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"Demoro
a dormir e só tenho conforto quando vejo as coisas dele e seu retrato em frente da minha cama" |
| Foto: Ana Araujo |
Na noite do dia 21 de abril, o deputado Luís Eduardo Magalhães daria uma entrevista às páginas amarelas de VEJA. Hospitalizado depois de um infarto fulminante no início da tarde, morreu seis horas depois. Na semana passada, o senador Antonio Carlos Magalhães, pai do deputado, fez questão de falar à revista, cumprindo um compromisso do filho. "Ele queria dar essa entrevista. Por isso eu estou aqui", disse o senador, com os olhos marejados. ACM, 70 anos, três vezes governador da Bahia, mais de quarenta anos de vida pública, atual presidente do Senado, tem atravessado os piores dias de sua vida desde a morte do filho. Na segunda-feira, terminou uma maratona incansável: falou com médicos, examinou radiografias e diagnósticos, para convencer-se de que a morte de seu filho era inevitável. Conseguiu chegar lá, mas tem sofrido profundamente. "Faço um grande esforço para não chorar, para não sofrer. Eu não me livro da presença de Luís Eduardo. Perder um filho é a maior dor do mundo", diz ele. A entrevista:
Veja O senhor sente muito a ausência de Luís Eduardo?
ACM Eu tinha a ilusão de que o tempo iria me ajudar a diminuir o sofrimento com a morte dele. Isto não está acontecendo. Espero, com a ajuda de Deus, dos baianos, que nunca me faltaram, e de meus amigos, vencer as aflições que tenho vivido.
Veja Como é essa aflição?
ACM Abrindo meu coração, Luís Eduardo é a presença constante que tenho em cada minuto, cada momento da minha vida. Olho para o meu gabinete no Senado e o vejo lá, à tarde, como fazia todos os dias. Quando almoço, vejo Luís Eduardo na segunda cadeira da mesa, onde ele almoçava. Eu o vejo, mesmo que haja uma pessoa qualquer sentada na cadeira. Eu o vejo fisicamente. A hora de dormir é difícil...
Veja O senhor tem insônia?
ACM Demoro a dormir, e só tenho conforto quando estou vendo as coisas dele, seu retrato em frente da minha cama. Por quarenta dias, pesquisei tudo o que aconteceu com Luís Eduardo. Voltei aos médicos, comparei laudos, diagnósticos, radiografias e ouvi outros cardiologistas. Houve unanimidade. Ficou provado que, apesar de não ter dado sinais evidentes, a situação do coração de meu filho era difícil, e era inevitável o desfecho trágico do dia 21 de abril.
Veja Muita gente imaginou que, depois disso, o senhor não manteria o mesmo ritmo no seu trabalho.
ACM Faço um grande esforço para não chorar, não sofrer. Eu não me livro da presença de Luís Eduardo. Perder um filho é a maior dor do mundo. Mas não tenho vontade de desistir. Insisto e estou vencendo, trabalhando para não perder as minhas diretrizes. Mas isso tem um custo muito alto. Estou sempre me vendo com ele. Luís Eduardo não me sai do pensamento. Tive conversas com dom Eugênio (dom Eugênio Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro) para ver se entendia essas coisas melhor.
Veja Por que o presidente Fernando Henrique está caindo nas pesquisas?
ACM Isso sempre acontece no mês de maio, por uma conjunção de fatores adversos, como o aumento do salário mínimo. Agora somou-se a isso a seca no Nordeste, a ausência de Luís Eduardo e a de Sergio Motta, as derrotas na Previdência e as declarações do presidente chamando de vagabundos os aposentados com menos de 50 anos. Essas declarações tiveram uma interpretação negativa, sobretudo porque foram exploradas pela mídia. O importante é que, quando Fernando Henrique cai, seus adversários não se aproveitam de sua queda. Significa que a população acha que ele é o melhor e que, muitas vezes, não encontra as qualidades do presidente em seus adversários.
Veja O presidente está falando demais?
ACM O presidente tem de falar. Quando usar expressões inadequadas, tem de desdobrá-las. Deve explicar. O presidente tem de dizer que vagabundo é quem rouba o Estado, sonega imposto, é o deputado que ganha e não comparece para votar, é Jorgina, que fraudou a Previdência, os juízes que prevaricam. Um país pobre, que precisa de recursos para dar assistência mais digna aos aposentados, não pode pagar 15000, 40000 reais para meia dúzia de privilegiados. Eu conheço um banqueiro, cujo nome não vou dizer, que se aposentou aos 42 anos só para tirar 700 ou 800 reais do INSS. É um absurdo. É coisa de vagabundo.
