Uma treva na luz

"No Rio querem proscrever a droga e legalizar o traficante"

Marcos Sá Corrêa

Elizabeth Tognato

A última do carioca é a notícia de que a prefeitura deu para instalar interruptores nos postes de iluminação das favelas, para que os interessados possam desligar a luz quando chega a polícia. Democratizou-se o toque de recolher, que em outras terras costuma ser prerrogativa típica de governos fortes, porque sem o interruptor os postes seriam apagados no peito. É o que explicou ao jornal O Globo um funcionário da Rioluz, a empresa municipal que tem a patente da novidade: "Cansamos de perder lâmpadas por disparos dos traficantes".

Falava para reportagem sobre a violência que, sem querer, publicou uma tabela com a cotação de quem manda na cidade. Pelo visto, no paralelo, as autoridades estão em alta. No Borel, que se debruça sobre o bairro da Tijuca, uma empreiteira do Rio Grande do Norte desistiu de um contrato de 9 milhões de reais para urbanizar a favela, porque os donos do morro faziam por ela a seleção do pessoal e à noite conferiam a identidade dos engenheiros. "Não estamos acostumados com isso", alegou o diretor Gilberto Sá. E pensar que, no começo do século, na geopolítica do cangaço, para procurar bandido de calibre suficiente para peitar prefeito e governador era preciso procurar na história do Nordeste. O mapa do Brasil está ao contrário.

Produto caro a tal lâmpada da Rioluz. Para poupá-la, queima-se o Estado. Saiu pela culatra o Favela-Bairro. Antes de adotar o interruptor, o que a prefeitura prometia fazer com esse zelo era o oposto: entrar nas favelas não apenas para enfeitá-las, mas para encurralar com a frente de obras o crime entrincheirado na involuntária marginalidade dos moradores. Era assim, pelo menos, que o ex-prefeito Cesar Maia anunciava o programa, invocando seus orixás da ordem pública, como o alemão Ralf Dahrendorf e Rudolph Giuliani, seu confrade nova-iorquino, que aplicou na cidade a fórmula da intolerância até com as pequenas infrações. Deu no que deu. Ou seja: em poste de blecaute.

O Rio de Janeiro não precisa desses monumentos à subversão. Lá, a onda de assalto a banco já quebrou sobre uma agência que funciona dentro do Palácio Guanabara. Na Baixada Fluminense, o assassinato de prefeitos e vereadores anda tão corriqueiro que, para a campanha eleitoral deste ano, está difícil arregimentar candidatos. Há políticos desistindo de concorrer por razões que não se viam desde que aquilo era território do deputado Tenório Cavalcanti, um fóssil político que há trinta anos é tido por extinto no Rio de Janeiro. Ele, pelo menos, com sua capa preta, sua metralhadora e sua fanfarronice, era folclórico.

O problema do banditismo no Rio é complicado. Talvez não possa ser resolvido por qualquer governo, muito menos um governo municipal. Mas o que toda autoridade pode fazer é não afagá-lo. Porque, em nome de dificuldades semelhantes, há países que discutem seriamente a legalização da droga. Mas só aqui se vislumbra a hipótese de proscrever a droga e legalizar o traficante.


A Polícia Federal, que prendeu na semana passada o advogado Ronaldo Bravo, o último integrante da quadrilha que fraudou mais de 500 milhões de reais do INSS.

O laboratório Pfizer, que conseguiu em um prazo recorde a liberação no Brasil do remédio contra impotência Viagra. Estima-se que centenas de contrabandistas estavam vendendo remédios falsos.

Os pecuaristas gaúchos e catarinenses, que conseguiram um selo internacional de qualidade para a carne bovina e suína. Eles esperam dobrar as exportações em dois anos.

Para o Ministério da Justiça, que ordenou aos supermercados etiquetar o preço de seus produtos, mesmo que eles tenham código de barras. Os códigos tinham diminuído em 30% o tempo das filas.

As dezessete editoras que tiveram seus livros didáticos rejeitados para uso nas escolas públicas por terem erros grosseiros, como textos preconceituosos contra portadores de Aids.

O programa Comunidade Solidária, sem verbas até para comprar leite em pó da cesta básica. O orçamento de 160 milhões de reais no ano passado caiu para 100 milhões.




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