Rainha (à direita),
liderança que era contra
o apoio a Lula: sem-terra
de resultados
Fotos: Ricardo Stuckert  

No campo ideológico, o MST é um liquidificador. Ali, existem os que se inspiram em Ernesto Che Guevara, simpatizantes do sandinismo nicaragüense, adeptos das táticas maoístas de começar a revolução pelo campo em direção às cidades, defensores de uma "pátria operária e socialista", tudo misturado com princípios da Teologia da Libertação, bênção das Comunidades Eclesiais de Base, de onde saiu boa parte de seus dirigentes, inclusive Stedile. Essa salada de nomes pode ser encontrada nos discursos e também na paisagem criada pelo MST. Um exemplo é o pitoresco Grupo Escolar Mao Tsé-tung, construído no acampamento Beira Rio, numa área do ex-banqueiro Ângelo Calmon de Sá, no interior da Bahia. É difícil saber o que resulta de tanta mistura, mas a comparação mais freqüente, e talvez mais fiel, é com os atuais zapatistas, seguidores de Emiliano Zapata, líder da revolução mexicana de 1911, que levantam a bandeira de libertação dos índios do sul do México (veja quadro). "A diferença é que os zapatistas defendem os índios, enquanto o MST defende os sem-terra", diz o deputado Milton Temer. "Eu diria até que o MST tem algo parecido com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Farc. Nesse caso, a diferença é que as Farc já são um movimento armado, e o MST não." As Farc nunca chegaram perto de ganhar a bela Bogotá, e vivem sob a suspeita de manter relações íntimas demais com o narcotráfico.

Clandestinidade — Dentro desse caldeirão ideológico, há alguns traços marcantes. O MST, de alto a baixo, devota um desprezo solene pelo modelo de representação da sociedade, que considera "burguês". Daí a freqüência com que invade prédios de prefeituras pelo interior do país. Outra característica do movimento é jamais sentar para discutir formas de descentralizar a reforma agrária, o que poderia agilizar o processo de distribuição de terra. Descentralizar a reforma agrária significa fazê-la diretamente com todos os que querem entrar no programa de distribuição, sem ter os líderes do MST como intermediários da doação. "Tocar no assunto de descentralização com o pessoal do MST é como mostrar crucifixo para vampiro", diz um diretor do Incra. Isso porque, com a reforma centralizada, tudo converge para a pressão sobre o governo em Brasília, e assim dá ao MST um papel de destaque no plano nacional. Além disso, o movimento respira pelos pulmões do Estado, à medida que cobra uma taxa dos assentados quando eles ganham crédito oficial. "Indiretamente, o governo financia o MST. Mas não podemos impedir isso. É como proibir um metalúrgico de pagar o sindicato", declara o diretor.

"A China garante emprego e alimentação para o seu povo. E isso não é pouca coisa já que o país tem 1,2 bilhão de pessoas. Com tanta gente, o sistema não iria durar se não fosse democrático. Democrático não no sentido capitalista da palavra, mas no sentido de dar igual tratamento a todos. Em nenhuma parte do mundo o capitalismo resolveu o problema dos trabalhadores."
Egídio Brunetto, dirigente do
MST no Mato Grosso do Sul

Sua cúpula nacional, formada por 21 membros, jamais foi vista reunida numa fotografia. Com o ranço leninista da clandestinidade, seus dirigentes evitam a visibilidade e, com isso, passam a impressão de integrar um movimento monolítico. Não é. Todos ali querem reforma agrária, defendem as invasões e organizam saques. Mas existem as divergências. Uma delas: há os que estão preocupados mais com a produção agrícola dos assentamentos, como José Rainha, líder do Pontal do Paranapanema. "Ele agita as massas, é capaz de reunir 10.000 pessoas de um dia para o outro, mas, enquanto faz isso, também negocia inseticida, adubo e problemas concretos da produção", diz um assessor do Incra responsável pela área do Pontal. É o que se pode chamar de sem-terra de resultados. E há os que se inclinam mais para a política, como Stedile. Em fevereiro passado, o MST aprovou, publicamente, seu apoio à candidatura de Lula e, outra vez, houve divergências internas. Rainha é um dos que não gostam da vinculação direta com o candidato do PT. Roberto Baggio, líder do movimento no Paraná, é outro. Mas Stedile e Jaime Amorim, de Pernambuco, defendem o apoio ao petista. Quando o PT escolheu seu novo presidente entre o moderado José Dirceu e o radical Milton Temer, deu racha. Stedile votou em Temer, da ala radical. Rainha foi de José Dirceu, da facção moderada. Dirceu ganhou. Apesar das relações íntimas entre PT e MST, não existe um canal de comunicação direta. Ao contrário. Entre os moderados do PT há até uma certa resistência contra os métodos do movimento. Lula, por exemplo, já disse publicamente que não apóia os saques organizados no Nordeste. Pode ter dito isso porque está em campanha eleitoral, mas na semana passada sua assessoria até evitou que visitasse um assentamento cujas famílias saquearam um mercado. São atitudes que provocam, no mínimo, estremecimento entre o partido e os sem-terra.

