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Cultura Todo
grande homem é uma causa, um país
A Vida de Disraeli Primeiro-Ministro & Amigo da Rainha Victoria, obra do mestre francês das biografias André Maurois (1885-1967), acaba de ganhar magnífica e fluida tradução de Gleuber Vieira para o português (Nova Fronteira; 249 páginas; 49,90 reais). Por que ler sobre a vida de um aristocrata inglês do século XIX quando parece se desmanchar no ar em profunda crise de identidade o sólido mundo que ele e sua turma ajudaram a criar? Um mundo dominado pela democracia representativa amparada nas virtudes e pecados da civilização ocidental sob o patrocínio do capitalismo industrial e financeiro e movido a inovações tecnológicas. São múltiplas as razões. Uma delas é a de que para um estadista não existem surpresas, mas páginas das biografias dos grandes homens que ele não leu. Portanto, na improbabilíssima hipótese de se desmanchar no ar o mundo que conhecemos, ele terá de ser reconstruído. A vida de Benjamin Disraeli, bem estudada, pode fornecer os fundamentos arquitetônicos de um sistema político que, malgrado seus vícios, funciona, se transforma, progride e visa ao bem-estar da maioria.
Para um entomologista, uma mosca jurássica preservada intacta durante milhões de anos em uma cristalina cápsula de âmbar teve uma urna mais rica do que o túmulo de Cleópatra. Para Dis-raeli, as citações eram o âmbar da cultura ao preservar a sabedoria e a experiência passadas. As citações já se chamaram epigramas. Hoje são apenas frases feitas. Mas quando feitas pela primeira vez, por definição, são originais. Disraeli não inventou o gênero das cápsulas de agudeza mental e concisão do idioma, mas foi um de seus mestres. Tivesse sido apenas isso, ainda seria lembrado. Mas Disraeli foi duas vezes primeiro-ministro da Inglaterra e dominou, em alternância com seu gentil rival, William Gladstone, a política da potência hegemônica do século XIX. Que rival. Um dos achados de Gladstone foi simplesmente a criação, em 1862, do mundo empresarial contemporâneo com a definição do conceito de sociedade de responsabilidade limitada. Devemos ao Act of 62 de Gladstone a existência da empresa privada, organização cujos acionistas, caso o negócio naufrague, perdem apenas o que investiram. O capitalismo empresarial continua sendo um sistema em que alguém paga um preço alto para ter o direito de correr o risco de perder todo o investimento. Mas, antes de 1862, o acionista podia perder todo o seu patrimônio pessoal e familiar e até a própria liberdade. Que potência. Sabia rir de si mesma. O Act of 62 foi levado ao absurdo na opereta Utopia Limitada ou As Flores do Progresso, da dupla dominante dos palcos do período, Arthur Sullivan e William Gilbert. Eles fazem piadas do imperialismo inglês imaginando sua chegada a uma feliz ilhota no Pacífico chamada Utopia ("O que temos a ganhar? Instituições inglesas, gostos ingleses e, oh, moda inglesa!"). Disraeli chegou ao topo sendo judeu, de origem italiana, em uma monarquia cristã em que o soberano era e é até hoje o chefe supremo da igreja. Ele nunca abjurou completamente de sua fé, mas também nunca a proclamou. Talvez só o filósofo judeu Moses Mendelssohn (1729-1786), avô do compositor Felix Mendelssohn, tenha tido uma trajetória de sucesso comparável à de Disraeli. Gago, corcunda, Mendelssohn entrou em Berlim, ainda uma cidade medievalmente fortificada, pelo portão destinado aos animais. Mendelssohn pagou imposto de gado sobre o próprio corpo. Quinze anos depois, era o mais influente intelectual da Alemanha e um dos expoentes do iluminismo europeu, que ele combinou racionalmente com a fé judaica. A Europa ao tempo de Mendelssohn e Disraeli discriminava os judeus por sua religião e sua cultura. Esse sentimento só mais tarde, no século XX, degeneraria em antissemitismo. A diferença? De vida e morte. O antijudaísmo era uma doença social contornável pela tolerância simplesmente ou pela abjuração religiosa e o abrandamento cultural, a assimilação dos judeus no seio das maiorias que lhes eram hostis. O holocausto promovido por Hitler só começou a ser desenhado quando o ódio foi criminosamente transferido para a raça. Raça não se abjura, não se abranda, e uma guerra contra uma raça só se ganha com a eliminação física do inimigo. Que também o sentimento de justiça social tenha degenerado em tiranias comunistas assassinas diz muito sobre o século XX.
