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Especial O Japão do emprego
vitalício, dos gordos bônus e das
Todos os anos, em abril, quando as cerejeiras florescem no Japão, as empresas repetem uma tradição: logo de manhã, enviam aos parques das cidades os funcionários mais jovens, recém-saídos da faculdade, para que se sentem sob a mais frondosa árvore que encontrarem e lá permaneçam até o fim do dia. A honorável missão é "guardar lugar" para os colegas mais velhos que, encerrado o expediente, se reunirão no local para o "hanami", ou "contemplação das flores" antigo ritual que, no caso dos "sarariman" (corruptela do inglês "salaryman", ou trabalhadores assalariados), inclui o consumo de hectolitros de saquê e cerveja. No auge da última florada, não se via uma cerejeira vaga nos parques de Tóquio. Se a crise não abalou o hanami, popular desde os tempos feudais, o mesmo não se pode dizer dos sarariman. Seu mundo está com as primaveras contadas aquele em que as empresas, tal qual xoguns modernos, são responsáveis pelo bem-estar dos trabalhadores, o emprego é vitalício, a produtividade é recompensada por gordos bônus e o salário dos funcionários aumenta quanto mais velhos eles ficam. O modelo, surgido no pós-guerra, funcionou muito bem até a década de 80, saiu trincado da recessão dos anos 90 e agora parece fadado a ruir de vez. Para o Japão, seu desaparecimento não significará apenas uma mudança de métodos de gestão, mas de modo de vida. A imagem da sociedade hierarquicamente ordenada e altamente produtiva, na qual o cotidiano segue imutável como o curso das estações, está em desacordo com o capitalismo em desalinho e o que vai surgir a partir dele. O Japão é a segunda nação mais rica do mundo, e sua população apresenta uma das menores disparidades de renda. Estava começando a sair de uma década e meia de estagnação quando a crise financeira o engoliu. Em Tóquio, ela se materializa nos parques, na forma de dezenas de sem-teto que antes não constavam da paisagem. De madrugada, uma visita a cibercafés mostra que alguns dos frequentadores estão lá para se distrair da insônia ou porque perderam o último trem para casa grande parte da freguesia é formada por vítimas da crise que, na falta de lugar mais barato para passar a noite, pagam 5 dólares por hora para dormir, na maioria das vezes sentadas, no interior das cabines (veja o quadro). O Japão enfrenta um de seus piores momentos desde o fim da II Guerra. No período de um ano, a economia encolheu mais de 15%. As exportações despencaram 45% em março e, no setor automobilístico, o tombo chegou a incríveis 65%. Já a taxa de desemprego ficou em 4,8% bem mais baixa que os 8,5% dos Estados Unidos, por exemplo. A explicação para isso é que, ao contrário do pragmatismo americano que faz com que verbos como "enxugar", "secar" e "cortar" sejam conjugados com a mesma naturalidade com que se come um hambúrguer, a lógica japonesa determina que, mesmo diante de um excesso de mão de obra, empregadores ainda enxerguem a demissão como um recurso vergonhoso. Desde o ano passado, eles contam com dinheiro público para evitá-la: o governo se compromete a pagar até 80% dos vencimentos dos empregados que as empresas decidirem não dispensar. Em março, quase 50 000 companhias recorreram ao benefício ainda que muitas estejam repletas de operários sem ter o que fazer. "As grandes empresas japonesas enxergam os funcionários como patrimônio", diz o economista Masamichi Adachi, analista da JP Morgan em Tóquio. Entre os aspectos positivos dessa visão, está o grau de comprometimento do empregado com a qualidade do produto que ele fabrica um dos pilares do "toyotismo", o método de produção que a Toyota disseminou a partir dos anos 50, em contraponto ao "fordismo", que privilegiava a quantidade em detrimento da qualidade. Já o lado deletério do princípio do emprego vitalício, afirma Adachi, é a redução da competitividade das indústrias japonesas "em relação ao mundo em geral e à China em particular".