Veja É verdade que o senhor não tinha uma boa relação com o presidente no início do governo?
ACM Sempre me dei bem com Fernando Henrique. Tive divergências, como no caso do Banco Econômico ou da cobrança de mais imposto de renda para a classe média. Foram divergências públicas, mas um não perdeu o respeito pelo outro. Hoje, inegavelmente, a minha posição com ele é melhor, levando em conta o apreço e o carinho que ele demonstrou antes do falecimento de Luís Eduardo. Eu procurarei fazer um pouco do muito que Luís Eduardo fez por seu governo e sua reeleição.
Veja E Sergio Motta? Também dizem que o senhor e ele tinham problemas no começo do governo.
ACM Um assunto pessoal acabou nos aproximando, mas não quero falar disso. Ele tinha uma capacidade imensa de resolver problemas e criar outros. A mídia cria antagonismos que não são tão intensos. Uma vez, jantamos num restaurante em Brasília só para efeito de publicidade, para verem que conversávamos. Sergio Motta fez coisas importantes no ministério e fora dele. Ele faz falta.
Veja A negociação do governo com o Congresso, o chamado toma lá dá cá, é inevitável?
ACM Em qualquer Parlamento, a negociação pode e deve ser feita. O que não se pode é negociar o inegociável. Não se pode negociar o leite das crianças. Isso é um crime. Mas pode-se negociar uma escola, um hospital... Quando esse dinheiro não chega para escola ou hospital, cabe o processo contra quem recebeu.
Veja Quando o senhor foi ministro das Comunicações, no governo Sarney, houve distribuição de concessões de TV para aprovar o mandato de cinco anos do presidente.
ACM Antes, quem recebia um canal ficava devendo um favor ao governo. Hoje, quem ganha pagou com dinheiro, e não fica devendo nada. Aparentemente, está perfeito. Mas, na prática, o governo tem de ter o arbítrio. Deve dar canal de televisão para quem merece do ponto de vista moral, de publicidade e de força política. Pode não ser como era no governo Sarney, mas o governo não pode perder o poder de arbítrio.
Veja As negociações entre governo e Congresso sempre foram assim?
ACM Seu conceito não é correto porque generaliza. Mostre quando eu, Luís Eduardo, Aloysio Nunes Ferreira, Roberto Brant e outros 100, 200, 300 parlamentares fizemos pedidos ao governo. Assim como eu, existem parlamentares da mais alta correção. Alguns congressistas pedem e levam. O Congresso é a representação da sociedade brasileira, com seus defeitos e virtudes. Enquanto não tivermos partidos sólidos a negociação política será, muitas vezes, desprezível.
Veja O PFL é um partido sólido?
ACM É bem organizado, dos melhores do país, mas não é o partido ideal. Ideal é o Partido Republicano dos Estados Unidos, por exemplo, ou o Partido Trabalhista dos ingleses.
Veja E o PSDB?
ACM Somos bem mais estruturados do que o PSDB. Hoje, o PSDB é só Fernando Henrique.
Veja O que lhe chamou a atenção na semana em que o senhor ocupou a Presidência da República?
ACM O excesso de segurança. É tanta segurança que dificulta o contato popular. Fernando Henrique tem vontade de estar mais perto do povo, mas os esquemas institucionais o impedem.
Veja Quem é o melhor político de esquerda que o senhor já conheceu?
ACM Acho que quem melhor soube interpretar a vontade política do brasileiro foi Juscelino Kubitschek. Ele tinha uma grandeza, não tinha ódio, sabia tudo de política. Eu tinha uma relação excelente com ele porque meu pai e ele foram colegas na Câmara em 1935.
Veja Com uma boa representação no Congresso, por que a bancada nordestina jamais uniu forças para combater o flagelo da seca?
ACM No Nordeste, existe o MST verdadeiro, que é minoritário, e o MST falso, que são os aproveitadores, que fazem discursos e não querem reforma agrária. Há áreas de fome no Nordeste, mesmo sem seca. A pobreza no Nordeste é permanente. Há um desequilíbrio regional muito grande e só quando aparece a seca os homens do Sudeste pensam no problema. A pobreza é por falta de industrialização, agricultura, financiamentos oficiais, enfim, vantagens que são dadas a São Paulo e não ao Nordeste. Eu tenho procurado conscientizar o Sudeste sobre o problema. O Brasil nunca será homogêneo com essa desigualdade. Mandar alimentos e cestas básicas de São Paulo para o Nordeste é solidariedade que pouco ajuda. O que resolve é mudar o estado de pobreza.