Todas as grandes verdades começam como blasfêmias. A vida política e de escritor de Benjamin Disraeli começou assim, com o cinismo de quem sabe que tudo tem um preço mas, mesmo assim, ou exatamente por causa disso, não valoriza nada. Como só o triunfo consola alma ferida, o jovem judeu Disraeli, depois de sofrer pelo tom azeitona de sua pele e por suas raízes, lançou-se na corte vitoriana do século XIX com a fúria dos blasfemos e o cinismo das pessoas que se imaginam apenas seres ornamentais. Dizzy, como se fez conhecer, logo ganhou substância e o dandismo passou a ser apenas a expressão aristocrática de sua mente. Ele chegou ao posto máximo de primeiro-ministro em uma Inglaterra que era dona do mundo, com uma Royal Navy e seus canhões que podiam atacar onde quisessem, quando quisessem. A Inglaterra era um predador sem predadores. Estava no topo da cadeia alimentar. Em um planeta cuja vida econômica dependia vitalmente das rotas navais, ela dominava os mares. Seu poder relativo foi maior do que o dos americanos atualmente. Aos olhos dos ingleses ao tempo de Disraeli, os americanos eram uns primos que sobreviveram naquela plantação distante do outro lado do Atlântico, tendo dado até 1776 prejuízo ao tesouro de sua majestade, sem nada contribuir para as despesas inerentes a sua defesa e que, de repente, pela influência perversa dos franceses, decidiram que o curso dos eventos humanos os impelia a dissolver suas ligações políticas com sua nação-mãe. Mais tarde, um embaixador americano na Corte de Saint James confessaria candidamente que essa mania de colocar a busca de utopias irrealizáveis à frente de questões práticas era um projeto resumido em uma palavra que Napoleão inventara: ideologia.
Da massa terrestre chamada Europa, a Inglaterra ocupava-se pouco. Só não queria que surgisse ali alguma potência incontrastável e cuidava, portanto, de apoiar a nação que aparecesse em segundo lugar. A Inglaterra sempre se entendia com os europeus continentais pela diplomacia, intriga, sabotagem, espionagem ou simplesmente comprando vontades. Dizzy entendeu-se com o chanceler de ferro alemão, Otto von Bismarck, a quem tentou em vão convencer das virtudes da colonização e a quem, desafiando a saúde em frangalhos, acompanhou em um charuto, pois o homem que não fuma deixa a impressão de estar espreitando as palavras do outro. Arrancou do alemão uma paz honrosa. Quando o entendimento no padrão londrino não foi possível, como no caso de Napoleão, a Inglaterra enviou ao continente um certo Arthur Wellesley, que aprendera a guerrear os franceses em Portugal quando o mandaram vigiar o país enquanto dom João VI e a corte de Lisboa estavam seguros no Rio de Janeiro criando um banco, uma biblioteca e um jornal. Dizzy nasceria nove anos antes de Wellesley resolver o problema do continente pelas armas em 1815, deixando triunfante o campo de batalha de Waterloo. Como um improvável e galante Delorges, ao final portava o par de luvas que Napoleão, em dia de Cunegundes, arremessara com ódio na ravina enlameada ao sul de Bruxelas em sua derrota final. Wellesley chegou a primeiro-ministro. Feito duque de Wellington, manteve até o fim de seus dias grave presença na política da Inglaterra, reagindo a qualquer pergunta com um simples e indecifrável "Ah". Teria desprezado Dizzy se tivesse prestado nele alguma atenção.
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