Além de fragilizar o Japão diante da concorrência, o engessamento das relações de trabalho no país criou também um problema social: o aumento do número de empregados temporários, uma raridade até a década de 80, quando 84% dos trabalhadores eram permanentes. O Japão vinha de três décadas de crescimento vertiginoso e as empresas disputavam à ponta da espada tanto a mão de obra operária (o fenômeno dos dekasseguis brasileiros teve início aí) quanto os recém-formados que as universidades produziam a cada ano. Com o fim dos anos dourados, o emprego para esses últimos sumiu. Data desse período o surgimento dos "shushoku-ronins", literalmente, "estudantes desempregados", denominação para os jovens que, com o intuito de evitar o constrangimento de sair da universidade sem colocação, prolongam sua estada nos bancos escolares usando expedientes que vão desde o não cumprimento dos créditos exigidos até o fracasso deliberado nos exames. As empresas, por sua vez, passaram a absorver um número crescente de trabalhadores provisórios, que podem ser dispensados a qualquer hora. Hoje, o contingente responde pela vasta maioria dos desempregados do país, não dispõe de uma rede de proteção social adequada (ela ainda é precaríssima no país) e tornou-se alvo de discriminação sobretudo os pertencentes à subcategoria dos freeters. O termo (contração de "free", livre em inglês, com "arbeiter", trabalhador em alemão), que nasceu para designar os jovens que se recusavam a seguir o caminho corporativo tradicional e preferiam ser "trabalhadores livres", hoje serve para classificar aqueles sem emprego fixo, que têm entre 21 e 34 anos, não ganham o suficiente para se sustentar e, por causa disso, são malvistos pela sociedade (veja o quadro). Os freeters, em geral, vivem com os pais estes, sim, detentores da riqueza no Japão. Três quintos da poupança privada do país estão nas mãos de cidadãos com mais de 60 anos. Tamanha concentração ganha contornos bem concretos aos olhos do visitante que passeia por Ginza, bairro com as mais requintadas lojas de departamentos de Tóquio. Lá, funcionários de marcas de grife bocejam e os raros clientes que atendem são quase sempre aqueles que fizeram seu pé-de-meia nos bons tempos em que, dizia-se, só o terreno do Palácio Imperial valia mais do que todos os imóveis da Califórnia. Os mais velhos no Japão não são apenas os mais ricos: são também os primeiros na fila de promoção. Tanto no setor público como no privado, a maioria das empresas ainda define o valor dos salários com base na data de nascimento do empregado: quanto mais velho ele for, mais deve ganhar. "É uma das grandes dificuldades das empresas do país: substituir o conceito de senioridade pelo de meritocracia", diz o advogado americano Kenneth Port, especialista no mercado japonês. Para Adachi, o sistema de promoção por tempo de serviço vai demorar a ser extinto. "Está profundamente arraigado na sociedade." No último dia 20, o ministro das Finanças Kaoru Yosano veio a público anunciar uma boa e uma má notícia. A má foi que a queda no produto interno bruto no primeiro trimestre de 2009 foi de 4%, a maior desde a II Guerra. A boa foi que, afinal, o Japão havia chegado ao fundo do poço. "Penso que o pior já passou", disse o ministro. Na quarta-feira, a notícia da diminuição na queda nas exportações de 45% para 39% melhorou ainda mais os ânimos. Mas especialistas concordam que uma nação que tem a China nos seus calcanhares, pronta para abocanhar-lhe os fregueses, terá de fazer reformas estruturais profundas se não quiser perder o trem-bala da história. Sair do fundo do poço não é garantia de que não se vá cair dentro dele de novo. Nada que os japoneses já não conheçam. A história recente do país é de superação e resistência (veja o quadro). Nas duas últimas décadas, ele viu seu sistema bancário ser reduzido a frangalhos e os índices de desemprego e falência atingir níveis recordes. Entre 1995 e 2004, registrou nove deflações. Quando se preparava para respirar, foi colhido em cheio pela crise, como já se disse. Apesar de tantos percalços, o Japão mantém há quatro décadas o posto de a segunda maior economia do planeta, graças a investimentos maciços em educação e produção tecnológica. O admirável mundo novo que surgirá depois do vendaval da crise dissipou algumas certezas dos japoneses, tal como as flores de cerejeira no fim da primavera. Mas as bases em que o seu país foi construído são robustas o suficiente para fazê-lo sair da tormenta maior do que entrou.
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