Veja O senhor participou de vários governos e nunca reclamou desse estado de coisas?
ACM Reclamei sempre. Eu sempre insisti nisso. Como governador, reclamei na Sudene. Mas, de um certo tempo para cá, a Sudene tem-se desfigurado. Hoje é um órgão pouco útil para o Nordeste.
Veja O senhor é um coronel?
ACM Nunca fui coronel, nunca. Fiz minha carreira ligada ao povo. Poucos receberam no Brasil tanto batismo popular quanto eu. Seria uma estultice pensar que sou coronel, que cometo violências e o povo vota em mim. Não sou truculento e a prova é que 80% dos baianos votam em mim. Tenho voto no interior e na capital. Precisam rotular ACM de coronel porque ACM é um homem forte. Se sou pai do meu povo, sou um pai amoroso. Que governador formou mais homens públicos? Eu. Formei Paulo Souto (ex-governador da Bahia e candidato ao Senado), formei Imbassahy (Antônio Imbassahy, atual prefeito de Salvador), Waldeck Ornélas (atual ministro da Previdência), que está encantando a todos em Brasília pela sua competência. Essa gente toda é ligada a mim. Na média, a bancada da Bahia é a melhor do país.
Veja O senhor já foi visto como a consciência da burguesia nacional. Isso é correto?
ACM Ninguém me viu entre burgueses, no high society. As pessoas me viram com o povo. Sou um político e ninguém me excede no contato popular. Desafio qualquer um. Peço pelo salário mínimo, peço para os assalariados não pagarem imposto. Que burguês é esse?
Veja O senhor percebe preconceito contra o político nordestino?
ACM O preconceito existe e, em particular, contra Inocêncio Oliveira, que já pagou por isso. Existe de todas as partes, sobretudo de São Paulo, onde há uma deformação da burguesia, que tem força sobre a mídia. Contra ele falam dos poços, já devidamente pagos pelo deputado, mas nunca saldados pela mídia. Esse preconceito não é só da mídia, mas dos brasileiros do centro de decisão, sobretudo de São Paulo. E eu gosto de São Paulo. Se eu fosse um líder nacional, grande parte desse preconceito seria superado.
Veja O senhor leu muito sobre política?
ACM Sou mais intuitivo que cientista. Li o indispensável, como Karl Marx, John Kenneth Galbraith, John Maynard Keynes. Quem não lê isso entre os 18 e os 25 anos não pode ser político. Mas minha leitura predileta são as biografias.
Veja Qual a sua preferida?
ACM A biografia de Napoleão, que eu admiro e respeito.
Veja O senhor tem mágoas da primeira-dama Ruth Cardoso, que disse que havia um PFL bom, de Gustavo Krause e Reinhold Stephanes, e outro ruim, do ACM?
ACM Como diria o Golbery, foram salvas trocadas. Não nos conhecíamos direito e hoje nos conhecemos melhor, embora eu não tenha intimidade com ela. Mas tenho certeza de que o PFL de dona Ruth hoje é o PFL de Antonio Carlos e Luís Eduardo Magalhães.
Veja O que o senhor faz nas horas de lazer?
ACM Gosto de banho de mar, de piscina e de novela, coisa que a elite abomina. Nessa novela que terminou agora (Por Amor, da Rede Globo), a atriz Suzana Vieira, que interpretou o papel de Branca, teve um desempenho excepcional.
Veja É a sua atriz preferida?
ACM Gosto de Fernanda Montenegro, e ela gosta do meu trabalho na Bahia. Tenho excelente relação com artistas. Já tive discussões com Caetano Veloso, ele disse que eu era sexy mas mandava demais. Sou muito amigo da mãe dele, dona Canô, de Gilberto Gil. Isso não é política, é baianidade.
Veja O que é baianidade?
ACM É um estado de espírito em relação à terra em que se vive e a todas as características singulares da Bahia, que nenhuma outra terra tem, como o sincretismo religioso, a cordialidade. O baiano é o povo mais cordial do Brasil. Na Bahia não tem racismo, preconceito.
Veja Como não tem?
ACM Não, não tem.
Veja O senhor é católico e vai ao candomblé?
ACM Vou ao candomblé, mas acredito em dom Eugênio. Quem não conhece o candomblé não pode governar a Bahia. Não vou ao candomblé por crença, vou por baianidade.
Veja Qual o futuro do Brasil?
ACM O país pode estar lado a lado com as grandes nações do mundo. Nossa perspectiva é boa.
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