Da porteira à portaria — Com catorze anos de idade, o MST transformou-se na única força de oposição capaz de chacoalhar o governo. No Ministério da Política Fundiária, a cada dois meses é feita uma pesquisa de opinião sobre ações do movimento. Nessas pesquisas, o apoio à reforma agrária é constante e majoritário — fica em torno de 80%. Já os métodos do MST chegaram a ter também 80% de adesão popular, entretanto de março para cá, com saques misturados às invasões de sempre, o apoio caiu para 58%. Ainda é alto, mas o governo torce para que caia mais. "Há um processo de rejeição ao MST", afirma o ministro Jungmann. "O MST conquistou o país após o episódio de Eldorado dos Carajás", recorda ele, referindo-se ao massacre de sem-terra no sul do Pará em 1996. "Mas agora eles invadem prédios públicos, agências bancárias, organizam saques e fazem até reféns. O MST errou ao tirar o conflito da porteira e trazê-lo para a portaria. A opinião pública, sobretudo a classe média, está ficando assustada", afirma o ministro. "Se não entrássemos em bancos na semana passada, quem é que saberia que o governador do Paraná não havia liberado o dinheiro prometido para os sem-terra há seis meses?", retruca Stedile.

Em relação ao MST, o governo se comporta como uma enguia — ora vai para um lado, ora para outro. O governo já fez várias ameaças na tentativa de conter as invasões de terra, mas, na hora H, nem sempre cumpre a palavra. Tanto que as invasões seguem ao sabor do que os sem-terra querem fazer — sobem numa região, descem em outra e assim por diante. Em março, aconteceu o auge das invasões no Nordeste e no Sul. No Sudeste, o pico foi em abril. Entre as 29.250 famílias que ocuparam 155 fazendas em todo o país nos primeiros quatro meses deste ano, 70% levavam a bandeira vermelha do MST. O presidente Fernando Henrique já disse que o governo não pode apostar na repressão. "Se o Estado reagir com a força de que dispõe, com repressão, não vai resolver", disse, numa entrevista ao jornalista Roberto Pompeu de Toledo, de VEJA, publicada no livro O Presidente Segundo o Sociólogo. "Por outro lado, não se pode não fazer nada. É claro que no MST tem gente que imagina estar fazendo a revolução socialista. Há quem pense até em revolução armada, sei que há. Mas eles não vão fazer a revolução, não têm condições para isso. Então, se não tivermos compreensão da situação, poremos em risco a democracia ou a mudança. Não se pode pôr em risco nem uma nem outra. É preciso manter um difícil equilíbrio."

Não haveria MST se não houvesse miséria. O movimento também tem o mérito de ter reconduzido a reforma agrária à agenda nacional, como nos anos 30 e no início da década de 60. Sendo a reforma agrária uma questão meramente social e não agrícola, há uma multidão de pobres que prefere ir tentar a sorte no campo em vez de ficar inchando as favelas urbanas. O problema é a estratégia adotada por seus líderes. A cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, da Universidade de São Paulo, analisou o texto A Reforma Agrária Necessária, uma das referências teóricas do MST. O texto traz uma proposta de reforma agrária e as medidas que o movimento considera fundamentais para a construção de uma nova sociedade. Na opinião da professora, os objetivos descritos no texto são absolutamente desejáveis: trabalho para todos, alimentação farta, justiça social, igualdade de direitos, entre outros. "É o reino dos céus na terra. Ninguém pode ser contra isso. O problema é a fórmula anacrônica que eles pregam para chegar aos objetivos", afirma. Para Maria Hermínia, o MST defende um socialismo revolucionário fora de época, deslocado, inviável. "Falam como se nada tivesse ocorrido no mundo nas últimas décadas. Fingem ignorar que esse modelo não deu certo em nenhum dos lugares em que foi implantado."

Soldados da última trincheira

Os punks do comitê
brasileiro pró-zapatistas:
juntos com o MST
Foto: Renata Ursaia  

O espelho distante do MST está na pequena região de Chiapas, no México. Pela pobreza, Chiapas está para o México como o Piauí para o Brasil. É ali em Chiapas que, depois do fracasso do "socialismo real" nos quatro cantos do planeta, vive o único grupo de esquerda capaz de manter-se em evidência na mídia e atrair simpatizantes no mundo todo. Trata-se da guerrilha zapatista, movimento surgido há quatro anos entre camponeses de origem indígena. Tomando emprestado o nome de Emiliano Zapata, herói da revolta camponesa do início do século, o grupo é uma tropa mambembe que controla militarmente 35 cidadezinhas e prega um modo de produção coletivista. "Os zapatistas representam a queda do muro neoliberal", afirma o líder do MST, João Pedro Stedile. "Enquanto o México estava assinando um tratado de formação de bloco comercial com os Estados Unidos, o Nafta, querendo fazer parecer que a miséria no país havia acabado, Chiapas e os zapatistas mostram ao mundo o que o neoliberalismo realmente faz numa sociedade." Boa parte da fama dos zapatistas deve-se ao carisma de seu líder, um sujeito que só aparece para as câmeras de cachimbo e máscara e se apresenta como o subcomandante Marcos. Há comitês de solidariedade aos zapatistas em oitenta países, e no Brasil eles unem MST, CUT, padres, grupos de defesa dos direitos dos negros e até punks. São os "punks zapatistas", conforme se denominaram. Até lenço cobrindo o rosto eles usam. Como seus heróis mexicanos.

Com reportagem de Esdras Paiva, de Brasília,
Maurício Lima e Rogério Gentile, de São Paulo,
Cintia Campos, de Salvador, e Eduardo Salgado
e Sandra Hahn, de Porto Alegre




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