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Exposição Exposição
de moda no Rio de Janeiro é uma
Arrume os cabelos, faça uma maquiagem leve, aperte o cinto com mãos metaforicamente enluvadas e embarque nesta viagem: uma volta ao mundo com Yves Saint Laurent, costureiro francês que morreu no ano passado, deixando um legado de beleza e elegância legendárias. O convite, claro, é dirigido às mulheres que Saint Laurent cultuou com a paixão dos meninos embevecidos pelas mães, mas vale para qualquer um que goste de coisas bonitas e supremamente benfeitas. As invenções e reinvenções do prodígio da moda, que aos 21 anos, em 1957, assumiu o lugar de Christian Dior e aos 25 abriu sua própria maison, têm um lugar garantido na história do vestuário: a camisa de chiffon transparente, o suéter de gola rulê, a jaqueta estilo safári, o smoking feminino, entre tantos outros. A exposição inaugurada na semana passada no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro é focada no aspecto mais esfuziante do gênio criativo de Saint Laurent, o "estilo étnico", que ele explorou muito antes que a expressão se tornasse banal no vocabulário da moda. São cinquenta conjuntos de roupas e acessórios agrupados de acordo com a fonte de inspiração: África, China e Japão, Espanha, Índia, Marrocos e Rússia. Apropriadamente, o nome da exposição é Yves Saint Laurent Viagens Extraordinárias. Antes de desembarcarem no Rio, as peças foram reunidas e expostas ao público apenas em 2006, na fundação criada em Paris pelo estilista e por Pierre Bergé, seu sócio e companheiro. Instalada no número 5 da Avenida Marceau, endereço icônico da maison, a fundação tem um acervo de 5 000 roupas de alta-costura e 15 000 acessórios, croquis e objetos que pertenceram ao estilista. As peças de vestuário são preservadas em armários e gavetas à prova de poeira, com temperatura ambiente entre 18 e 20 graus e níveis de umidade controlados. Só a parte do acervo em exposição no Rio tem valor equivalente a quase 8,5 milhões de reais. A mostra não é linear, mas oferece um panorama riquíssimo do ecletismo de Saint Laurent, que nasceu na Argélia colonial e teve, assim, um olhar educado para a explosão de cores das roupas dos lugares onde não existe o conceito de tailleur preto com luvas brancas. Os modelos de inspiração russa, por exemplo, nasceram de uma viagem imaginária aos Ballets Russes, a companhia de dança radicada na Paris do começo do século XX. A coleção datada de 1976 desfechou a onda das camponesas chiques: saias compridas de tecidos coloridos, coletes com bordados suntuosos e detalhes de pele de zibelina. "Pode não ser a melhor, mas é certamente a mais bonita", disse Saint Laurent sobre a série. As peças mais antigas são da coleção africana, de 1967, a primeira grande investida do estilista no veio étnico. Entre elas, um vestido com formato cônico na altura dos seios, feito décadas antes do famoso corpete criado por Jean Paul Gaultier e usado por Madonna, em 1990. "A série africana é, sem dúvida, a mais importante parte da exposição em termos históricos e por suas formas. Algumas criações são verdadeiras esculturas", diz Gaël Mamine, curador da fundação e uma das cinco pessoas autorizadas a manusear os arquivos, sempre com luvas de algodão. A viagem do material, com carga total de 1,4 tonelada, teve complexidade comparável à feitura, manual em todos os menores detalhes, de uma peça de alta-costura. Cada um dos 364 itens foi embalado em papel de seda, guardado em caixa de papelão e, por fim, armazenado em caixote de madeira. As roupas são expostas em manequins projetados pelo próprio Saint Laurent. Os das roupas africanas, por exemplo, são azuis. Do total, 24 peças precisaram de autorização especial para entrar no país porque foram confeccionadas, numa época em que isso ainda era aceitável, com matéria-prima animal, como um vestido de pele de leopardo da Somália. "É tudo excepcional porque faz parte de uma era que acabou. Mulheres passavam por três, quatro provas para comprar uma roupa na maison. Um simples botão podia custar o equivalente a 100 euros. Só uma camisa Saint Laurent consumia cinquenta horas de trabalho", disse a VEJA Hélène von Ludinghausen, que durante 31 anos foi diretora dos salões de alta-costura da grife e se lembra apenas de uma brasileira, a socialite Carmen Mayrink Veiga, entre as clientes internacionais frequentes. Tímido terminal desde a infância, quando era alvo da chacota tantas vezes dirigida aos seres de espírito feminino, dado a colapsos nervosos e abuso de substâncias químicas, Saint Laurent teve com Bergé uma parceria que sobreviveu a excessos de todos os tipos. Gastadores e sonhadores, criaram uma marca estilisticamente poderosa e financeiramente ensandecida. Começaram com um sócio americano, que vendeu sua parte a uma empresa de cosméticos e essa a passou para a Squibb, gigante farmacêutico. Depois, endividaram-se para reassumir a grife e, com ajuda do estado-papai francês, foram transferidos para a Sanofi, subsidiária da petrolífera Elf, então estatal. Em 1999, o Gucci Group, do ramo do luxo, assumiu as divisões de prêt-à-porter, cosméticos e perfumes, os dois últimos comprados no ano passado pela LOréal. Em 2002, ele entregou os pontos e aposentou a tesoura, abandonando a alta-costura. Na mostra, há 29 croquis e réplicas dos cartões que Yves Saint Laurent desenhava nas festas de fim de ano para enviar aos amigos e clientes (sempre com a palavra "Love"). Também fazem parte da exposição, para criar um clima, quinze das cadeiras douradas nas quais damas da sociedade e celebridades como Catherine Deneuve se sentavam para assistir aos desfiles. Sente-se de novo, metaforicamente numa delas e viaje com Saint Laurent.
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